Consumo de livros digitais aumenta e obras físicas têm baixa durante pandemia de Covid-19

Adele R, Felipe A, Nathália A, Vinícius H - 01/12/2021

Especialistas explicam que pandemia impulsionou mudança em formato de leitura.

Por Adele Robichez, Felipe Aguiar, Nathália Amorim, Vinícius Harfush

Um levantamento realizado pela reportagem em Salvador indicou que as pessoas passaram a consumir mais livros no formato digital durante a pandemia de covid-19. Segundo a pesquisa, que selecionou 68 moradores da capital para responder perguntas sobre o tema, no período de março de 2020 até então houve uma redução de 39,7% de leitura física ao mesmo tempo em que a digital cresceu 29,4% entre o grupo. 

De acordo com a professora e coordenadora do colegiado do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Andréa Beatriz Hack de Góes, que desenvolve uma pesquisa sobre Letramentos Digitais e Livros Didáticos, já havia uma tendência pela mudança de formatos de leitura, mas a pandemia foi responsável por acelerar este processo. 

“Como a gente sabe, tudo na vida tem dois lados, até a pandemia, e um deles é esse: as pessoas, isoladas em casa, passaram a ter mais tempo para ler. A mudança de formatos já vinha acontecendo antes, mas se intensificou de maneira dramática na pandemia”, observou a docente. 

A sondagem apontou também que o número de leitores permaneceu o mesmo antes e depois do início da crise sanitária: 77,9% da amostra informaram que têm o costume de ler livros. O que mudou, neste período, foi a frequência de leitura: enquanto anteriormente 32,4% indicaram que estavam sempre lendo livros, hoje 47,1% afirmam que leem regularmente. 

Resultados do levantamento realizado pela reportagem com 68 moradores de Salvador

A moradora da Pituba Marcela Vilar, de 24 anos, foi uma das pessoas que participou dessa transformação. Na pandemia, ela comprou um leitor de livros digitais, o Kindle, e descobriu inúmeras vantagens deste formato, modelo que pretende levar também para a vida pós-covid. 

“Pretendo continuar porque acho mais prático, mais leve, concentra vários livros e isso me ajuda, porque sempre gosto de ler vários livros ao mesmo tempo para não enjoar. Também consigo levar mais facilmente para os lugares e não pagar, pois faço o ‘download’ em sites que disponibilizam os livros gratuitamente, inclusive em várias línguas, o que era difícil de encontrar. Além disso, posso sempre ter o livro na hora que eu quiser, sem precisar esperar chegar pela internet fisicamente ou me deslocar até a livraria”, disse a jovem. 

Favorável ao meio digital por considerar que ele incentiva uma maior frequência de leitura, a pesquisadora Andréa explica que a transição acompanha a evolução da sociedade, cada vez mais tecnológica. “São mudanças profundas que a sociedade vem enfrentando e é importante que todas as possibilidades, em todos os formatos, sejam exploradas porque é um direito do cidadão: o acesso à educação, à cultura, à arte. A leitura é sempre muito bem vinda e que seja disponibilizada para todas as pessoas, no formato que for”, declarou. 

“Hoje, boa parte das pesquisas acadêmicas têm sido feitas através de sites e muitos materiais são disponibilizados na internet, como arquivos PDF e e-books. Isso facilita bastante”, completou. 

Procura por livros digitais afeta existência de livrarias 

Apesar das vantagens, esse movimento tem afetado negativamente as livrarias presenciais. Sem terem como se manter financeiramente, as duas maiores redes em Salvador fecharam durante a pandemia. Todos os quatro megastores da Livraria Saraiva na cidade deixaram de funcionar em setembro de 2020, seis meses após o início do surto de coronavírus que forçou a suspensão das atividades presenciais. Dez meses depois, em julho deste ano, a Livraria Cultura encerrou as suas atividades devido ao “prolongamento da crise sanitária”, segundo divulgou uma nota da diretoria à época. 

Além disso, Andréa ressaltou que, como na internet há um imenso volume de materiais disponíveis sem regulamentação, existem mais conteúdos que podem contribuir com a “desinformação”. “A questão é: como elas estão lendo e o que elas estão lendo? Até que ponto o volume grande, que em si é positivo e não tinha há um tempo, tem efeito em termos de conhecimento?”, indagou. 

A professora também destacou que, embora o acesso aos livros tenha sido facilitado com o advento digital, eles continuam inacessíveis para uma parcela da população. “São formatos que dependem da posse do acesso a determinados dispositivos e acabam não sendo acessíveis a todas as pessoas”, apontou.

Ela salienta que é papel do poder público reverter este quadro. “O que mais é urgente, e falta neste momento, são políticas públicas que viabilizem o acesso ao ambiente digital. O governo até vetou um projeto que iria viabilizar verba para isso. A questão da inclusão digital é urgente. Com ela acontecendo, se abrem caminhos para muitas coisas, para a educação e a própria cidadania”. 

No dia 19 de março deste ano, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vetou o projeto de lei (PL) 3477/20 que previa uma ajuda financeira de R$3,5 bilhões para os estados e municípios garantirem o acesso à internet para alunos e professores das redes públicas de ensino em decorrência da pandemia. De autoria do deputado Idilvan Alencar (PDT-CE) e outros 23 parlamentares, a medida beneficiaria 18 milhões de estudantes e 1,5 milhões de docentes. O parecer foi realizado pela também deputada Tábata Amaral (PDT-SP), quando a proposta foi aprovada na Câmara, em 18 de dezembro de 2020.

Como justificativa para o veto, Bolsonaro alegou que o projeto não explicitava a estimativa de impacto da medida no Orçamento da União, regra prevista na Constituição e na Lei de Responsabilidade Fiscal.

Mas a ascensão dos livros digitais significa que os físicos estão fadados ao fim? 

“Eu li dois livros de maneira digital durante a pandemia e até gostei da experiência, mas pretendo ler desse jeito somente quando não tiver nenhuma possibilidade de comprar o livro físico”, afirmou Leonardo Lima, 21, morador do bairro da Graça.

Assim como Lima, “muitas pessoas têm ainda predileção ou resistência ao formato digital, preferem livros físicos, impressos, pela questão do toque, de elementos sensoriais, do cheiro”, informou a coordenadora do colegiado de Letras, Andréa. 

“Há alguns anos, quando começou essa questão da internet, do formato digital, sites, mídias, jornais online, se fez quase um terrorismo. Isso aconteceu mais ou menos na virada do século e já estamos entrando na terceira década do século XXI. Acharam, por exemplo, que os jornais iam fechar. Claro que houve impactos, uma redução, mas, pelo que se apresentou até agora, ambos formatos conseguem conviver, sim”, avaliou a professora. “Uma coisa não vai necessariamente eliminar a outra, mas depende de políticas públicas e questões econômicas”, concluiu. 

Outros dois pontos levantados por leitores de livros impressos no questionário, é a importância de colecionar as obras e a dificuldade para ler em meios eletrônicos. Para o estudante de Letras Vernáculas, Patrick Willis, 24, esses fatores são determinantes na hora de escolher o formato de leitura. “Primeiro, que tem a questão de ser um colecionador, ter a materialidade daquilo que você consumiu, poder colocar na estante, aquela presença material de um livro. Tem também a questão de não me adequar à leitura em frente a uma tela. Eu não consegui até hoje me adaptar. Mesmo em Kindle, celular e afins. Eu não consigo”, refletiu. 

O aumento no uso de eletrônicos durante a pandemia também contribui para a decisão. “A questão da pandemia, estar o tempo com a cara no notebook trabalhando, isso piorou a minha relação com as telas. Por isso eu gosto mais dessa materialidade dos livros. Poder riscar, tocar. Mesmo com as facilidades dos meios digitais”, explicou. 

Mas isso não significa que os livros impressos estão fadados ao fim. Pelo contrário, há quem acredite que tanto livros impressos quanto digitais possam existir em consonância na vida de um leitor. Para a também estudante de Letras Vernáculas, Alana Oliveira, 23, os livros físicos geram uma espécie de sinestesia, uma construção de afeto particular. Por outro lado, os livros digitais se mostraram ser uma alternativa em preço, principalmente durante a pandemia. 

“Acredito que por ter menos livrarias nas ruas, gerado pelo processo de falência e acelerado pela pandemia, os livros digitais foram uma alternativa favorável para leitores. Apesar de eu ainda preferir os livros físicos e consumi-los com mais frequência do que os digitais, penso que devemos levar em conta esse consumo digital, principalmente por ser uma alternativa mais econômica e sustentável.”, argumentou, afirmando que continuaria a ler impressos, enquanto consome também livros digitais. 

Transição entre físico e digital impacta mercado de livros

Diante do cenário apresentado, onde essa mudança no hábito de leitura foi moldada pela pandemia, é importante destacar os aspectos econômicos que também interferem no mercado de livros não só em Salvador, mas em todo o país. Doutorando em economia pela UFBA, Rafael Rios, 34, reforça a ideia proposta pela professora Andréa Hack, e analisa que o período pandêmico teve uma interferência simbólica porque acelerou o processo de ‘digitalização econômica’. 

“A pandemia acelerou a digitalização de vários setores econômicos e diminuiu a resistência cultural das pessoas em consumir produtos e serviços digitais. Isso vai afetar o mercado editorial? Com certeza, mas dificilmente fora do que já é estrutural: se o consumo de livros digitais aumentar, será impulsionado, em maioria, pelo segmento de livros didáticos sobre a população que já tem o hábito de ler”, explicou. 

E o aumento na frequência de leitura, como destacado pela pesquisa realizada entre moradores de Salvador, foi um dos fatores que contribuíram para o impulsionamento das vendas de livros pelo comércio eletrônico. Na consulta, 42,6% do público alega que opta pelos sites para adquirir os livros – sejam físicos ou digitais – enquanto antes da pandemia esse número era de 30,9%. 

Como foi relatado por Rios, o mercado editorial precisou se adaptar rapidamente a essa virada de chave. O trabalho desenvolvido por Cristóvão Mascarenhas Cordeiro, 47, que trabalha como assistente administrativo da Edufba, a editora da Universidade Federal da Bahia, precisou buscar outros recursos para manter as receitas equilibradas e não sofrer como outros estabelecimentos sofreram nos últimos 20 meses. 

Ele contou que os primeiros três meses de pandemia foram de “angústia” por não terem conseguido remodelar o setor comercial da editora. “Tivemos a ideia de começar a inserir a Edufba nas plataformas digitais, como o site Estante Virtual e a Amazon. Porque se a gente não conseguia ter o contato com os fornecedores, e eles também não estavam conseguindo escoar os livros, nossos clientes também não conseguiam ter acesso à Edufba”, relatou. 

E apesar dessa transição entre o físico e o digital parecer simples para o consumidor, Cristóvão lembra do processo rigoroso para que os livros da editora passassem a ser comercializados pelos sites. Além das dificuldades impostas por este ser um cenário novo para quem trabalha no mercado de leitura, o assistente administrativo diz que após a inserção é preciso manter “um alto padrão de qualidade no atendimento ao cliente”. 

Mas a escolha por entrar para as plataformas eletrônicas foi certeira. Segundo dados disponibilizados pela Edufba, entre 2020 e 2021 foram vendidos 911 vezes mais livros digitais do que físicos. Enquanto as unidades recheadas de folhas não ultrapassaram nem 3,2 mil exemplares, foram registrados mais de 2,8 milhões de downloads dos produtos da Edufba. 

Essa consolidação já vem acontecendo em outros âmbitos comerciais do dia a dia da população, como detalha Rafael. “Essa tendência é global, todos os setores econômicos já estavam passando por uma digitalização de seus processos e produtos. Alguns mercados mais rapidamente, como, por exemplo, o mercado de meios de pagamento, o mercado de transporte de passageiros. Outros mais lentamente, como consultas médicas, por exemplo”.

Além disso, o mercado de leitura virtual, tanto para o hábito de compra quanto para o formato de consumo, está passando por um processo de estabilização. Na visão econômica, isso tende a se fortalecer a partir do momento que as diversas faixas etárias da sociedade passem a enxergar a digitalização econômica como algo viável, ou de prioridade. 

“Aqui no Brasil ainda não emplacou, e para emplacar as pessoas precisam melhorar duas coisas concomitantemente: ler mais e ler mais por equipamentos eletrônicos. Parte disso vem do hábito e cultura… pessoas adultas precisam ‘se acostumar’ a ler por equipamentos eletrônicos. Pessoas mais jovens, que talvez já tenham o hábito de consumir produtos digitais, precisam dedicar mais tempo no computador lendo um livro do que fazendo outras coisas (redes sociais, streaming, trabalho, etc)”, detalha o economista.

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