{"id":34725,"date":"2018-01-31T19:51:37","date_gmt":"2018-01-31T22:51:37","guid":{"rendered":"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/?p=34725"},"modified":"2018-01-31T19:51:37","modified_gmt":"2018-01-31T22:51:37","slug":"negros-no-jornalismo-alem-das-paginas-policiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/negros-no-jornalismo-alem-das-paginas-policiais\/","title":{"rendered":"Negros no jornalismo: al\u00e9m das p\u00e1ginas policiais"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Especialistas, professores e militantes do movimento negro expressam sua insatisfa\u00e7\u00e3o com a falta de diversidade na representa\u00e7\u00e3o dos negros no jornalismo<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A representa\u00e7\u00e3o do povo negro sempre foi uma defici\u00eancia na sociedade em geral. Embora esta situa\u00e7\u00e3o tenha melhorado em algumas esferas da comunica\u00e7\u00e3o, ainda que mais lentamente, \u00e9 no jornalismo que o problema maior se concentra. Segundo uma an\u00e1lise feita pelo jornalista Diogo Costa em seu trabalho de conclus\u00e3o de curso (TCC), os jornais baianos, em sua maioria, ao noticiarem autos de resist\u00eancia, frequentemente utilizam o termo \u201cConfronto com a pol\u00edcia\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A an\u00e1lise realizada por Diogo consistiu em checar como s\u00e3o noticiados autos de resist\u00eancia nos Jornais Correio* e Massa!. Na pesquisa, foi observado que no jornal Correio* 34% das 30 not\u00edcias analisadas foram produzidas sob o enquadramento de confronto com a pol\u00edcia, enquanto no Massa! o n\u00famero \u00e9 ainda maior e representa 53%, de 30 publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34726\" src=\"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/GRaFICO-correio.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"456\" srcset=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/GRaFICO-correio.jpg 800w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/GRaFICO-correio-702x400.jpg 702w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/GRaFICO-correio-768x438.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: Diogo Costa<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-34727\" src=\"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/GRAFICO-MASSA-768x438.gif\" alt=\"\" width=\"797\" height=\"455\" srcset=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/GRAFICO-MASSA-768x438.gif 768w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/GRAFICO-MASSA-702x400.gif 702w\" sizes=\"(max-width: 797px) 100vw, 797px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: Diogo Costa<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para a Bacharel em Artes, estudante de jornalismo e pesquisadora \u00e1vida quando o assunto \u00e9 representatividade do povo negro, I\u2019sis Almeida, o termo mais utilizado no jornalismo deriva diretamente da rela\u00e7\u00e3o entre jornal e pol\u00edcia, normalmente a militar. \u201cSabemos que a pol\u00edcia militar \u00e9 para os jornais um dos topos da pir\u00e2mide de fontes oficiais. Esse problema \u00e9 do jornalista? N\u00e3o. No entanto, confrontar informa\u00e7\u00f5es e ouvir o m\u00e1ximo de fontes poss\u00edveis evita que vidas, n\u00e3o estou me restringindo apenas a vidas negras, sejam possivelmente destru\u00eddas por um setor que deveria estar a servi\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o, assim como a pr\u00f3pria pol\u00edcia.\u201d, acredita ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para I\u2019sis, se um jornalista n\u00e3o se encoraja a fazer al\u00e9m do que os modelos imp\u00f5em, fatalmente os profissionais estar\u00e3o fadados a repeti\u00e7\u00e3o destes termos, onde apenas as notas da assessoria da pol\u00edcia s\u00e3o consideradas como fontes. Ela tamb\u00e9m acha imprescind\u00edvel que antes de ser publicado qualquer conte\u00fado no jornal \u00e9 fundamental ouvir todos os lados da hist\u00f3ria, o que na opini\u00e3o dela n\u00e3o acontece com tanta frequ\u00eancia quanto ela gostaria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Este \u00e9 um ponto de vista que parece ser compartilhado com Diogo, autor da pesquisa. Ele acredita que o jornalista necessita entender que ao escrever algo que expressa \u00f3dio ou preconceito<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">fere os direitos humanos e n\u00e3o cumpre o pr\u00f3prio c\u00f3digo de \u00e9tica que rege a profiss\u00e3o. \u201c\u00c9 preciso entender que o jornalista possui responsabilidade por aquilo que escreve, e pensar tamb\u00e9m que aquilo que ele torna p\u00fablico ser\u00e1 lido e comentado. Acho importante que o jornalista escute o povo negro, que pergunte as suas vers\u00f5es dos fatos quando eles estiverem envolvidos.\u201d , defende ele. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por outro lado, ele considera importante tamb\u00e9m n\u00e3o generalizar e atribuir toda a culpa ao jornalista. Para ele as empresas de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ajudam a refor\u00e7ar preconceitos quando n\u00e3o ofertam as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas necess\u00e1rias para que o jornalista apure a pauta como deve ser apurada e principalmente quando acreditam na vers\u00e3o da pol\u00edcia como uma verdade inquestion\u00e1vel. <\/span><\/p>\n<p><b>O que os jornalistas t\u00eam a dizer?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com quatro anos de reda\u00e7\u00e3o, o jornalista e militante do movimento negro Yuri Silva entende que a aus\u00eancia de pessoas negras em pap\u00e9is de destaque nas mat\u00e9rias jornal\u00edsticas tem muito haver com dois fatores: um hist\u00f3rico e outro sociorracial. \u00a0O hist\u00f3rico se d\u00e1 porque o jornalismo nasce das elites, na Fran\u00e7a durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Evento em que a burguesia triunfou. Para ele, o jornalismo nascer nessas condi\u00e7\u00f5es j\u00e1 diz muito sobre a rela\u00e7\u00e3o que ele tem com essa classe que se tornou dominante. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O fator sociorracial fica por conta do fato que por muito tempo o of\u00edcio de jornalista foi exercido por pessoas brancas e de classe alta, o que automaticamente deixava os negros fora n\u00e3o s\u00f3 das pautas de interesse, mas tamb\u00e9m das reda\u00e7\u00f5es j\u00e1 que por muito tempo eram raros os negros que tinham acesso \u00e0s universidades. Para ele, a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 melhora quando negros come\u00e7am a entrar nas reda\u00e7\u00f5es e mudar um pouco essa l\u00f3gica quando tomam a iniciativa de<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">falar sobre assuntos voltados \u00e0 pauta racial o que d\u00e1 destaque a especialistas negros. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele ainda avalia a cena do jornalismo baiano um tanto quanto preconceituosa, j\u00e1 que os negros s\u00f3 obt\u00eam destaque nos jornais em pautas que falam de negritude e movimento negro. \u201cRaramente voc\u00ea v\u00ea negros falando sobre medicina, economia, pol\u00edtica\u201d, aponta. E isso talvez seja em fun\u00e7\u00e3o de que muitos jornalistas n\u00e3o t\u00eam essa preocupa\u00e7\u00e3o em entrevistar fontes negras, mas sim os considerados melhores especialistas em determinados assuntos. \u201cPensar assim n\u00e3o ajuda muito porque vivemos em uma sociedade racista em que os considerados melhores especialistas, na grande maioria das vezes, s\u00e3o pessoas brancas e isso dificulta a diversidade de fontes negras nos jornais\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>Iniciativas que podem mudar esta narrativa<\/b><\/p>\n<div id=\"attachment_34728\" style=\"width: 326px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-34728\" class=\"wp-image-34728\" src=\"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Emanuele-Pereira1.jpg\" alt=\"Emanuele Pereira \u00e9 professora de Jornalismo da UNEB\" width=\"316\" height=\"415\" \/><p id=\"caption-attachment-34728\" class=\"wp-caption-text\">Emanuele Pereira \u00e9 professora de Jornalismo da UNEB Foto:AcervoPessoal<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cansada da falta de representa\u00e7\u00e3o de pessoas negras em lugares de destaque no jornal, como na figura de especialistas, a professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Emanuele Pereira prop\u00f4s a seus alunos que realizassem um mailing apenas com especialistas negros. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A proposta surgiu quando a turma come\u00e7ou a realizar <\/span><a href=\"http:\/\/obamburrio.blogspot.com.br\/?m=1\"><span style=\"font-weight: 400;\">um caderno especial<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> voltado para tem\u00e1ticas \u00e9tnicas-raciais e notou a dificuldade de encontrar essas fontes. Foi necess\u00e1rio realizar uma pesquisa para encontrar empres\u00e1rios e especialistas negros. \u201cPara a gente n\u00e3o faz sentido realizar um especial sobre a quest\u00e3o racial sem ter o negro falando sobre o assunto\u201d, declarou Emanuele. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na montagem do mailing foram acionados tamb\u00e9m alguns ve\u00edculos de Comunica\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o e hoje o material j\u00e1 conta com mais ou menos 50 fontes. Na lista \u00e9 poss\u00edvel encontrar advogados, psic\u00f3logos, empreendedores, jornalistas e profissionais das \u00e1reas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e gastronomia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para a professora, esta dificuldade em encontrar especialistas negros se d\u00e1 porque dentro da pr\u00f3pria academia o n\u00famero de professores, mestrandos e doutorandos negros ainda \u00e9 muito baixo. Al\u00e9m disso, ela acredita que para os negros e negras \u00e9 mais dif\u00edcil conseguir algum reconhecimento em suas pesquisas dentro das universidades. A pretens\u00e3o de Emanuele \u00e9 que a vers\u00e3o digital do caderno especial seja apresentada no F\u00f3rum Social Mundial e integre a programa\u00e7\u00e3o do evento. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O jornalista Yuri Silva tamb\u00e9m tenta dar um jeito de mudar, ainda que aos poucos, essa realidade. \u201cNo jornal A Tarde eu tenho tentado pautar e conseguido emplacar, na maioria das vezes, assuntos da pauta racial que eu considero importantes at\u00e9 porque o jornal \u00e9 quem \u00e9 respons\u00e1vel por registrar a microhist\u00f3ria\u201d, declarou. Ele ainda cita Cleidiana Ramos, Ma\u00edra Azevedo, Meire Oliveira e Fabiana Mascarenhas no jornal A Tarde<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">como grandes contribuintes para inser\u00e7\u00e3o da pauta racial na imprensa baiana. O que Yuri chama de \u201ctrabalhos de formiguinha\u201d porque pouco a pouco este assunto vem ganhando mais destaque, mas para ele ainda \u00e9 preciso evoluir muito neste sentido.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialistas, professores e militantes do movimento negro expressam sua insatisfa\u00e7\u00e3o com a falta de diversidade na representa\u00e7\u00e3o dos negros no jornalismo A representa\u00e7\u00e3o do povo negro sempre foi uma defici\u00eancia na sociedade em geral. 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