{"id":38560,"date":"2021-12-01T19:05:02","date_gmt":"2021-12-01T22:05:02","guid":{"rendered":"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/?p=38560"},"modified":"2021-12-03T09:57:09","modified_gmt":"2021-12-03T12:57:09","slug":"comunidades-de-matriz-africana-lutam-por-pratica-religiosa-em-espacos-publicos-de-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/comunidades-de-matriz-africana-lutam-por-pratica-religiosa-em-espacos-publicos-de-salvador\/","title":{"rendered":"Comunidades de matriz africana lutam por pr\u00e1tica religiosa em espa\u00e7os p\u00fablicos de Salvador"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Interven\u00e7\u00f5es em locais comunit\u00e1rios preocupam terreiros que dependem da vegeta\u00e7\u00e3o natural para exercer cultos<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Geovana Oliveira, Luana Lisboa, Victor Hugo Meneses e Jo\u00e3o Marcelo Bispo<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, a vodunsi M\u00e3e Cacau se emociona ao falar sobre o in\u00edcio das obras para a Esta\u00e7\u00e3o Elevat\u00f3ria de Esgoto na Lagoa do Abaet\u00e9. Quando as m\u00e1quinas chegaram para cavar o terreno, tr\u00eas \u00e1rvores sagradas foram tombadas. A \u00c1rvore do Louro, a Aroeira e um Cajueiro, que eram divindades para o povo de santo, foram arrancadas sem cerim\u00f4nia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e Cacau conta, com a voz embargada, que enquanto essas \u00e1rvores ca\u00edam, uma jiboia se aproximou. \u201cAquele momento em que as \u00e1rvores estavam sendo tombadas pela m\u00e1quina, e que apareceu aquela jiboia, foi um momento muito triste para n\u00f3s, de muita dor. O Poder P\u00fablico, que deveria estar aqui para nos servir, nos trata dessa forma, com esse racismo religioso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No entorno da Lagoa do Abaet\u00e9, em Itapu\u00e3, h\u00e1 mais de 50 terreiros de Candombl\u00e9, segundo a vodunsi. De matriz africana, as pr\u00e1ticas da religi\u00e3o est\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 natureza. No entanto, as \u00faltimas interven\u00e7\u00f5es do Poder P\u00fablico podem amea\u00e7ar esse espa\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2020, moradores de Itapu\u00e3 e a Comiss\u00e3o do Povo de Santo <a href=\"https:\/\/www.metro1.com.br\/noticias\/cidade\/97108,projeto-de-elevatoria-de-esgoto-na-lagoa-do-abaete-gera-protestos\">se mobilizam<\/a> contra a Esta\u00e7\u00e3o Elevat\u00f3ria de Esgoto no local. Projeto da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), aprovado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos (Inema), a EEE pode apresentar diversos problemas operacionais. A afirma\u00e7\u00e3o foi feita pelo pr\u00f3prio engenheiro t\u00e9cnico da Embasa, Wladmir Concei\u00e7\u00e3o, que deu parecer favor\u00e1vel ao projeto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de uma falha t\u00e9cnica, a esta\u00e7\u00e3o pode contaminar as \u00e1guas escuras da Lagoa e a areia branca das dunas que a cercam, as mesmas cantadas por Dorival Caymmi e Caetano Veloso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoi comprovado que poder\u00e1 haver um acidente de explodir essa esta\u00e7\u00e3o. E para onde v\u00e3o esses dejetos? Vai para a lagoa, as \u00e1guas. N\u00f3s cultuamos a divindade Oxum, e como vamos cultuar uma divindade dentro de um espa\u00e7o de uma lagoa repleta de dejetos?\u201d, reclama a vodunsi.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e Cacau tem 57 anos e mora nos arredores do Abaet\u00e9 h\u00e1 50. Filha de baiana de acaraj\u00e9, foi uma das lavadeiras da Lagoa durante a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Por muito tempo, as \u00e1guas foram tamb\u00e9m seu sustento. O mesmo aconteceu com o professor de hist\u00f3ria Eraldo Souza, 51, tamb\u00e9m filho de baiana do acaraj\u00e9, que lavava os seus feij\u00f5es na lagoa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eraldo foi um dos organizadores das duas manifesta\u00e7\u00f5es contra a constru\u00e7\u00e3o do elevat\u00f3rio, junto \u00e0 Comiss\u00e3o do Povo de Santo. A \u00faltima, no dia 26 de setembro deste ano, pedia que a comunidade fosse ouvida sobre o projeto. Desde 2020, eles apresentam solu\u00e7\u00f5es alternativas e ecol\u00f3gicas \u00e0 EEE.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Procuradas pela reportagem, a Conder e a Embasa responsabilizaram uma a outra pela esta\u00e7\u00e3o elevat\u00f3ria, mas nenhuma respondeu aos questionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>O drama no Abaet\u00e9, entretanto, continua. E ele traduz uma preocupa\u00e7\u00e3o de todas as comunidades tradicionais de Matriz Africana em Salvador. Com o tempo, os espa\u00e7os p\u00fablicos com vegeta\u00e7\u00e3o natural se extinguem, e outros sofrem interven\u00e7\u00f5es mesmo da gest\u00e3o p\u00fablica. Entre as obras para constru\u00e7\u00e3o do BRT at\u00e9 o projeto de concess\u00e3o privada dos parques de S\u00e3o Bartolomeu e Pitua\u00e7u, os cultos presentes na capital baiana desde que era capital do pa\u00eds, ficam cada vez mais restritos.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2cqLUwaKDRU\" title=\"YouTube video player\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\" width=\"100%\" height=\"720\" frameborder=\"0\"><\/iframe>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-white-color has-text-color has-background\" style=\"background-color:#068a53\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>Do in\u00edcio<\/strong><\/em> <\/h3>\n\n\n\n<p>Desde que as primeiras comunidades africanas chegaram em Salvador, na Bahia, no s\u00e9culo XVI, elas trouxeram tra\u00e7os de identidade religiosa. Escravizadas, no entanto, e submetidas a uma imposi\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a cat\u00f3lica no processo de coloniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o eram permitidas a expressar sua f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, os cultos e pr\u00e1ticas das religi\u00f5es de matriz africana j\u00e1 come\u00e7aram afastados dos grandes centros pol\u00edticos e sociais na capital baiana. Ao longo do s\u00e9culo XVIII e principalmente no s\u00e9culo XIX, lugares perif\u00e9ricos, onde ficavam nascentes, riachos, lagoas e matas, foram escolhidos para assentar os terreiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem conta \u00e9 o professor de hist\u00f3ria Rafael Dantas. De acordo com ele, foi assim que espa\u00e7os como Lagoa do Abaet\u00e9 e Parque S\u00e3o Bartolomeu foram ganhando import\u00e2ncia para a comunidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos primeiros terreiros de Salvador, no entanto, foi fundado por africanas no bairro da Barroquinha, no centro da cidade. Segundo pesquisadores, o terreiro conhecido como Il\u00ea Ax\u00e9 Air\u00e1 Intil\u00ea funcionava atr\u00e1s da Igreja Nossa Senhora da Barroquinha, que hoje abriga o Espa\u00e7o Cultural Barroquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas depois eles v\u00e3o ser expulsos, v\u00e3o para outros lugares por conta das moderniza\u00e7\u00f5es do entorno urbano. E v\u00e3o para onde? V\u00e3o para lugares mais afastados. Ent\u00e3o cada vez mais essas comunidades africanas\/baianas v\u00e3o buscando espa\u00e7os afastados do centro para poder fazer os seus cultos\u201d, conta o historiador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Do Candombl\u00e9 da Barroquinha, ent\u00e3o, sa\u00edram tr\u00eas outros terreiros: Casa Branca do Engenho Velho \u2014 reconhecido como o mais antigo do Brasil \u2014, Gantois e Il\u00ea Ax\u00e9 Op\u00f4 Afonj\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio de deslocamento ainda \u00e9 recente, do ponto de vista hist\u00f3rico. No s\u00e9culo XX, a constru\u00e7\u00e3o da avenida M\u00e1rio Leal Ferreira, pelo ent\u00e3o prefeito Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, exigiu a retirada de um terreiro do local, que organizava cultos no Vale do Bonoc\u00f4 \u2014 como hoje \u00e9 popularmente chamada a via.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO nome Bonoc\u00f4 \u00e9 uma homenagem ao terreiro que ali ficava. Inclusive ACM prometeu (diz a hist\u00f3ria) para a m\u00e3e de Santo que a avenida seria Bonoc\u00f4. E acabou que ele sempre chamou Bonoc\u00f4, apesar de ser M\u00e1rio Leal Ferreira. Ent\u00e3o ele cumpriu a promessa pelo menos da parte dele\u201d, conta Rafael Dantas.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro <em>Iconografia dos Deuses Africanos no Candombl\u00e9 da Bahia<\/em>, o professor Waldeloir R\u00eago escreve: \u201cEm outro ponto da cidade onde existe uma baixada chamada Baixa do Bonoc\u00f4, antes Gunoc\u00f4, que \u00e9 uma corruptela de Igunnuk\u00f4, os negros se reuniam \u00e0 noite para fazerem o ritual de Baba Jgunnuk\u00f4, em volta de uma \u00e1rvore sacralizada, distribu\u00eddo egh\u00f3 (milho branco cozido) enquanto dava meia-noite, quando Baba Igunnuk\u00f4 aparecia\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rvore sagrada para o culto ao Egungun, no entanto, se perdeu. E o Candombl\u00e9 tamb\u00e9m continuou perdendo espa\u00e7o. As \u00e1rvores centen\u00e1rias da Salvador verde do s\u00e9culo XVI foram sendo derrubadas e destru\u00eddas com o avan\u00e7o dos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo s\u00e9culo XX, na \u00e9poca de Mangabeira e ACM, t\u00ednhamos ainda a preocupa\u00e7\u00e3o de preservar o mais antigo. Inclusive, o pr\u00f3prio ACM era do Candombl\u00e9. Cat\u00f3lico, mas ligado ao Candombl\u00e9. Mas por conta do crescimento impulsionado pelo setor imobili\u00e1rio, muitas \u00e1rvores foram perdidas\u201d, diz o historiador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As obras do BRT, iniciadas em 2018 sob a gest\u00e3o j\u00e1 de ACM Neto, tamb\u00e9m foram respons\u00e1veis por derrubar \u00e1rvores sagradas. \u201cAli s\u00e3o \u00e1rvores que n\u00e3o podem ser cortadas. \u00c1rvores muito importantes para o candombl\u00e9 e para a cidade do Salvador. N\u00e3o s\u00f3 importantes para o candombl\u00e9, como para a hist\u00f3ria da cidade, porque s\u00e3o testemunhas silenciosas das transforma\u00e7\u00f5es urbanas e precisam ser preservadas\u201d.&nbsp;<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>S\u00e3o Bartolomeu&nbsp;<\/strong><\/em><\/h3>\n\n\n\n<p>Como a Lagoa do Abaet\u00e9, o Parque S\u00e3o Bartolomeu tamb\u00e9m \u00e9 um dos poucos espa\u00e7os que ainda concentra \u00e1rea verde para as pr\u00e1ticas do Candombl\u00e9. Localizado entre o bairro de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Piraj%C3%A1_(Salvador)\">Piraj\u00e1<\/a> e a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lista_de_acidentes_geogr%C3%A1ficos_de_Salvador_(Bahia)#Enseada_do_Cabrito\">Enseada do Cabrito<\/a>, no <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sub%C3%BArbio_Ferrovi%C3%A1rio\">Sub\u00farbio Ferrovi\u00e1rio<\/a>, \u00e9 uma dos maiores espa\u00e7os para o culto de religi\u00f5es de matriz africana de Salvador, uma vez que possui uma \u00e1rea de 75 hectare &#8211; cerca de nove campos de futebol &#8211;&nbsp; remanescente de Mata Atl\u00e2ntica em zona urbana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m onde est\u00e1 situada a Mata do Urubu, onde se instalaram os primeiros \u00edndios tupinamb\u00e1 na cidade e, depois, centenas de quilombolas, no Quilombo dos Urubus.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, desde o final de 2020, quando foi anunciada uma parceria entre o Governo do Estado e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social) no programa de <a href=\"https:\/\/www.bndes.gov.br\/wps\/portal\/site\/home\/transparencia\/desestatizacao\/cadastro-consultores\/rfi-03-2020-concessoes-de-parques-naturais\">Concess\u00f5es de Parques Naturais<\/a>, n\u00e3o s\u00f3 religiosos, como moradores e ativistas se mobilizaram contra a concess\u00e3o do local para a iniciativa privada.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi organizada a Frente Popular em Defesa do Parque e um <a href=\"https:\/\/correionago.com.br\/ebo-coletivo-em-defesa-dos-parques\/\">eb\u00f3 coletivo<\/a> reuniu desde pesquisadores ambientalistas a pol\u00edticos como Maria Marighella e Hilton Coelho em um ato, em julho deste ano. Eb\u00f3 \u00e9 uma sequ\u00eancia de rituais feitos para agradar os Orix\u00e1s, no qual se busca corrigir \u201cdefici\u00eancias\u201d do ser humano ou chamar aten\u00e7\u00e3o para uma quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Nara-Gentil_CORREIO.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-38651\" width=\"940\" height=\"627\" srcset=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Nara-Gentil_CORREIO.jpg 940w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Nara-Gentil_CORREIO-600x400.jpg 600w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Nara-Gentil_CORREIO-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><figcaption>Foto cedida \u00e0 reportagem: Nara Gentil\/CORREIO<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Membro da Frente Popular, Eduardo Machado, 37, acredita que o nome \u201cconcess\u00e3o\u201d \u00e9 fachada. Para o candomblecista, a fal\u00eancia do local \u00e9 permitida pelo Governo do Estado como uma estrat\u00e9gia para a privatiza\u00e7\u00e3o e a decis\u00e3o n\u00e3o foi propriamente discutida com os populares.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, a concess\u00e3o privada difere da privatiza\u00e7\u00e3o por n\u00e3o se desfazer dos equipamentos do lugar e apenas ceder o seu gerenciamento para a iniciativa privada por determinado per\u00edodo de tempo. A privatiza\u00e7\u00e3o consiste na venda de ativos e a transfer\u00eancia em definitivo para o parceiro privado, isto \u00e9, o poder p\u00fablico efetivamente vende o bem e perde o direito de propriedade. Na concess\u00e3o, os bens e servi\u00e7os a serem explorados s\u00e3o devolvidos \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica ao final do contrato, que pode ser de 15, 20 ou 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA comunidade sempre cuidou do parque, gerido com gest\u00e3o compartilhada com a Conder [Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia], e quer\u00edamos fortalecer isso. A gente gere h\u00e1 anos para melhorar, desenvolver e o estado passa para uma empresa privada que s\u00f3 tem interesses comerciais? Onde fica a representatividade hist\u00f3rica e simb\u00f3lica para a popula\u00e7\u00e3o negra de toda a Bahia, para o Brasil, para o mundo?\u201d, questiona.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele lembra que a preserva\u00e7\u00e3o dos s\u00edtios sagrados \u00e9 tamb\u00e9m a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria dos povos origin\u00e1rios e costumes africanizados em per\u00edodos de coloniza\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia racial mais escancarada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que quando perguntado sobre se sentia que o Estado negligencia a pr\u00e1tica da sua religi\u00e3o, a resposta foi afirmativa. \u201cTotalmente. Sobretudo quando ressalta em suas pol\u00edticas institucionais pr\u00e1ticas de benfeitoria e escolha pelos s\u00edmbolos de uma religi\u00e3o em detrimento das outras fitas pr\u00e1ticas religiosas\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Paulo Henrique Carvalho, 37, morador do Toror\u00f3, isso \u00e9 um reflexo da falta de pol\u00edticas p\u00fablicas que n\u00e3o consideram a prote\u00e7\u00e3o dos mais vulner\u00e1veis e de sucessivos governos negligentes, quando esses n\u00e3o s\u00e3o os pr\u00f3prios agentes da pr\u00f3pria discrimina\u00e7\u00e3o. Cita como exemplo o antigo prefeito de Salvador, Jo\u00e3o Henrique, evang\u00e9lico, e \u201cpraticante da discrimina\u00e7\u00e3o contra os candomblecistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, ele, que durante anos costumava utilizar espa\u00e7os p\u00fablicos naturais para a pr\u00e1tica, agora evita. \u201cA diminui\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes e das \u00e1guas na cidade, a persegui\u00e7\u00e3o religiosa, inclusive da pol\u00edcia militar e de religiosos crist\u00e3os, e um poder p\u00fablico que n\u00e3o se responsabiliza por construir ambientes preparados para isto refor\u00e7a o preconceito e nos obriga a ir cada vez mais longe do centro da cidade para realizar os ritos, como os eb\u00f3s, por exemplo\u201d, critica.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Bahia, al\u00e9m do Parque, tamb\u00e9m est\u00e3o no plano de concess\u00e3o a Serra do Conduru &#8211; entre Ilh\u00e9us, Itacar\u00e9 e Uru\u00e7uca -, Parque das 7 passagens &#8211; localizado em Miguel Calmon &#8211; e o Jardim Zoobot\u00e2nico Get\u00falio Vargas (Jardim Zool\u00f3gico) e o Parque de Pitua\u00e7u, em Salvador.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Nara-Gentil_CORREIO-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-38659\" width=\"840\" height=\"559\"\/><figcaption> Foto cedida \u00e0 reportagem: Nara Gentil\/CORREIO <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Procurado, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos (Inema), autarquia da Secretaria do Meio Ambiente (Sema) e \u00f3rg\u00e3o executor da Pol\u00edtica Ambiental do Estado da Bahia, afirmou, atrav\u00e9s de assessoria, que n\u00e3o existem novidades ou avan\u00e7os sobre o tema, mas encaminhou um <a href=\"http:\/\/www.inema.ba.gov.br\/2021\/02\/parceria-entre-o-bndes-e-governo-do-estado-fortalecera-gestao-de-preservacao-de-parques-baianos\/\">material<\/a> publicado em fevereiro de 2021, \u00e0 \u00e9poca de um dos primeiros contatos da institui\u00e7\u00e3o com o BNDES.<\/p>\n\n\n\n<p>Nele, M\u00e1rcia Telles, diretora-geral do Inema, afirma que \u00e9 favor\u00e1vel esse tipo de parceria, principalmente quando se tem como principal objetivo a manuten\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o da vasta e rica \u00e1rea ambiental baiana. Al\u00e9m disso, a gestora promete que, caso seja aprovado ap\u00f3s estudos e an\u00e1lises de viabilidade, o processo se dar\u00e1 por meio de uma concess\u00e3o e envolver\u00e1 discuss\u00e3o com as comunidades do entorno.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPosteriormente n\u00f3s vamos envolver as comunidades do entorno dessas \u00e1reas para que tamb\u00e9m participem do processo. \u00c9 interessante deixar claro que eles tamb\u00e9m s\u00e3o importantes em todo o contexto, j\u00e1 que vivem ao redor dessas regi\u00f5es e muitos vivem do trabalho que \u00e9 desenvolvido direta ou indiretamente nesses parques\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, a discuss\u00e3o n\u00e3o foi feita com as comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>O documento ainda cont\u00e9m trecho que considera a concess\u00e3o de uma Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o uma \u201ct\u00edpica rela\u00e7\u00e3o \u201cganha-ganha\u201d entre o poder p\u00fablico e privado\u201d, onde a \u201ccomunidade se beneficia atrav\u00e9s do aumento da oferta de emprego\u201d, al\u00e9m de possibilitar um melhor ambiente de neg\u00f3cios para o \u201cempreendedorismo local\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O BNDES, por sua vez, lan\u00e7ou uma <a href=\"https:\/\/www.bndes.gov.br\/wps\/portal\/site\/home\/imprensa\/noticias\/conteudo\/bndes-vai-conceder-parques-estaduais-para-melhorar-experiencia-dos-visitantes\">nota \u00e0 imprensa<\/a> em janeiro deste ano, na qual afirma que a concess\u00e3o vai atrair investimentos para aprimorar a qualidade dos servi\u00e7os prestados nos parques, com a \u201cconsequente melhora da experi\u00eancia dos visitantes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O Banco tamb\u00e9m promete manter a preserva\u00e7\u00e3o das unidades e afirma que as parcerias atrair\u00e3o investimentos pelo operador privado que \u201cdesonerar\u00e3o os cofres p\u00fablicos\u201d, al\u00e9m de estimular o turismo sustent\u00e1vel e \u201cdesenvolver as economias locais nas \u00e1reas de influ\u00eancia de cada parque\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span style=\"color:#068a53\" class=\"has-inline-color\"><em><strong>Sem folha, n\u00e3o h\u00e1 orix\u00e1<\/strong><\/em><\/span> <\/h3>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 do Parque e da Lagoa vivem os afroreligiosos de Salvador. Pelo contr\u00e1rio, toda natureza \u00e9 sagrada. At\u00e9 o profano \u00e9 sagrado, diz Tata kwa Nkisi Mut\u00e1 Im\u00ea. O administrador do Terreiro de 17 mil metros quadrados em Cajazeiras, o Nz\u00f2 Mut\u00e1 Lomb\u00f4 ye Kaiongo, explica que os minerais e a \u00e1gua, vento, fogo, terra s\u00e3o os elementos nos quais as representa\u00e7\u00f5es ancestrais se fortalecem e, por isso, os praticantes costumam praticar m\u00edsticas e cultuar as liturgias onde houver o verde. Sem folha, n\u00e3o h\u00e1 orix\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 encantado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os locais de maiores concentra\u00e7\u00f5es de natureza s\u00e3o, portanto, s\u00edtios sagrados. Estrat\u00e9gicos para qualquer culto afro religioso e afroind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n[iframe width=&#8221;100%&#8221; height=&#8221;576&#8243; src=&#8221;https:\/\/maphub.net\/embed\/169376?button=0&amp;legend=1&amp;panel=1&amp;panel_closed=1&#8243; frameborder=&#8221;0&#8243;]\n\n\n\n<p>Entre historiadores, especialistas e praticantes das religi\u00f5es de matriz africana h\u00e1 a dificuldade de mapeamento das \u00e1rvores sagradas em Salvador. A tarefa \u00e9 dif\u00edcil, dada a quantidade e diversidade dessas \u00e1rvores. \u00c9 poss\u00edvel, entretanto, encontrar algumas das plantas j\u00e1 demarcadas por orix\u00e1s. S\u00e3o aquelas que tem oj\u00e1s amarrados ao meio, tecidos brancos sagrados, em pedido de paz e respeito \u00e0 liberdade de cren\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas marcam presen\u00e7a tanto nos grandes parques quanto em pra\u00e7as e avenidas como o Largo do Campo Grande e a Lucaia e s\u00f3 aumentaram em quantidade ap\u00f3s a <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/alvorada-dos-ojas-volta-a-ser-realizada-apos-1-ano-de-intervalo-devido-a-pandemia\/\">Alvorada dos Oj\u00e1s<\/a>, realizada na \u00faltima sexta-feira (19) pela primeira vez desde o in\u00edcio da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo Dique do Toror\u00f3, por exemplo, a maioria das \u00e1rvores s\u00e3o muito sagradas, mas toda natureza tamb\u00e9m \u00e9. Barrigudas, p\u00e9s de para-raios, iroco, baob\u00e1, gameleira, arueira, genipapeiro, mangueira, jaqueira, todas elas pertencem a determinados orix\u00e1s, ou olodum, dependendo da na\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ouvir um trecho de \u00e1udio de Tata Mut\u00e1 Im\u00ea:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" scrolling=\"no\" allow=\"autoplay\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=https%3A\/\/api.soundcloud.com\/tracks\/1166316130&amp;color=%23ff5500&amp;auto_play=false&amp;hide_related=false&amp;show_comments=true&amp;show_user=true&amp;show_reposts=false&amp;show_teaser=true\" width=\"100%\" height=\"166\" frameborder=\"no\"><\/iframe><div style=\"font-size: 10px; color: #cccccc;line-break: anywhere;word-break: normal;overflow: hidden;white-space: nowrap;text-overflow: ellipsis; font-family: Interstate,Lucida Grande,Lucida Sans Unicode,Lucida Sans,Garuda,Verdana,Tahoma,sans-serif;font-weight: 100;\"><a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/impress-o-digital-126\" title=\"impress\u00e3o digital 126\" target=\"_blank\" style=\"color: #cccccc; text-decoration: none;\" rel=\"noopener\">impress\u00e3o digital 126<\/a> \u00b7 <a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/impress-o-digital-126\/a-natureza-sagrada-por-muta-ime\" title=\"A natureza sagrada, por Muta Im\u00ea\" target=\"_blank\" style=\"color: #cccccc; text-decoration: none;\" rel=\"noopener\">A natureza sagrada, por Muta Im\u00ea<\/a><\/div>\n\n\n\n<p>Essas plantas utilizadas nos cultos sagrados, no entanto, t\u00eam desaparecido da cidade, segundo o presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra (CMCN), professor Evil\u00e1sio da Silva Bou\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom o desmatamento, elas v\u00e3o sumindo. Existem algumas plantas tipo Candeia, que a gente encontrava aqui no centro. Tamb\u00e9m Mucumbi e outras que s\u00e3o praticamente \u00e1rvores, s\u00e3o plantas de grande porte que d\u00e3o na mata \u2014 a gente tinha aqui e hoje tem certa dificuldade para recolher\u201d, conta enquanto lembra de mais uma planta que virou de dif\u00edcil acesso: Pau-pombo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, as folhas para os cultos passaram a ser compradas nas feiras, como a de S\u00e3o Joaquim, mas h\u00e1 uma quest\u00e3o: \u201cas pessoas que tiram n\u00e3o s\u00e3o religiosas, e n\u00e3o tem o mesmo olhar que a gente para fazer essa coleta\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Evil\u00e1sio conta que por volta de 2018, pensando nisso, foi feito um trabalho de observa\u00e7\u00e3o religioso pela Secretaria de Repara\u00e7\u00e3o e a Secis (Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Inova\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia), junto com o Conselho. \u201cFoi criado um projeto de plantas sagradas \u2014 no caso era para criar em v\u00e1rios terreiros que ainda t\u00eam um pouco de espa\u00e7o de mata para fazer essas planta\u00e7\u00f5es dessas folhas que t\u00eam desaparecido\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto Hortas Sagradas migrou tamb\u00e9m para o Jardim Bot\u00e2nico de Salvador, que prev\u00ea, em parceria com o CMCN, ter um espa\u00e7o para as plantas usadas pelas religi\u00f5es de matriz africana. L\u00e1, al\u00e9m de um espa\u00e7o de preserva\u00e7\u00e3o, parte ser\u00e1 reservada \u00e0 colheita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIsso tem sido trabalhado para que na hora que o religioso venha a fazer a colheita, n\u00e3o tenha impedimento\u201d, afirma. De acordo com ele, devido \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o nos parques municipais como da Lagoa do Abaet\u00e9, S\u00e3o Bartolomeu e mesmo o parque da Cidade, que delimitam quantidade, acontecem certos constrangimentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>Liberta\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/em><\/h3>\n\n\n\n<p>O monumento da Pedra de Xang\u00f4, localizado no bairro de Cajazeiras, representa liberta\u00e7\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o oral conta que o rochedo ficava encravado num rio e o separava em duas partes: uma rasa e outra funda. Passando pela fenda no centro do monumento, negros escravizados em fuga conseguiam enganar feitores e escapar do cativeiro. Assim, a Pedra era vista como um portal para a liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n\u00e3o haver registros, acredita-se que o monumento tenha sido um local de quilombo e de pr\u00e1ticas religiosas tanto africanas quanto ind\u00edgenas. Ap\u00f3s conquistarem a liberdade, os escravizados passavam a cultuar divindades como Niksi e Oris\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o rochosa, tornando a Pedra de Xang\u00f4, al\u00e9m de um s\u00edmbolo de resist\u00eancia, um local sagrado.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente na disserta\u00e7\u00e3o de Maria Alice Pereira, advogada e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), que escolheu o monumento como objeto de pesquisa. Para ela, a import\u00e2ncia da Pedra de Xang\u00f4 para a cultura soteropolitana \u00e9 ineg\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEla tem toda uma hist\u00f3ria de um povo negro que chegou no pa\u00eds como escravizado. Para o povo negro desta cidade, a Pedra \u00e9 uma prova de todo um legado ancestral. Por isso, a comunidade sempre lutou para que ela fosse preservada\u201d, diz Maria Alice.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O monumento j\u00e1 sofreu diversos ataques de vandalismo. Em dezembro de 2018, por exemplo, 100 kg de sal foram jogados na Pedra, ato que foi novamente realizado no m\u00eas seguinte. Os casos foram considerados intoler\u00e2ncia religiosa pois o sal \u00e9 visto como um s\u00edmbolo de purifica\u00e7\u00e3o, dando a entender que o local estaria impuro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/impressaodigital126.ufba.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Pedra-de-Xango-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-38656\" width=\"835\" height=\"556\"\/><figcaption>Foto: Juscelino Paxeco &#8211; Site Pedra de Xang\u00f4\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria exist\u00eancia da Pedra de Xang\u00f4 j\u00e1 foi colocada em xeque pelo poder p\u00fablico. Em 2005, o monumento chegou a ser desnudado e quase foi implodido para dar espa\u00e7o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da avenida Assis Valente. Ap\u00f3s protestos da comunidade, a Pedra foi poupada, e um movimento em sua defesa foi criado.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir daquele ano, a comunidade local passou a se articular para garantir a preserva\u00e7\u00e3o da Pedra de Xang\u00f4 foi criado. Al\u00e9m de se manifestarem contra ataques e realizarem eventos para demonstrar o valor do monumento, uma pauta tornou-se a principal do grupo: queriam que o monumento sagrado fosse classificado como patrim\u00f4nio cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ap\u00f3s conhecer essas hist\u00f3rias que Maria Alice decidiu seguir para a \u00e1rea da arquitetura, em 2011, e transformar a Pedra de Xang\u00f4 em seu objeto de pesquisa. Sua vontade era ajudar as pessoas da comunidade a conquistar seu objetivo de garantir o tombamento do local.<\/p>\n\n\n\n<p>E conseguiu. Sua disserta\u00e7\u00e3o, publicada em 2017 e intitulada \u201cPedra de Xang\u00f4: um Lugar Sagrado Afro-brasileiro na Cidade de Salvador\u201d, transformou-se em livro e serviu de subs\u00eddio para o tombamento do local, realizado em maio daquele ano, junto \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Greg\u00f3rio de Matos. Al\u00e9m da pedra, toda a regi\u00e3o de 17 hectares onde ela est\u00e1 tamb\u00e9m foi tombada.<\/p>\n\n\n\n<p>Na ocasi\u00e3o, a Prefeitura de Salvador afirmou que, al\u00e9m de ser elemento de resist\u00eancia cultural, a Pedra de Xang\u00f4 \u00e9 aglutinadora da teia de terreiros do conjunto de bairros de Cajazeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso porque o local serve como palco de rituais religiosos para diversos terreiros que n\u00e3o possuem vegeta\u00e7\u00e3o em seus espa\u00e7os, dependendo de locais p\u00fablicos ao ar livre para exercer plenamente sua atividade religiosa. Por isso, preservar espa\u00e7os como a Pedra de Xang\u00f4 \u00e9 fundamental para essas comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a popula\u00e7\u00e3o acompanha a implementa\u00e7\u00e3o do Parque Pedra de Xang\u00f4 no local, que j\u00e1 est\u00e1 com obras avan\u00e7adas e tem previs\u00e3o de entrega para janeiro de 2022. A obra \u00e9 a primeira de refer\u00eancia total a religi\u00f5es de matriz africana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00f5es em locais comunit\u00e1rios preocupam terreiros que dependem da vegeta\u00e7\u00e3o natural para exercer cultos Por Geovana Oliveira, Luana Lisboa, Victor Hugo Meneses e Jo\u00e3o Marcelo Bispo At\u00e9 hoje, a vodunsi M\u00e3e Cacau se emociona ao falar sobre o in\u00edcio das obras para a Esta\u00e7\u00e3o Elevat\u00f3ria de Esgoto na Lagoa do Abaet\u00e9. 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