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Entre cadáveres e caixões

- 13/12/2013

ID126 foi a campo conhecer de perto a rotina profissional de pessoas que trabalham em atividades geralmente pouco conhecidas que lidam diariamente com a morte.

Renata Pizane e Virgínia Vieira

 

Imagine acordar todos os dias, tomar café, ir para o trabalho e lá, no meio de papéis e carimbos, encontrar também caixões de vários tamanhos e, mais à frente, um corpo que espera ser preparado para o velório. Soa macabro? Imagine então passar a noite numa funerária, usando um caixão como cama e tendo como companhia um corpo que será velado na manhã seguinte.

É essa a rotina há quase 20 anos da necromaquiadora e vendedora de serviços fúnebres Ana Paula Teixeira, 42. No início da carreira, seu ambiente de trabalho mais parecia um filme de Zé do Caixão – o cruel e sádico agente funerário mais temido do cinema nacional. Hoje, ela trata com naturalidade a profissão que abraçou. “Amo muito o que faço e não pretendo mudar”, diz, orgulhosa.

Ela está tão adaptada ao trabalho que não se incomoda em descansar na própria funerária. Quando nossa equipe chegou para a entrevista, encontrou Ana Paula tranquilamente deitada num caixão, cochilando. Um colchonete e lençol completavam a cama improvisada que ela utiliza entre uma jornada e outra quando precisa dormir – e nem mesmo a companhia de um cadáver tira o seu sono.

É mais ou menos assim que profissionais de carreiras pouco conhecidas que lidam direta e diariamente com o mundo dos mortos costumam encarar suas rotinas: a morte, que de primeira pode lhes parecer assustadora, passa, com o tempo, a fazer parte de suas rotinas, até virar algo que, embora jamais chegue a ser completamente “trivial”, deixa de causar medo.

Além da necromaquiagem – maquiagem facial de pessoas mortas, para velórios e enterros -, a reportagem do ID saiu a campo para conhecer a rotina de quem trabalha com especialidades fúnebres, como a remoção de corpos e a tanatopraxia – processo de higienização e conservação do cadáver para evitar a decomposição e permitir que o corpo seja velado por um tempo maior.

Embora hoje “ame” o que faz, Ana Paula conta que não foi bem por amor que a morte entrou em sua vida profissional: no início, foi da necessidade de sustentar os dois filhos, então pequenos, que ela tirou coragem para enfrentar o trabalho de agente funerária – profissional que presta o serviço de assistência às famílias organizando funerais e sepultamento, além de preparar corpos para velório. “Fui trabalhar no estande que a funerária mantinha no Nina Rodrigues [Instituto Médico Legal de Salvador] e, no primeiro dia, faltou energia”. Ela conta que o medo foi tão grande que a fez “enxergar vários defuntos” na sua frente.

Aos poucos, contudo, Ana Paula foi superando o medo. Foi se apaixonando pelo trabalho, e logo passou a querer se aperfeiçoar na profissão. Desde 2009, passou a oferecer também o serviço de necromaquiagem.

A necromaquiadora e vendedora de serviços funerários Ana Paula Teixeira, em seu local de trabalho | Foto:Lara Perl

 

Necromaquiadores são profissionais que utilizam a maquiagem para melhorar a aparência da pessoa falecida, escondendo marcas, disfarçando edemas e outras rupturas faciais. Embora já haja bastante oferta desse tipo de serviço em outras cidades brasileiras, como São Paulo, Curitiba e Fortaleza, em Salvador o necromaquiador ainda é um profissional escasso. Levantamento feito pelo ID126 entre as principais funerárias de Salvador identificou, além de Ana Paula, apenas mais um profissional desse ramo. Boa parte das funerárias não reconhecem a importância desse trabalho e acabam não oferecendo o serviço. Ou, em alguns casos, “só usam blush, pó e batom”, diz Ana Paula.

Por esse serviço, ela costuma cobrar uma taxa extra que pode variar de R$ 150 a R$ 500. Na comparação com o preço médio de serviços de maquiagem oferecidos por salões de beleza, maquiar um morto rende entre duas e dez vezes mais do que maquiar um vivo. Principalmente se o trabalho envolver a reconstituição facial em caso de morte violenta e desfiguração. “Também faço unha, penteado e barba”, afirma Ana Paula. O objetivo é tornar a última imagem da pessoa morta a melhor possível, com uma maquiagem leve, que deixe o rosto “natural”.

Apesar de trabalhar há tantos anos no ramo e de já não ter medo, Ana Paula conta que há em seu trabalho uma tarefa que sempre a sensibiliza mais do que qualquer outra: preparar o corpo de uma criança. Ela ficou impressionada quando, pela primeira vez, teve que fazer os preparativos para o funeral de uma garotinha de 10 anos. “Ela tinha cabelos pretos e longos, então eu fiz uma trança entrelaçando com flores. Ela ficou linda”, recorda-se. Dias depois, ela conta ter visto uma “aparição” da garotinha da janela de sua casa. “Esse caso mexeu demais comigo.”

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