Edgar Jacques e a arte de tornar visível o que não se vê

Eufrásia Neres - 14/12/2022

Edgar Jacques é escritor, ator e teatrólogo, além disso, presta serviços de consultoria em audiodescrição e acessibilidade para exposições, sites, cinema e televisão. Seu trabalho é validar os roteiros propostos, indicando se fazem ou não sentido, se formam ou não uma imagem para uma pessoa com deficiência visual, por exemplo. Ele sonha também atuar em um musical. Ouvir sua voz límpida é muito agradável. Parece que ele tem um sorriso na voz e olha que nossa conversa foi por áudio de WhatsApp. Acho que Edgar sabe mesmo impressionar pelos sentidos.

Este jovem paulista, de cabelos azuis, nascido aos 26 de maio de 1984 em Mogi das Cruzes, perdeu a visão aos 3 anos de idade por conta de um acidente doméstico. Hoje, segue como tantos artistas: escrevendo seu próprio papel de relevância no mundo.

Pessoas com deficiência geralmente “não interessam” ao mercado da TV e da Publicidade. É raro ver PcDs protagonizando papéis importantes no cinema e nas novelas, no jornalismo, ou mesmo em peças publicitárias. Essas pessoas fogem dos padrões estabelecidos pela sociedade e, consequentemente, pelos gestores dos veículos midiáticos e são lembradas apenas em momentos em que é possível explorar suas imagens de modo sensacionalista e capacitista.

Tivemos um exemplo internacional disso, por ocasião da abertura da Copa do Mundo no Qatar, quando puseram o ator Morgan Freeman e o influenciador Ghanim Al Muftah em destaque. Sabe-se que o Qatar não é um país que respeita a diversidade. Então, colocar essas duas personalidades no centro das atenções naquele momento tão conveniente, nada mais é do que Tokenismo, – quando uma empresa ou organização incorpora um número mínimo de pessoas que fazem parte de algum grupo “minoritário”, com o objetivo de passar uma imagem de projeto inclusivo, uma sensação de apoio à diversidade, transformando pessoas em ícones representativos. No caso citado, Morgan Freeman, representando a comunidade negra e Ghanim Al Muftah, pessoa com deficiência. 

Quando há personagens com deficiência em séries e novelas, geralmente são representados por pessoas sem deficiência, prática conhecida como cripface. “Isso é muito ruim porque não cria representatividade real desses artistas e por que a gente não tem possibilidade de desenvolver a nossa carreira tecnicamente, né? Mas, se nem os nossos próprios personagens a gente pode fazer, então a coisa fica um pouco mais complicada”, afirma Edgar.

Recentemente, a Rede Globo de Televisão estreou a novela” Todas as Flores”, disponível apenas na plataforma de streaming GloboPlay.  A produção tem como protagonista Maíra, personagem com deficiência visual, representada pela atriz Sophie Charlotte, uma pessoa sem deficiência. Embora a trama seja bastante aclamada por ter uma personagem PcD como protagonista e tratar do tema inclusão, essa inclusão não é feita. E não é a primeira vez na televisão brasileira que uma pessoa sem deficiência interpreta um personagem com deficiência. Já tivemos exemplos de personagens como Tonho da Lua, de “Mulheres de Areia” (Rede  Globo, 1993), interpretado pelo ator Marcos Frota, e a versão brasileira da novela mexicana, “Esmeralda” (parceria da Televisa e SBT, exibida em 2004) protagonizada pela atriz Bianca Castillo que interpretava Esmeralda, uma personagem com deficiência visual. 

Edgar Jacques não acha essencialmente ruim que um ator enxergante interprete um personagem que não enxerga, porém acredita que essa prática seja ruim para o desenvolvimento técnico e visibilidade comercial de profissionais PcDs: “Por mais competente que essa atriz, que esse ator seja, você tá impedindo que atores com deficiência desenvolvam a sua carreira. Se essa distribuição fosse equânime, quer dizer, se atores com deficiência visual tivessem tanta possibilidade quanto um ator enxergante de trabalhar, não haveria nenhuma questão. Agora, o fato é que a gente não tem as mesmas oportunidades”. 

‘Apagamento’ de atores PcDs

O filme da Netflix, “Amor sem medida”, estrelado por Juliana Paes e Leandro Hassum, em 2021, conta a história do cardiologista Ricardo Leão, um homem com nanismo que se apaixona por uma mulher não PcD. O ator em questão é uma pessoa sem deficiência e utilizaram computação gráfica para transformar seu corpo e estatura a fim de que ele parecesse uma pessoa com nanismo. Na ocasião do lançamento, atores como Juliana Caldas, artista com nanismo que interpretou a personagem Estela na novela “O Outro Lado do Paraíso”, de Walcyr Carrasco, exibida no horário das 21h em 2017, se manifestaram nas redes sociais acusando a produção de capacitismo. 

O fato é que não vemos atores com nanismo recebendo papéis importantes nas produções audiovisuais. A questão não recai sobre a capacidade de atores não PcDs de representar papéis de pessoas com deficiência, mas sim sobre o ‘apagamento’ da existência de atores PcDs capazes de representar um personagem que tem as suas características, o que tornaria a inclusão social nas produções audiovisuais algo realmente inclusivo. 

A falta de inclusão não é exclusividade dos filmes, séries e novelas. É algo que abarca o nosso cotidiano. Segundo o Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 17,3 milhões de pessoas no Brasil apresentam algum tipo de deficiência, o que equivale a mais de 8% da população. Ser uma pessoa com deficiência não retira do indivíduo seus sonhos, relações familiares, estudo e trabalho. Isso inclui o trabalho no setor audiovisual também, já que essas produções, incluindo telejornais e peças publicitárias contribuem para essa falta de acesso. Em programas de entretenimento, como “Programa do Ratinho”, do SBT, por exemplo, é comum ver pessoas com nanismo sendo usadas como motivo de chacota, ou peças de alguma espécie de humor. Isso faz com que profissionais do ramo do entretenimento com algum tipo de deficiência não sejam vistos como alguém com credibilidade para uma atuação de destaque no ramo. 

Felizmente, ainda que sejam poucos, existem projetos que dão protagonismo a pessoas com deficiência, como é o caso do “Programa Especial”, da TV Brasil, com a apresentadora Juliana Oliveira, cadeirante, e a repórter Fernanda Honorato, com síndrome de Down. 

Ter pessoas com deficiência nesses espaços de visibilidade é importante para a representatividade. Edgar Jacques relata que a primeira vez que ele teve acesso a alguma representatividade foi através da literatura e não do audiovisual. “Foi num livro que eu li quando eu era criança, mas era um menino que tinha alguma deficiência intelectual, não lembro bem. E aí eu falei ‘nossa, esse menino é diferente que nem eu’. Eu comecei a entender que eu podia fazer parte das coisas”.

Edgar defende que os poucos profissionais PcDs no mercado não sejam vistos como exemplos únicos, pois é necessário expandir. E, para além de representar papéis onde a tragédia e o sofrimento são o foco, pessoas com deficiência podem emprestar sua imagem, seus corpos e vivências a outros propósitos, falando de beleza, cultura, política, amor e sexualidade, assuntos que são inerentes a todo ser humano. 

Dos poucos exemplos que assistiu na TV brasileira, Edgar lembra a atuação de Danieli Haloten, como Anita da novela “Caras & Bocas” da Globo, em 2009. Na época, a atriz ficou bastante conhecida por ser uma atriz “realmente cega” a interpretar um papel fixo numa novela da TV brasileira. “O que eu lamento com relação a essa experiência é que para ela talvez não tenha sido tão interessante porque não houve um prosseguimento. Aquilo foi um trabalho pontual e acabou”. Para ele, se se pudesse contar histórias que não necessariamente o tema fosse deficiência, talvez atores com deficiência tivessem mais chance de desenvolver uma carreira também, mas sabe que este é um processo demorado. 

COLOCAR IMAGEM DA ATRIZ DANIELI

“A televisão e o cinema ainda têm uma visão muito fetichizada sobre o corpo da pessoa com deficiência. Em geral, se conta uma história em que a deficiência é o grande foco da coisa”, ressalta Edgar Jacques. “Eu acho que a gente vai viver e conviver com isso durante muito tempo ainda, até que esses corpos sejam naturalizados, normalizados nos ambientes sociais”. 

O papel da TV e do cinema, para ele, é o de apresentar esses corpos de modo que fique evidente que eles existem e são comuns, são corpos como quaisquer outros que precisam das mesmas coisas, mas que vão buscar caminhos diferentes para estar onde eles querem estar. Mais que isso: a produção audiovisual precisa ser pensada e produzida por pessoas com deficiência para que a inclusão seja completa. 

Apesar de escrever mais para o teatro, Edgar está trabalhando no roteiro para um longa-metragem inspirado em um texto de sua autoria, chamado “Um Homem Comum”. “Estou num processo de produzir um documentário sobre atores cegos. Vamos ver como é que a coisa vai se desenrolar”. A ideia  do documentário, como explica, é abordar a sua trajetória no desenvolvimento de um espetáculo musical, que é um gênero que ele ainda não experimentou até então. 

O escritor afirma ainda que o mercado não está pronto para receber esses corpos, mas o primeiro passo para isso é se mostrar disposto. “A gente tem que sempre considerar que cada pessoa com deficiência é um, é uma, é única, é exclusiva. Então, não existe necessariamente um padrão de comportamento que a gente vá adotar para receber esses corpos. Existe sempre, precisa existir sempre uma disponibilidade”. Além de proporcionar um ambiente fisicamente acessível, é preciso, como ele afirma, que sejamos acessíveis na atitude, principalmente. 

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