“Falha” dos trilhos

Emilly Tifanny e Janayna Moradillo - 06/07/2022

Barulho e a vibração provocados pelo deslocamento do metrô de Salvador afetam casas e a saúde de moradores de alguns bairros

Moradores do bairro do Calabetão reclamam que suas casas estão rachando afetadas pelo vai e vem dos trens do metrô. As queixas apontam que o problema está no primeiro trecho, na região da Estação Pirajá, onde fica o bairro e o pátio operacional da concessionária responsável – a CCR Metrô Bahia. No local, a extensão dos trilhos em que o trem realiza seu trajeto até a Lapa fica em um viaduto que pode ser visto da janela das casas dos moradores. 

O sistema metroviário foi inaugurado em 2014. Com duas linhas e 20 estações distribuídas por 33 quilômetros de extensão, o modal trabalha por meio de 40 trens, além de oito terminais de ônibus integrados. A Linha 1 do metrô funciona de Pirajá até a Lapa, enquanto a Linha 2 vai do Acesso Norte até a Estação Aeroporto. 

Nas residências até 350 metros dali, os moradores afirmam que a passagem dos trens causa fortes tremores e barulhos. Os efeitos disso são objetos tremendo com a vibração causada no chão e nas paredes, rachaduras na estrutura e estrondos descritos como insuportáveis. A situação é reportada como sendo ainda pior nos dias em que são realizadas manutenções nos trilhos.

Para construções desse tipo, é necessário que durante a fase de implementação, seja realizado o cálculo da faixa de domínio. Matemática que define a distância segura para que residências possam permanecer no local e não sofrer com nenhum incidente. De acordo com o engenheiro civil e professor aposentado da Escola Politécnica da UFBA, Luis Edmundo Campos, para as estradas e rodovias, uma faixa segura abrange uma distância de 35 metros. 

“Você tem uma distância de 15 metros do eixo, no caso da obra ferroviária, 15 metros do trilho. 15 metros para cada lado mais aproximadamente 5 metros, formando uma faixa de 35 metros livre para que pudesse criar uma faixa segura. Então os proprietários dessa região são indenizados. Isso leva, muitas vezes, muito tempo”, detalha o engenheiro.

A mãe e a avó dele, que têm a residência ainda mais próxima dos trilhos, precisaram abandonar o lugar.

“A casa da minha mãe já está desabando. Tentei colocar uma escora, mas não adiantou, os problemas continuaram aparecendo, por isso elas foram embora. Já faz um ano que elas vivem de aluguel, porque não podem ficar aqui”

JADENILDON, MORADOR DO CALABETÃO

(Fachada da casa de Jadenilson/ Arquivo Impressão Digital 126)

A parede lateral do imóvel de seu Aloísio dos Santos, 77, está rachada e o reboco do teto da cozinha perde um pedaço a cada noite de manutenção dos trilhos. Ele tem a mobilidade reduzida, se sustenta apenas com a aposentadoria e vive sozinho com a esposa, Marildes Maria dos Santos, 77, que também sofre com dificuldades de locomoção. 

“O lado da casa já está bem rachado e, na cozinha, o teto já caiu praticamente todo, durante as madrugadas. A primeira vez foi um barulho tão grande que minha esposa até se assustou, porque a gente anda com andador e ela ficou com medo de a gente morrer dentro de casa”, relata o aposentado.

Problema antigo

O trecho da estação Pirajá foi a última parte da linha 1 do metrô a ser inaugurada, em 2015, um ano após o início das atividades do transporte. Para isso, foram necessários 12 meses de obras, iniciadas em 2014. Foi nesse período que os moradores começaram a perceber as rachaduras em suas casas, como conta Jadenilson. “Isso começou na época em que era bate-estaca. Eles cavaram bastante e as rachaduras começaram a aparecer”, diz.

Os moradores também dizem que, na época, algumas casas do bairro foram removidas para a construção do elevado. Outras, ainda muito próximas da estrutura, foram mantidas e seus residentes receberam, da CCR, a informação de que os imóveis seriam avaliados por engenheiros e, caso fossem notificados riscos, seria realizado o pagamento de indenizações, mas o processo nunca aconteceu.   

“Eles tiraram algumas casas, mas não foi suficiente. Ainda têm residências que estão bem próximas, entre 20 e 30 metros dos trilhos. Era para eles terem se afastado mais. Falaram que iriam vir, notificar, mandar engenheiro, mas até hoje nada”, explica Jadenilson.

Em maio deste ano, dois trens do metrô descarrilaram após um deles bater em um caminhão de alinhamento – que é um vagão de serviço – na Estação Pirajá, na região do Calabetão, fato que revelou o problema. Jadenilson aproveitou o momento em que era entrevistado para um jornal televisivo baiano sobre o acidente, para falar da situação dos imóveis no local.

“Correr atrás disso tudo sozinho é complicado. Sou nascido e criado aqui, entrando e saindo pelas casas dos vizinhos. Eles merecem ter assistência. Não é justo que a CCR vire as costas e deixe o povo com esse prejuízo, tendo que sair das suas próprias casas para morar de aluguel. Já tentamos falar algumas vezes, mas eles só dizem que virão e nunca vem”, diz Jadenilson ao Impressão Digital 126, em justificativa à sua ação.

Apesar da denúncia ter sido pouco noticiada pelos veículos locais, seu Aloísio informou que cinco agentes da CCR estiveram na sua casa em um dos dias que acontecia a remoção dos vagões do metrô envolvidos no acidente. Os funcionários tiraram fotos das rachaduras e do reboco desabado. “Eles vieram, olharam a casa toda e disseram que depois voltariam aqui, mas não voltaram ainda”, conta, em entrevista realizada no dia 21 de junho. “A CCR entrou aqui. Foram três homens e duas mulheres. Elas estavam com uma máquina para tirar foto, tiraram do lado da casa e olharam a casa toda”, completa Marildes.

Por nota, a CCR Metrô Bahia informou que não há nenhum registro de reclamações dos moradores sobre o tema, e reforçou que “a concessionária mantém uma relação próxima, transparente e aberta junto às comunidades do entorno e, que permanece com os canais de comunicação formais abertos para o diálogo com todos os clientes e sociedade”, diz o texto. Já com relação à visita realizada na casa de seu Aloísio, a empresa informou que precisaria do nome dos funcionários para confirmar a ida. 

A Defesa Civil de Salvador (Codesal), responsável pela vistoria, registro e demolição de imóveis na situação dos moradores do Calabetão, em Salvador, também afirmou não ter registros de notificações da população da região em seu banco de dados. 

Os contratos de concessão, concedidos pelo governo do estado para a exploração dos serviços públicos de transporte metroviário de passageiros, são de responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Sedur). A reportagem entrou em contato com o órgão para falar sobre o problema, mas até o fechamento desta reportagem não obteve resposta.

Efeitos para saúde

Não são apenas os imóveis que sofrem com a proximidade dos trilhos, no Calabetão. Após oito anos de barulhos altos e constantes, Jucelino Almeida de Andrade, que mora a 350 metros do local, afirma que teve perda auditiva em decorrência do ruído produzido pelos vagões do metrô quando vão para o parque de manutenção, principalmente durante as curvas.  “Eu e minha mulher já desenvolvemos perda auditiva. Esse barulho acontece todas as noites, de forma ininterrupta. Eu, infelizmente, não tenho condições de sair daqui. Já fiz várias solicitações para a CCR, no canal de comunicação, ali no retiro, e eles sempre alegam que vão resolver e o tempo vai passando”, detalha. 

Laudo Audiológico de Jucelino/ Arquivo Impressão Digital 126

De acordo com o otorrinolaringologista do Itaigara Center, Paulo Dórea, a exposição constante a barulhos superiores a 85 decibéis durante oito horas diárias, pode prejudicar a audição e até levar à perda auditiva total. “Até esse limite o ouvido suporta. Se esse valor aumentar, o tempo em que nosso ouvido consegue suportar vai diminuindo. O sistema auditivo é sensível a sons de elevada intensidade e por um tempo de exposição”, explica o especialista. 

EDIÇÃO 2022.2

A invisibilidade que nos cerca

De que perspectiva você enxerga o que está ao seu redor? A segunda edição de 2022 do Impressão Digital 126, produto laboratorial da disciplina Oficina de Jornalismo Digital (COM 126) da FACOM | UFBA, traz diferentes ângulos jornalísticos sobre o que nos marca enquanto sociedade, especialmente àquilo que fazemos questão de fingir que não existe. […]

Turma 2022.2 - 07/12/2022

De R$ 4,90 para R$ 5,20

Aumento da tarifa de ônibus em Salvador afeta rotina de estudantes universitários

Estudantes relatam dificuldades criadas pelo aumento do valor da passagem de ônibus em Salvador O aumento de trinta centavos no valor da passagem de ônibus em Salvador (R$4,90 para R$5,20), anunciado de maneira repentina pela Prefeitura, entrou em vigor no dia 13 de novembro. Tal medida vem prejudicando o cotidiano dos estudantes, especialmente aqueles que […]

Jessica Santana, Laura Rosa, Lucas Dias, Lucas Mat - 07/12/2023

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Bahia é terceiro estado com maior número de partos em menores de idade

Estado registrou 6.625 partos em mulheres de até 17 anos; especialistas apontam falta de acesso à educação sexual como um dos principais motivadores Defendida por parte da sociedade e rechaçada por outra parcela, a educação sexual nas escolas é um tema que costuma causar polêmica quando debatido. Ainda assim, seu caráter contraditório não anula o […]

Larissa A, Lila S., Luísa X., Patrick S - 07/12/2023

catadores da cooperativa Canore reunidos

Desenvolvimento sustentável

Racismo Ambiental em Salvador e Economia Circular

Entenda como esse modelo de produção une sustentabilidade, cooperativas de reciclagem e a luta contra as desigualdades sociais Em meio à crise das mudanças climáticas, a cidade de Salvador tem registrado temperaturas maiores do que a média histórica, chegando a sensações térmicas acima dos 34ºC. Para combater os efeitos do aquecimento global, organizações e iniciativas […]

Anna Luiza S., Jackson S., Luiza G. e Pedro B. - 06/12/2023

Na imagem, uma mulher de blusa verde segura uma cesta com plantas medicinais em frente a uma barraca laranja que tem outras plantas e bananas

Desenvolvimento Sustentável

Feira une produção e consumo sustentáveis na UFBA

Realizada às sextas-feiras, Feira Agroecológica da UFBA se torna elo de ligação entre pequenos produtores e consumidores em busca de alimentação saudável A Feira Agroecológica da Universidade Federal da Bahia – apelidada carinhosamente de “Feirinha” – é um projeto de extensão do componente curricular “BIOD08 – Comercializando a Produção Agroecológica”, ministrado no Instituto de Biologia […]

Celso Lopez;Daniel Farias;Jade Araújo;Melanye Leal - 06/12/2023