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Martinha Fonseca, 25 anos, profissão: blogueira

- 14/08/2013

Com faturamento de até R$ 6 mil por mês, Martinha é um caso de sucesso para a blogosfera de moda em Salvador

Luana Oliveira e Tayse Argôlo

Jornalista por formação, Martinha Fonseca, como gosta de ser chamada, entrou no mundo da moda digital há três anos com o seu blog Armário de Madame. No início, sentia vergonha e medo que as pessoas a julgassem como fútil. Hoje, ela é referência neste segmento na cidade, assumindo o posto de blogueira como sua atividade profissional.

Impressão Digital 126Há quanto tempo o Armário de Madame está no ar? Pode contar um pouco sobre a história de início do blog e a relação com a sua formação em Jornalismo?

Martinha Fonseca – Foi durante o último semestre da faculdade de Jornalismo que fiz o Armário de Madame, há três anos. Eu ficava o tempo todo em casa para fazer a monografia e já estava enlouquecendo. Como eu sempre falava de blogs e moda com minha irmã e meu namorado, eles me sugeriram que eu fizesse um blog meu, já que sabia tanto do blog dos outros. Acabei fazendo, mas morria de vergonha de dizer que tinha um blog de moda. Achava que as pessoas poderiam me julgar como fútil. Com o tempo, esse receio foi passando – até porque não acho que moda seja futilidade – as pessoas foram recebendo bem, amigos de amigos começaram a conhecer e acessar, e eu fui me empolgando. O que antes era só um passatempo, se tornou meu trabalho full time.

ID 126 – Acha que a sua formação em Jornalismo é um diferencial para o sucesso do blog?

MF – Eu não acho que ser formada em Jornalismo é pré requisito para fazer um blog de moda com qualidade, mas acredito – e muito! – que a minha formação é meu diferencial. Durante a faculdade, aprendi sobre a estrutura de um texto, aprendi a escrever sem inspiração, a buscar as fontes corretas, a escrever com começo, meio e fim (o que às vezes parece bobo, mas não é!), com ritmo, com identidade. E as pessoas reconhecem isso. Um dos elogios que mais escuto ao Armário de Madame é que o texto faz com que as leitoras achem que estão conversando comigo, por ser muito oral, e elas se sentem minhas amigas íntimas. Amo ouvir isso!

ID 126 – Em que momento você percebeu que o seu passatempo (o blog) poderia te fornecer retorno financeiro?

MF – Como eu disse, tinha vergonha de falar sobre o blog e achava que jamais chegaria a ganhar dinheiro com isso. Nem sabia como fazer o contato com as lojas, os posts publicitários, quanto cobrar… Foi a dona de uma loja, onde eu já era cliente, que me propôs ir lá e fotografar alguns looks. Como “pagamento”, ela me deu uma blusa e um cinto. Foi quando percebi que podia ser blogueira como profissão, e me empolguei! Depois disso, fui fazendo novos trabalhos, sempre como permuta, até o dia que coloquei pé firme para um cliente e disse que não receberia pagamento em produtos. Tinha certeza que ele não me pagaria e que desistiria de anunciar no meu blog, mas não foi isso que aconteceu…ainda bem! Lembro que consegui cobrar R$ 250,00 por quatro posts com 7 looks cada, de uma loja que a peça mais barata era R$ 200,00. Ou seja, para comprar alguma roupa, ou eu deixava o que tinha ganhado lá ou completava com dinheiro meu (normalmente eu ficava com a segunda opção; basicamente pagando para trabalhar).

ID 126 –Você se define profissionalmente como blogueira de moda? Hoje, o blog já se tornou a sua principal fonte de renda?

MF – Não só a principal fonte de renda, mas a única! Trabalho integralmente com o blog e o dinheiro vem com a venda de espaços publicitários, banners, presenças VIP em eventos. Aproveito o AM como ferramenta para divulgar o meu trabalho de Consultoria de Moda, que também é uma fonte de renda para mim, assim como a produção de conteúdo para o blog do Shopping Iguatemi.

ID 126 – Você é responsável por produzir o conteúdo de moda para o blog do Shopping Iguatemi. Como surgiu a proposta para esse trabalho? Pode contar um pouco sobre a sua rotina?

MF – Eu havia entrado em contato com o Iguatemi para pedir uma credencial para acompanhar, com acesso aos bastidores, os desfiles do Movimento de Moda Iguatemi. Fiz esse contato porque queria produzir um conteúdo bacana para o blog, com o olhar de alguém de dentro. Para minha surpresa, uns quatro meses depois, o marketing do shopping me ligou, apresentando a proposta de fazer um blog e me chamando para assinar o conteúdo de moda. Topei na hora! Esse trabalho começou no início de 2011. O conteúdo que desenvolvo nesse blog é mais comercial e diretamente ligado ao Shopping e as lojas. Estou sempre recebendo direcionamentos do marketing para falar de presente para o dia dos pais, natal, namorados, etc. Mas tenho liberdade de escolher a pauta de cada dia, de pensar no conteúdo de moda, é uma responsabilidade minha.Eu sempre misturo posts sobre tendências de uma forma geral com posts sobre novidades das lojas, para o blog não ficar comercial além da conta.

ID 126 – Qual é o seu faturamento?

MF – É difícil ter uma média do meu orçamento. Tem meses que tenho que segurar as parcerias para não sobrecarregar o blog e tem meses que não tem ninguém. Varia muito. Hoje eu pago minhas contas – compras, gasolina, minha festa de aniversário… Futuramente, meu carro, que estou tomando coragem para comprar (risos), alguma viagem que eu queira fazer, etc. Moro com meu pai, mas ele só banca as contas em comum, como luz, água, supermercado. Hoje eu não conseguiria viver sozinha mantendo o padrão de vida que tenho, mas se quisesse muito poderia, sim, sair de casa. Consigo um rendimento de R$ 4 mil a R$6 mil por mês, entre trabalhos no blog, presença em eventos, consultoria de moda e o conteúdo do Iguatemi.

ID 126 – Em nível nacional, vemos blogueiras que faturam mais de R$ 100 mil por mês com seus blogs. Como você percebe esse processo de remuneração ao trabalho das blogueiras em Salvador?

MF – Eu me arrepio quando vejo matérias de blogueiras que ganham R$ 100 mil. A realidade em SP, RJ é outra! Lá estão as marcas próprias e não as franquias ou multimarcas, como aqui em Salvador,e por isso as pessoas têm mais dinheiro para pagar por publicidade em blog (sem falar no nível de instrução, no acesso a internet, etc, que também influenciam no poder que os blogs assumem por lá). Por aqui não conheço ninguém que chegue perto disso. Mas acho que de uma maneira geral, Salvador está entrando em um ritmo bom. As lojas estão começando a se interessar pelo serviço de publicidade em blogs, a entender que dá retorno e que vale à pena. Às vezes, vale até mais que o investimento em uma mídia tradicional, que é mais cara e atinge um público mais amplo, ao invés de um público específico, como o púbico da sua loja.

ID 126 – Ainda sobre o mercado soteropolitano, você acha que enxergar com seriedade o trabalho das blogueiras ainda é um ponto de amadurecimento para as empresas e os empresários do ramo?

MF – Ainda há muito lojista que não entende que esse é um trabalho de divulgação como outro qualquer, e que também têm custo. Às vezes, eles pensam que estão fazendo um favor à blogueira, querem que ela vá na loja, fotografe tudo, publique o quanto antes, faça referência nas redes sociais do seu blog, insira o banner da marca e, em troca, eles dão uma ou duas peças da loja.Como eu desenvolvi o AM como meu trabalho, eu não faço mais permutas em pagamentos integrais. Não seria viável para mim e também não acho que é justo. Encaro meu trabalho com seriedade, me dedico, penso em cada foto, no look, em como vou inserir a publicidade no blog sem ficar promocional demais… Acho mais do que natural cobrar um preço por isso.

O que existe também é muito glamour em torno da publicidade em blog, há lojistas achando que é só fazer publicidade uma única vez em um blog para as vendas estourarem. Isso quando acontece é, na verdade, uma exceção. Na maioria das vezes, a publicidade é um trabalho a longo prazo.

ID 126 – Como você vê a relação entre o conteúdo dos blogs e a publicidade? Acha que as blogueiras têm sua opinião comprometida por se relacionarem com anunciantes e aceitarem presentes?

MF – Olhando de uma forma geral para os blogs, vejo muito menina que vende a sua opinião – mais até as blogueiras iniciantes que, desesperadamente, querem ser reconhecidas e famosas, e acabam falando bem de qualquer marca que lhe ofereça produto para sorteio. Sobre isso, eu acho uma pena. Mas acho também que as leitoras estão cada vez mais atentas, maduras e bem informadas. Elas sabem identificar quando uma blogueira está “forçando a barra” sobre alguma marca.

No meu blog, muito raramente eu faço algum post totalmente negativo sobre alguma marca, porque acho isso pouco construtivo. Mesmo assim, quando acontece, costuma ser sobre marcas com as quais eu tenho uma experiência negativa de forma espontânea, como outra cliente qualquer. Até porque as parcerias que faço são todas, sempre, porque eu acredito na marca anunciante. Ou porque já uso ou porque acho que minhas leitoras usam. Obviamente que se é uma marca anunciante, eu procuro destacar os pontos positivos (o que não significa que minto sobre os pontos negativos, não tento escondê-los, simplesmente não falo). Mas se alguma leitora comenta de forma negativa, eu jamais apago.

ID 126 – No seu blog você defende o consumo consciente. Como funciona isso?

MF – No blog, eu deixo muito claro que compro o que posso. Uma vez fui falar de umas compras que fiz na loja de maquiagem Eudora. Como tinha comprado muita coisa, não quis passar a imagem de uma compra inconsequente. Acabei sendo ingênua e falando que havia comprado no débito, e não no crédito. A intenção era apenas dizer que não foi uma compra por impulso, como muita menina faz: compra no cartão, parcela a perder de vista e pensa “depois eu vejo como pago”; obviamente que meu comentário gerou a maior polêmica e, ao final, me serviu para perceber que dá para passar essa imagem de consumo consciente de outra forma. Por exemplo, no AM eu falo de produtos novos no mercado, mas não falo com uma mensagem de “tem que ter”. Eu falo sempre como novidade, nunca como imposição de compra. Acho cafona até esse tipo de comportamento de “tem que ter”. Gosto de destacar também o equilíbrio: às vezes a gente quer se dar um mimo, ou sabe que comprar sapato barato pode sair caro. Então, vale à pena deixar de comprar duas blusas na C&A (que nem é mais tão barata assim…) para comprar uma blusa mais arrumada na Animale; ou um sapato Luiza Barcelos. Por outro lado, tem moda que passa tão rápido que não vale à pena comprar por um preço alto. Eu trabalho essa idéia do hi-lo no blog, e sei que minhas leitoras gostam e se identificam com isso.

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