{"id":17902,"date":"2014-06-11T12:18:29","date_gmt":"2014-06-11T15:18:29","guid":{"rendered":"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/?p=17902"},"modified":"2014-07-03T17:49:53","modified_gmt":"2014-07-03T20:49:53","slug":"pesquisador-critica-politica-de-encarceramento-e-defende-investimento-no-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/pesquisador-critica-politica-de-encarceramento-e-defende-investimento-no-social\/","title":{"rendered":"Pesquisador critica pol\u00edtica de encarceramento e defende investimento no social"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>\u201c<\/strong>Quando voc\u00ea parte para uma guerra, n\u00e3o existe a possibilidade de sair sem mortos e feridos\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #888888;\"><strong>Ailton Sena e Wilka Brasil<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><a href=\"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/luiz_entrevista.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-17903 alignleft\" title=\"Foto: Arquivo pessoal\" src=\"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/luiz_entrevista-168x300.jpg\" alt=\"\" width=\"134\" height=\"240\" \/><\/a><\/em><\/strong>Em todo o Brasil, os \u00edndices da viol\u00eancia s\u00e3o elevados, se comparados a outros pa\u00edses. Luiz Cl\u00e1udio Louren\u00e7o, um dos coordenadores do Laborat\u00f3rio de Estudos em Seguran\u00e7a P\u00fablica, Cidadania e Solidariedade (<a href=\"http:\/\/www.lassos.ffch.ufba.br\/\">Lassos<\/a>) da Universidade Federal da Bahia apontou algumas hip\u00f3teses que ajudam a compreender o aumento da viol\u00eancia na regi\u00e3o Nordeste, a mais violenta do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"text-align: justify;\"><em>Impress\u00e3o Digital 126<\/em><\/strong><em style=\"text-align: justify;\"> <\/em><em style=\"text-align: justify;\">&#8211; <\/em><strong>De acordo com levantamento feito por uma ONG mexicana, o Brasil possui 16 das 50 cidades mais violentas do mundo. Todas as nordestinas est\u00e3o inclu\u00eddas. Existe alguma explica\u00e7\u00e3o para esse alto \u00edndice?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luiz Cl\u00e1udio Louren\u00e7o &#8211;<\/strong> Existem algumas pistas que nos ajudam a compreender um pouco melhor esse fen\u00f4meno. Uma hip\u00f3tese interessante a ser investigada \u00e9 o dinamismo econ\u00f4mico que a regi\u00e3o experimentou nos \u00faltimos anos. Muita gente tende a acreditar que o crescimento econ\u00f4mico de alguma forma reduziria as taxas de criminalidade. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade. O que acontece, muitas vezes, \u00e9 que o crescimento econ\u00f4mico torna algumas cidades mais atrativas como foco de criminalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0ID 126 \u2013 <\/em>O que faz com que, em 2006, o Nordeste ultrapasse o Sudeste nas taxas de viol\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Paralelo ao dinamismo econ\u00f4mico experimentado pela regi\u00e3o Nordeste, no Sudeste h\u00e1 a hegemonia do grupo criminoso PCC (Primeiro Comando da Capital). Eles exercem hegemonia na venda de drogas e adotam uma pol\u00edtica de n\u00e3o criar alarde na regi\u00e3o onde atuam, para n\u00e3o atrair a aten\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. N\u00e3o promovem assassinatos e tentam reduzir ao m\u00e1ximo os \u00edndices de criminalidade. Aqui no nordeste n\u00e3o h\u00e1 isso. H\u00e1 uma grande fragmenta\u00e7\u00e3o de grupos. Isso seria um dos fatores que nos ajudam a pensar o problema da viol\u00eancia. Al\u00e9m disso, n\u00e3o tivemos medidas que atuassem na media\u00e7\u00e3o de conflitos, no protagonismo social de p\u00fablicos que poderiam ser alvos de criminalidade violenta. Os investimentos nessa \u00e1rea foram mais t\u00edmidos que nas pol\u00edticas de controle social.<\/p>\n<blockquote><p>Muita gente acredita que o crescimento econ\u00f4mico reduz as taxas de criminalidade. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"text-align: right;\"><em>ID 126 &#8211;\u00a0<\/em>Com as taxas de criminalidade em propor\u00e7\u00f5es de 100 mil n\u00e3o h\u00e1 uma distor\u00e7\u00e3o dos dados fazendo com que nas cidades menores os casos de viol\u00eancia impactassem mais que em cidades maiores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Em um ano, isoladamente, isso pode acontecer. Mas, diluindo a taxa ao longo de 10 anos, isso desaparece. \u00c9 importante tamb\u00e9m que, ao ler o n\u00famero, possamos qualific\u00e1-lo. Se acontece uma chacina numa cidade pequena, \u00e9 preciso que tenhamos um asterisco explicando que aquele n\u00famero se trata daquilo. \u00c9 interessante notar o caso de Sim\u00f5es Filho, que foi apontada como a cidade mais violenta do Brasil. Na verdade, muito dos cad\u00e1veres que s\u00e3o encontrados na cidade n\u00e3o foram mortos ali. A cidade \u00e9 conhecida na grande Salvador como uma regi\u00e3o de desova. Muitos assassinatos acontecem na periferia de Salvador, mas o corpo \u00e9 deixado em Sim\u00f5es Filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>ID 126 &#8211;\u00a0<\/em>Al\u00e9m dos fatores j\u00e1 mencionados, o Brasil como um todo tem uma taxa baix\u00edssima de elucida\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios. Segundo divulgado pelo jornal <em>O Globo<\/em>, em m\u00e9dia, 5% a 10% dos casos s\u00e3o solucionados. A ci\u00eancia da impunidade poderia ser apontada como um dos fatores para o elevado n\u00famero de homic\u00eddios no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> \u00c9 dif\u00edcil fazer uma afirma\u00e7\u00e3o desse tipo. Mas \u00e9 claro que a grande magnitude dos casos j\u00e1 \u00e9 um dificultador da elucida\u00e7\u00e3o. Paralelo a isso, h\u00e1 os entraves burocr\u00e1ticos: no desenho da nossa pol\u00edcia, no Brasil inteiro, a investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 feita pela Pol\u00edcia Civil, mas quem tem mais capilaridade nos bairros s\u00e3o os policiais que fazem o r\u00e1diopatrulhamento, que s\u00e3o da Pol\u00edcia Militar. E eles n\u00e3o participam do processo de investiga\u00e7\u00e3o. H\u00e1 descompassos interessantes entre essas institui\u00e7\u00f5es, que se estivessem bem azeitadas, com outro desenho institucional, poderiam funcionar melhor na elucida\u00e7\u00e3o dos casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>ID 126 &#8211; <\/em>Talvez se elas trabalhassem em parceria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Poderia ser uma possibilidade. Existem <em>enes<\/em> possibilidades que poderiam ajudar nessa elucida\u00e7\u00e3o. Fica claro que o desenho que temos precisa de ajustes. Eu n\u00e3o me atreveria a falar quais porque eu n\u00e3o sou da \u00e1rea de administra\u00e7\u00e3o. Eu sou um soci\u00f3logo. O soci\u00f3logo \u00e9 \u00f3timo para ver quest\u00f5es, apontar problemas, mas eu n\u00e3o me acho competente na administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>A vis\u00e3o cotidiana da viol\u00eancia contribui para a falta de sensibilidade diante da preserva\u00e7\u00e3o da vida humana.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>ID 126 &#8211;\u00a0<\/em>Mas quando os crimes acontecem em certos grupos e ganham a visibilidade da m\u00eddia a pol\u00edcia \u00e9 mais eficiente. Como o senhor avalia essa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Eu acho que faltam mais estudos nesse sentido. Esse crit\u00e9rio de noticiabilidade de certos casos torna o que seria justo, injusto. Aquele caso de cidad\u00e3o comum que n\u00e3o foi noticiado acaba ficando engavetado. Esse tipo de noticiabilidade n\u00e3o contribui para uma justi\u00e7a igualit\u00e1ria. Ao contr\u00e1rio, favorece determinados grupos, determinados nichos que ganham a simpatia da m\u00eddia por terem crit\u00e9rios que possibilitam uma maior venda de jornais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>ID 126 &#8211; <\/em>Os casos que t\u00eam recebido aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia s\u00e3o aqueles marcados pela barb\u00e1rie e falta de sensibilidade com a vida humana. Cada vez mais as pessoas se importam menos com a vida do outro? Isso indica que estar\u00edamos vivendo um processo de barbariza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> O Norbert Elias, quando fala do processo civilizat\u00f3rio, o define como uma sensibilidade que temos diante da vida. Se pensarmos no nosso pacto civilizat\u00f3rio, veremos que somos sens\u00edveis para algumas coisas. A vis\u00e3o cotidiana da viol\u00eancia contribui para o embrutecimento e a falta de sensibilidade diante da preserva\u00e7\u00e3o da vida humana. Mas tamb\u00e9m \u00e9 claro que os crimes mais b\u00e1rbaros ganham mais destaque nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Essa divulga\u00e7\u00e3o cria na opini\u00e3o geral, a ideia de que estamos vivendo uma explos\u00e3o da criminalidade violenta, quando, na verdade, precisamos olhar com um pouco mais de cuidado e entender se \u00e9 uma tend\u00eancia ou se s\u00e3o casos t\u00e3o expressivos que acabam repercutindo em v\u00e1rias bocas ao mesmo tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>ID 126 &#8211;\u00a0<\/em>Anteriormente, o senhor falou que faltaram pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no Nordeste. Mas quais pol\u00edticas foram adotadas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Em Pernambuco houve um investimento grande tanto no controle quanto na preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. E houve uma queda significativa dos homic\u00eddios por l\u00e1. O governo est\u00e1 tentando aplicar o modelo pernambucano, Pacto Pela Vida, aqui na Bahia. Mas, \u00e9 claro que, diante de um &#8220;terreno \u00e1rido&#8221; se tem dificuldades muito grandes em semear pol\u00edticas sociais. Esse tipo de pol\u00edtica de preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia deve ser feita a longo prazo, e o resultado obtido n\u00e3o pode ser mensurado facilmente. Quando se tira algu\u00e9m de uma posi\u00e7\u00e3o de risco, n\u00e3o se tem um \u00edndice atrav\u00e9s do qual se pode falar: &#8220;esse garoto foi salvo de ser morto&#8221;. O contr\u00e1rio \u00e9 muito mais f\u00e1cil de provar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ID 126 &#8211;<\/strong> <strong>O que ainda precisa ser feito?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Eu acredito que \u00e9 preciso investir em mais pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, de protagonismo juvenil para p\u00fablicos que s\u00e3o alvos de homic\u00eddios, criar inst\u00e2ncias de media\u00e7\u00e3o de conflitos na periferia, inst\u00e2ncias extrajur\u00eddicas que tenham como foco a justi\u00e7a restaurativa. No meu entender, isso contribuiria para um cen\u00e1rio mais pac\u00edfico das rela\u00e7\u00f5es sociais nas periferias das grandes cidades porque hoje \u00e9 muito f\u00e1cil um sujeito conseguir uma arma de fogo e resolver suas desaven\u00e7as \u00e0 bala.<\/p>\n<blockquote><p>As pessoas se preocupam mais com os cachorros que ficam nas ruas do que com os seres humanos que saem das pris\u00f5es.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>ID 126 &#8211; <\/em>Seria um caminho mais preventivo que punitivo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Se voc\u00ea faz um controle com uma pol\u00edcia fortemente armada, o combate, necessariamente, produz mortos e feridos. A gente n\u00e3o deve combater, a gente deve desconstruir. \u00c9 diferente. \u00c9 uma estrat\u00e9gia de enfrentamento, mas de uma outra maneira. Quando voc\u00ea combate, quando voc\u00ea parte para uma guerra, n\u00e3o existe a possibilidade de sair dessa guerra sem mortos e feridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>ID 126 \u2013<\/em> Quanto ao modo como a seguran\u00e7a \u00e9 tratada atualmente, o que h\u00e1 de errado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Uma das coisas que sempre fica em segundo plano quando falamos em seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 o debate sobre as pris\u00f5es. Quando a gente prende algu\u00e9m, n\u00e3o estamos favorecendo em nada a nossa sociedade, na verdade, estamos criando condi\u00e7\u00f5es para que aquela pessoa saia pior do que entrou. O detento n\u00e3o \u00e9 assistido para que haja algum tipo de reinser\u00e7\u00e3o social ou de requalifica\u00e7\u00e3o moral. Ele fica muito mais propenso a se engajar numa &#8220;empresa&#8221; criminosa a partir da entrada na pris\u00e3o do que se dissociar do crime. A nossa legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite que as pessoas fiquem presas por muito tempo, ent\u00e3o, necessariamente elas v\u00e3o sair e v\u00e3o sair piores do que entraram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>ID 126 \u2013 <\/em>Faltam pol\u00edticas de ressocializa\u00e7\u00e3o dos egressos do sistema prisional?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>L.C.L. &#8211;<\/strong> Hoje a gente tem muito mais ONGs que cuidam de animais abandonados do que seres humanos que saem das pris\u00f5es. Temos s\u00f3 a Pastoral Carcer\u00e1ria, basicamente. As pessoas se preocupam mais com os cachorros que ficam nas ruas do que com os seres humanos que saem das pris\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 o castigo que vai dissuadi-lo a praticar o crime, mas sim mostrar para ele que h\u00e1 possibilidades de n\u00e3o seguir uma carreira delituosa. A principal fun\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica e dos mecanismos de controle social deveria ser garantir um bom conv\u00edvio social. Muito mais do que punir pura e simplesmente. Se continuarmos na l\u00f3gica punitiva, na vingan\u00e7a generalizada, n\u00e3o teremos elementos para construir um conv\u00edvio social minimante bom.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuando voc\u00ea parte para uma guerra, n\u00e3o existe a possibilidade de sair sem mortos e feridos\u201d Ailton Sena e Wilka Brasil Em todo o Brasil, os \u00edndices da viol\u00eancia s\u00e3o elevados, se comparados a outros pa\u00edses. 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