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A resistência dentro da resistência

Beatriz, Elias, Ingrid, Larissa - 25/09/2019

Dentro de um ritmo já marcado por luta, as mulheres estão no cenário do rap baiano para batalhar

Beatriz Rosentina, Elias Santana Malê, Ingrid Medina e Larissa Travassos – 14 de outubro de 2019

A Bahia pode até ser a terra de todos os santos, encantos e axé, mas também é lugar de muita resistência, flow e ritmo. Desde os anos 80o rap faz parte da cena alternativa do país. Aqui no estado, grandes nomes como Baco Exu do Blues e Hiran já fazem sucesso nacionalmente.  Cada vez mais as mulheres também vêm ocupando esses espaços e fazendo a cena mais forte e menos desigual. Porém, assim como no resto do Brasil, a cena baiana do rap ainda é um ambiente machista e em grande parte dominado pelos homens. Igualdade, reconhecimento e respeito são apenas algumas reivindicações feitas pelas mulheres presentes na cena.

“O maior desafio que eu enfrentei mesmo foi o ingresso nessa cena, na minha cidade quando comecei a fazer rap, queria montar um grupo, uma banda, para poder dar seguimento a esse trabalho. No começo esse espaço sempre foi negado para mim e os trampos que eu conseguia queriam me colocar para fazer refrão ou back vocal, sendo que eu tinha muito a falar. Queria cantar, estar na produção, no processo de criação”, conta a rapper Emmer’C. Nascida em Eunápolis, cidade do extremo sul da Bahia, Renata Carvalho, 25, conhecida no cenário do rap como Emmer’c, cresceu rodeada por artistas. Seu pai, poeta, e seu irmão, músico, foram as principais inspirações para que ela se jogasse na cena. Porém, o começo da sua trajetória foi marcado por muito preconceito e machismo.

E foi através do rap que a cantora Lara Nunes resolveu dialogar com seu público e pautar temas como morte da população negra, abuso e violência. O rap deu corpo a sua carreira e trouxe à luz assuntos entalados na garganta, inclusive experiências próprias. Desde os 15 anos, ela consome esse gênero musical, por muito tempo teve que esconder seu gosto por escutar jargões racistas e preconceitos em frases como “músicas de presídio”. O reconhecimento pelo seu trabalho veio aos poucos, para se fortalecer fez parte do Slam das Mulé, batalha de poesia feminina de Camaçari.  Ano passado representou a Bahia no Slam BR – Campeonato Brasileiro de Poesia Falada e esse ano ficou em segundo lugar no Torneio Nacional Singulares de Poesia, primeiro slam nacional destinado para mulheres, transexuais e gêneros dissidentes.

Os desafios da cena

Nunes, ao longo da sua carreira, passou por uma situação na qual tentaram descredibilizar sua vitória em um campeonato.“A mulher precisa se impor, ter noção de suas capacidades”. Segundo ela, isso foi um lembrete de não abaixar a cabeça, porque é o que mais acontece.  A cantora de rap, como prefere se intitular, destaca o caráter heteronormativo e patriarcal que vem se desconstruindo a cada dia com a participação de mulheres e LGBTs.

“A mulher precisa se impor, ter noção de suas capacidades.”

Lara Nunes

“O machismo está presente quando te colocam pra cantar o refrão, quando colocam só uma mina na line, quando a gente recebe cachê menor do que os caras, quando os caras não respeitam as mulheres em batalhas com versos machistas ou na construção de uma música quando colocam a mulher como um objeto”, afirma a rapper.

“A mulher precisa estar inserida, ter voz, e queremos que mais mulheres frequentem as batalhas”. Essa é uma questão colocada por Jéssica Santos, 24 anos. As mulheres ainda precisam lutar para conseguir espalhar a sua arte, combatendo o machismo, que sempre está presente, seja na letras das músicas, nas programações de muitas batalhas que não as contemplam ou na inferiorização da capacidade da mulher nas disputas.

Letras e clima das batalhas

Muitos artistas apelam para o preconceito em suas letras. Apesar de inerente, isso é recorrente no rap e em outros estilos. Numa batalha, muitos se utilizam deste artifício para se sobressair ou desestabilizar um/a adversário/a. Com isso, machismo, racismo, LGBTfobia e gordofobia se fazem presentes neste ambiente. Com o objetivo de construir uma alternativa às batalhas que muitas vezes se mostram tóxicas, algumas disputas exclusivas para mulheres surgiram.

É o caso da Batalha das Bruxas, que surgiu em 2017 e era organizada pelo Coletivo Vira-Lata. Porém, alguns problemas inviabilizaram sua organização. Em 2019, através de um grupo no WhatsApp que visava reunir mulheres que produziam e consumiam rap na Bahia, foi conformada a Coletiva Arminina. Este coletivo foi responsável por trazer a Batalha das Bruxas à ativa novamente.

A poetisa, atriz e rapper Amanda Rosa conta que as batalhas femininas são espaços essenciais para as mulheres no rap. “As batalhas são importantes para que a gente consiga se fortalecer e chegar nos espaços majoritariamente masculinos”, diz. Apesar da grande competição, essas batalhas femininas se mostram, sobretudo, como um ambiente de cooperação entre as mulheres, como afirma Lara Nunes. “É muito louco o clima que fica, porque é um nervoso tão grande, mas ao mesmo tempo uma torce pela outra”. Amanda também fala sobre a diferença entre as batalhas. “Nossas batalhas são um espaço de acolhimento. Muitas mulheres que nunca pensaram em batalhar se sentem estimuladas a entrar na disputa. Até Bruninha, uma menina de nove anos, se sente à vontade para participar e isso é muito bom para nós”, relata.

Para Gabriela Costa, estudante de medicina veterinária, o rap é importante para que as minorias tenham suas vozes escutadas. “É isso que o Hip Hop faz, dar poder as pessoas individualmente, não botar alguém para te representar, acaba permitindo isso para as pessoas que nunca teriam essa oportunidade”, afirma, depois de ter assistido a Batalha da UFBA, na sexta-feira (27/09), uma edição voltada para mulheres.

Devido a sua importância e relevância na cena, a Batalha das Bruxas passou a integrar a seletiva do circuito 3º Round, representação baiana nas fases classificatórias para o Duelo Nacional de MC’s, principal competição brasileira de rimas. Rosa, que foi uma das quatro vencedoras da qualificatória da Batalha das Bruxas, conta que relata vivências das mulheres em suas rimas e versos.

Com essa mudança de panorama em que as mulheres se inserem e se posicionam no mundo do rap, mudam também as letras que dão vida a essa forma de expressão. As músicas pautam quase sempre o tema de resistência dentro da cena e também da vida cotidiana, mas sempre enaltecendo a posição da mulher. Dessa forma elas criam um espaço seguro no qual incentivam outras mulheres a escutar, participar e ajudar a desconstruir o machismo que, infelizmente, ainda ocupa um espaço considerável nas rimas.

Na letra da música “Na maciota”, a cantora Emmer’C busca, por exemplo, trazer à tona um enfrentamento, como no trecho “As preta peita quem quer peitar”. Ela também ressalta que as mulheres estão “tomando a cena [do rap] de assalto”. Além disso coloca a mulher em um lugar de destaque “sou leoa”, exaltando as mulheres na cena e levando mais equilíbrio para dentro do rap.

Mercado da música

Se para muitas cantoras que desbravam esse mercado lançar música é um sonho, isso Nunes já realizou. “Minha primeira música lançada oficialmente foi um rap, O alvo tem cor, lançada em 25 de julho de 2019”, conta com orgulho. “É preciso mostrar segurança e ter consciência de que você faz um trabalho legal”, afirma.

Na música de Emmer estão presentes as suas vivências, como mulher negra e nordestina. Em processo de criação do seu disco solo “Samaritana”, a MC afirma que seu novo projeto vai abordar diversos temas. “Será um disco que vai falar sobre amor, vai ter crítica social, música de empoderamento com várias misturas de ritmos. Então está sendo um desafio além, fazer o rap mais outras vertentes musicais”.  O disco será um trabalho totalmente independente, feito por ela e vários amigos que estão nessa cena musical. A cooperação vai da filmagem à edição.

Emmer’C Foto: Marcella Meireles

Atualmente, além da sua carreira solo, Emmer’C também participa do grupo KBSativa MC’s . Composto por ela e Nettox MC, o grupo foi criado em 2016 e tem como trabalho de lançamento o single “Boas Novas” https://soundcloud.com/kbsativamcs. Lançado em Agosto de 2018 o clipe “Erê”, produzido pela Armanda.mov é o mais recente projeto do grupo.

O objetivo dessas rappers é ser resistência nesse meio ainda tão machista, trocando o papel em que as colocaram pelo que de fato elas já ocupam ou desejam ocupar. Um lugar onde elas tenham voz para falar sobre a cultura negra, resistência e machismo. Assim podem ajudar a construir uma cena mais justa e acolhedora para outras mulheres que quiserem fazer, consumir e pautar o rap. Tome nota!

Escuta essa playlist: Rap baiano por elas!

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