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Um outro olhar sobre os óleos essenciais

Giulia Estrela, I'sis Almeida e Maria Marta Lima - 28/10/2019

Mau uso dos concentrados pode trazer riscos à saúde, alertam especialistas

Giulia Estrela, I’sis Almeida e Maria Marta Lima

Óleos essenciais são líquidos altamente concentrados e extraídos de plantas, frutos e flores. São compostos aromáticos voláteis obtidos por processos de destilação, compressão ou extração com o uso de solventes. Diferente dos aromas sintéticos, – aqueles comumente usados para aromatizar ambientes -, alguns óleos essenciais são bastante caros, podendo 10 ml de ‘puro jasmin’ por exemplo, custar mais de R$ 100,00. Apesar do seu alto custo, a comercialização desse produto tem aumentado nos últimos anos, especialmente quando associado à indicação do uso para aromaterapia.

aromaterapia “é uma técnica que usa os aromas liberados por óleos essenciais com finalidades terapêuticas, tais como promover o bem-estar, aliviar sintomas de doenças e fortalecer as defesas do corpo”.

Fonte:  Organização Pan-Americana da Saúde

Em relação a novembro de 2018, a busca por óleos essenciais cresceu, como mostra abaixo o gráfico do Google Trends. Em relação a este ano, houve um aumento de aproximadamente 50 pontos percentuais na busca pelas palavras “óleos essenciais”, no Google Shopping, (mecanismo de busca para compras online do Google). O que pouco é difundido pelas inúmeras matérias, blogs e afins, é o fato que o uso incorreto dos OE’s, como também são conhecidos os óleos essenciais, ao invés de ajudar, podem gerar riscos à condição de quem procura por algum benefício.

Entre 14 a 29 de julho, o índice de busca pelo termo “óleos essenciais” marcou 96 pontos no Google Trends


Conteúdo nas redes e cursos oferecidos pela Internet

Nátaly Neri, youtuber proprietária do canal Afros e Afins, lançou em março o seu primeiro vídeo sobre aromaterapia ao lado da naturóloga e empresária Daiana Petry. No vídeo, Daiana menciona a importância de tratar com responsabilidade o uso de óleos essenciais. Neri tem 25 anos, é ativista, feminista negra interseccional, produtora de conteúdo digital e estudante de Ciências Sociais. Desde 2015 possui canal no YouTube, sendo indicada a diversos prêmios como o “MTV Miaw 2019” na categoria “Aposta Digital”.

Em 2018, a ativista dedicou-se à aromaterapia, realizando curso através da Harmonie Aromaterapia, empresa de propriedade de Daiana Petry. Antes, mesmo usando os óleos para benefício individual, Nátaly evitava falar sobre o assunto em suas mídias sociais, mesmo que bem-estar e autonomia tenham sido desde sempre temas de seu canal.

Petry explica no vídeo que por se tratar de um composto 100% natural as pessoas acreditam que o uso de óleos essenciais não oferece riscos à saúde. O mau o uso dos OE’s podem causar danos e reações adversas, podendo ser pior do que os de um chá tomado de forma errada, alerta a naturóloga.

https://www.youtube.com/watch?v=Zp0f8QxHkMs

Assista ao vídeo completo aqui


A escola de herbalismo, aromaterapia, alquimia e cuidados naturais do Distrito Federal, a Apotecários da Floresta, alertou o mesmo em um post no seu perfil do Instagram. “Óleos essenciais são maravilhosos e seguros, desde que você os estude formalmente em uma excelente escola de formação”, ressaltam. Procurados pela plataforma da publicação, a Apotecários até o fechamento do texto não respondeu ao contato da equipe.

O que chama a atenção para o crescimento nos últimos meses da busca na Internet por “óleo essencial” e “aromaterapia” está justamente na controvérsia da questão: a profissão do aromaterapeuta é livre no Brasil. Porém, mesmo depois da terapia complementar ter sido integrada ao SUS, ainda não é reconhecida e muito menos regulamentada no país.

Especialistas em saúde alertam

A importância do conhecimento sobre os óleos também é mencionada por Ademir Evangelista do Vale, professor doutor da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atuante em pesquisas da área de plantas medicinais e química de produtos naturais. Segundo Ademir, na Internet existem muitas informações “incorretas ou incompletas sobre o tema e os usuários muitas vezes não se atentam à forma adequada de aplicação ou não entendem as contraindicações”. Ele afirma que por serem caros, os óleos essenciais são frequentemente falsificados e por isso é importante ter suporte de um profissional na hora da seleção e aplicação correta dos mesmos.

O professor orienta que na inalação do aroma, por ser através dos pulmões e respiração, pode ocorrer maior penetração na corrente sanguínea. Os princípios ativos dos óleos, de acordo com suas afinidades, proporcionam efeitos em todo organismo ou seletivamente em órgãos específicos. Para Ademir: “cabe a quem trabalha com óleos conhecer essas informações, estudar seu paciente e orientar a aromaterapia de forma mais benéfica possível”.

Algumas orientações do professor Ademir Evangelista:

• Os óleos ricos em cetonas e ascaridol (boldo) são nefrotóxicos e abortivos. Deve-se ter cuidado na aplicação em pacientes propensos a crises epiléticas;

• No uso externo os óleos cítricos (laranja, limão e bergamota) podem provocar reação de fotossensibilidade e queimar a pele quando houver exposição ao sol. Assim, não é recomendada a aplicação de óleos essenciais sob exposição solar ou de altas luzes;

• Óleos ricos em substâncias fenólicas (cravo, canela) podem promover irritação na pele, especialmente as mais sensíveis;

• Em pacientes com dermatites, psoríases e outras doenças de pele, deve-se ter atenção redobrada no uso de óleos!

• Não é aconselhado aplicação em recém-nascidos, crianças pequenas, mulheres grávidas ou em fase de lactância;

• Por último, não se recomenda a difusão prolongada em ambientes fechados. As exposições devem ser de no máximo 45 minutos.


Lavanda, hortelã e laranja, plantas brasileiras extraídas para produção de óleos essenciais.

Ilustração por Giulia Estrela

E onde se formam os aromaterapeutas?

Existem diversos cursos de formação em aromaterapia na internet, publicizados em mídias sociais, mas, no Brasil, apenas um é reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) – o curso de especialização em Aromaterapia da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Existem associações e instituições que chancelam a certificação desses cursos, como a Associação Brasileira de Aromaterapia e Aromatologia (Abraroma).

No caso de Marta Pereira Santos, psicóloga, aromaterapeuta e professora da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), sua formação foi realizada através do curso livre Ciranda dos Aromas. O curso é oferecido pela Faculdade Bahiana de Medicina e registrado na Associação Brasileira dos Terapeutas Holísticos – ABRATH e na Biblioteca Nacional RDA.

Marta conta sobre sua formação ter tido algumas fases:  a inicial foi teórica, para conhecimento dos óleos a partir de pesquisas já desenvolvidas; em seguida passou pela fase de produção de aromáticos, como cremes, shampoos, escalda pés e aromatizadores; também passou por um estágio de 150 horas no ambulatório Magalhães Neto, dentro do Hospital Universitário Professor Edgard Santos, assim como estágio em consultório com a aromaterapia clínica; e, para a conclusão do curso, Marta apresentou um produto fundamentado e acompanhado de pesquisa.

Ao falar sobre os cuidados necessários no tratamento com óleos essenciais pela aromaterapia, ela reafirma que apesar de serem produtos naturais, também se tratam de concentrados químicos potentes. “É preciso saber que outras substâncias químicas estão sendo utilizadas pelo indivíduo para evitar interações que podem desencadear complicações, saber o estado atual de funcionamento do organismo, fazer o que chamamos de anamnese”, diz. Marta ainda completa que, ao indicar um produto, o profissional é responsável pelos efeitos que essa indicação venha a ter e que por isso é necessário acompanhar todo o processo. 

O professor Ademir reitera a importância dos interessados pela terapia alternativa verificarem se os profissionais possuem diplomas ou certificados que atestem esse tipo de qualificação. O aromaterapeuta deve ter conhecimento técnico das indicações, contraindicações, efeitos adversos que os óleos essenciais podem causar e sua correta forma de aplicação. “Dessa forma, ele vai indicar o óleo certo para o paciente certo e evitar possíveis danos à saúde”, alerta.

Aromaterapia na rede pública

O uso da Medicina Tradicional e Complementar tem aumentado nas últimas décadas nos sistemas de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) designa como Medicina Tradicional e Complementar um conjunto heterogêneo de práticas, saberes e produtos agrupados por não pertencerem ao escopo da medicina convencional. No Brasil, há registro da Medicina Tradicional e Complementar no SUS desde a década de 1980, com a oferta pública de fitoterapia, homeopatia, medicina tradicional chinesa/acupuntura e medicina antroposófica e mais recentemente a aromaterapia.

Evidências científicas têm mostrado que o tratamento integrado entre medicina convencional e práticas integrativas e complementares tem gerado benefícios aos pacientes. Essa articulação diminui a utilização de medicamentos, tempo de internação, duração das doenças e melhora a qualidade de vida. Até mesmo em adoecimentos graves, como na oncologia, têm sido apontados efeitos benéficos da aromaterapia.

Ademir afirma que essa integração na rede pública é um grande avanço porque o emprego da aromaterapia contribui para um atendimento mais humanizado no sistema de saúde. Os estímulos produzidos no sistema olfatório pelos óleos essenciais desencadeiam inúmeras respostas fisiológicas como a propagação de impulsos nervosos nas áreas corticais e subcorticais do Sistema Nervoso Central. “Essas ações podem auxiliar por exemplo, no relaxamento muscular, na diminuição da ansiedade ou depressão, efeitos tônicos e revigorantes, atividades hipotensoras, antinflamatórias e até melhora da autoestima”, diz. 

Marta, ao falar sobre a experiência no SUS, afirma que a aromaterapia auxiliou seus pacientes que passaram por tratamentos tradicionais mas não sentiram melhora. A aromaterapeuta conta que ao adentrar no ambulatório Magalhães Neto e “sentir o cheirinho” dos óleos, as pessoas já se sentiam melhores – “é o toque aromático!”, afirma.

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