{"id":39505,"date":"2022-07-06T10:53:20","date_gmt":"2022-07-06T13:53:20","guid":{"rendered":"https:\/\/id126ufba.com.br\/?p=39505"},"modified":"2022-12-14T10:38:02","modified_gmt":"2022-12-14T13:38:02","slug":"autonomia-e-coletividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/autonomia-e-coletividade\/","title":{"rendered":"Autonomia e coletividade"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"has-text-align-left wp-block-heading\">Jovens narram suas milit\u00e2ncias junto a movimentos sociais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Falar em movimentos sociais \u00e9 pensar em grupos de organiza\u00e7\u00e3o popular que se unem em coletividade para atuar politicamente na sociedade. Para uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o, organizar-se em movimentos sociais acaba se tornando uma forma de atuar contra as mazelas que os atingem mais diretamente. Nessa an\u00e1lise, n\u00e3o se pode desprezar a for\u00e7a que a juventude possui para atuar em prol de transforma\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Orientados pelo desejo de mudan\u00e7a e pela atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica junto \u00e0s suas comunidades, quatro jovens nos narraram como tornaram-se militantes. Para al\u00e9m da pol\u00edtica institucional &#8211; cujo evento mais decisivo, as elei\u00e7\u00f5es, se avizinha &#8211; estes militantes regulam sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelos valores da autogest\u00e3o popular, da participa\u00e7\u00e3o em movimentos sociais com hist\u00f3ria e ideologia pr\u00f3prias, e pela coletividade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Movimentos sociais na pr\u00e1tica<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Fora das irrup\u00e7\u00f5es civis pontuais e al\u00e9m das movimenta\u00e7\u00f5es estudantis, a constru\u00e7\u00e3o junto a um movimento exige tempo, esfor\u00e7o e dedica\u00e7\u00e3o. O graduando em Direito e mestrando em Estudos Interdisciplinares na UFBA, \u00cdcaro Jorge, 24, militante no <a href=\"https:\/\/mnu.org.br\/\">Movimento Negro Unificado (MNU)<\/a>, conhece bem essa realidade. \u00cdcaro se aproximou dos movimentos sociais quando entrou na universidade pela primeira vez, como ingresso no curso de B.I. em Humanidades. Construiu sua atua\u00e7\u00e3o junto \u00e0s representa\u00e7\u00f5es estudantis, como o Centro Acad\u00eamico e o Diret\u00f3rio Central dos Estudantes da UFBA, e tamb\u00e9m na UNE. Foi ainda na gradua\u00e7\u00e3o que, junto com amigos e amigas, criou um grupo de estudos de teorias negras. Ali come\u00e7ou sua hist\u00f3ria com o MNU.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cA gente iniciou estudando <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/lelia-gonzalez\/\">L\u00e9lia Gonzalez<\/a> [intelectual de orienta\u00e7\u00e3o marxista, antrop\u00f3loga, militante antirracista e uma das fundadoras do MNU]. Nesse processo de estudo, decidimos em conjunto nos filiarmos ao MNU. Esse processo \u00e9 feito manualmente, voc\u00ea recebe o papel, faz a filia\u00e7\u00e3o e entrega ao dirigente estadual do Movimento; nesse momento, voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 incorporado ao grupo e j\u00e1 pode ir acompanhando as reuni\u00f5es, as atividades. A atua\u00e7\u00e3o vem muito do que a gente constr\u00f3i\u201d, conta \u00cdcaro.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"position: relative; width: 100%; height: 0; padding-top: 100.0000%;\n padding-bottom: 48px; box-shadow: 0 2px 8px 0 rgba(63,69,81,0.16); margin-top: 1.6em; margin-bottom: 0.9em; overflow: hidden;\n border-radius: 8px; will-change: transform;\">\n  <iframe loading=\"lazy\" style=\"position: absolute; width: 100%; height: 100%; top: 0; left: 0; border: none; padding: 0;margin: 0;\" src=\"https:\/\/www.canva.com\/design\/DAFFpcpaPiU\/view?embed\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" allow=\"fullscreen\">\n  <\/iframe>\n<\/div>\n<a href=\"https:\/\/www.canva.com\/design\/DAFFpcpaPiU\/view?utm_content=DAFFpcpaPiU&amp;utm_campaign=designshare&amp;utm_medium=embeds&amp;utm_source=link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Design<\/a> de Matheus Souza\n\n\n\n<p><br>Desde sua entrada, o militante integra diversas frentes, principalmente \u00e0quelas do movimento que s\u00e3o voltadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. \u00cdcaro j\u00e1 integrou a banca de heteroidentifica\u00e7\u00e3o das cotas raciais na UFBA \u2013 o que inclusive inspirou sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado \u2013, integrou a comiss\u00e3o que busca pautar a manuten\u00e7\u00e3o do Centro de Estudos dos Povos Afro-\u00cdndio Americanos (CEPAIA\/UNEB), assim como foi delegado em um dos congressos estaduais do movimento. \u201cDe certa forma, a atua\u00e7\u00e3o do movimento social acaba sendo uma atua\u00e7\u00e3o muito interdisciplinar, com diversos projetos que se articulam. Onde a gente estiver a gente vai estar construindo alguma coisa\u201d, explica.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BOX-MNU-723x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39507\" width=\"307\" height=\"434\" srcset=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BOX-MNU-723x1024.jpeg 723w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BOX-MNU-212x300.jpeg 212w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BOX-MNU-768x1087.jpeg 768w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BOX-MNU.jpeg 904w\" sizes=\"(max-width: 307px) 100vw, 307px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>\u201cA participa\u00e7\u00e3o em movimentos sociais coloca voc\u00ea n\u00e3o apenas num lugar pass\u00edvel de resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais, mas tamb\u00e9m num lugar ativo em que voc\u00ea compreende como lutar, como se organizar para modificar determinadas realidades e n\u00e3o s\u00f3 sentir aquela dor\u201d, continua \u00cdcaro. \u201cIsso forma a pessoa, que passa a possuir outras formas de fazer as coisas\u201d. O pesquisador v\u00ea essa forma\u00e7\u00e3o tanto em um \u00e2mbito pessoal, quanto da sua atua\u00e7\u00e3o profissional. \u00cdcaro passou a compor um grupo de afinidades de pessoas negras na empresa onde trabalha. Ele completa, afirmando que, ao mudar a postura de um militante, a atua\u00e7\u00e3o em movimentos ensina \u201ca falar\u201d e a romper com os silenciamentos que nos s\u00e3o impostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, milit\u00e2ncia \u00e9 algo que se difere do ativismo na medida em que requer uma atua\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, uma constru\u00e7\u00e3o mais firme junto a um movimento social. \u201cEstar militante de movimento social requer compromisso e agenciamento, de v\u00e1rias formas, n\u00e3o s\u00f3 do tempo, mas tamb\u00e9m afetivos, pessoais e econ\u00f4micos. No movimento estudantil, pelo fato de ter algumas responsabilidades, eu tive de abdicar de algumas oportunidades. \u00c9 um compromisso que voc\u00ea tem n\u00e3o apenas com voc\u00ea, mas com outras pessoas que esperam de voc\u00ea um resultado\u201d, narra acerca do desafio de ser um representante do corpo estudantil<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201c\u00c9 uma forma de exist\u00eancia\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><br><strong>L\u00edgia Bitencourt<\/strong>, 24, entende bem a quest\u00e3o dos desafios. A graduanda em Direito na UFBA estudava Ci\u00eancias Sociais quando, ao se aproximar da organiza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o de negros e negras<a href=\"https:\/\/reajanasruas.blogspot.com\/\"> Reaja ou Ser\u00e1 Morta, Reaja ou Ser\u00e1 Morto<\/a>, se deparou com a necessidade do movimento de ter profissionais especializados na \u00e1rea jur\u00eddica. \u201cInfelizmente nosso povo est\u00e1 preso, morto ou analfabeto. Ent\u00e3o, a gente precisa se municiar de todas as formas. Naquele momento pareceu importante para minha organiza\u00e7\u00e3o, e para mim, mudar de curso\u201d, relata. \u201cEntrei no curso de Direito muito orientada por esta organiza\u00e7\u00e3o que me deu r\u00e9gua e compasso na minha atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e para a mulher que sou hoje\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Sua caminhada na milit\u00e2ncia come\u00e7a desde muito cedo, aos 14 anos. L\u00edgia conta que, na \u00e9poca em que era moradora de Cama\u00e7ari, integrou o movimento estudantil do IFBA e tamb\u00e9m participou de a\u00e7\u00f5es do movimento por moradia na cidade. Foi entre essas andan\u00e7as que, inclusive, sentiu a penalidade que aflige os movimentos. Ela foi uma das expulsas do IFBA no epis\u00f3dio conhecido como os \u201c<a href=\"https:\/\/www.une.org.br\/imprensa\/repudio-ao-autoritarismo-do-ifba-de-camacari-ba\/\">20 de Cama\u00e7ari<\/a>&#8221;, uma das decis\u00f5es que na \u00e9poca foram condenadas, inclusive pela UNE, que a classificou como uma \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"position: relative; width: 100%; height: 0; padding-top: 100.0000%;\n padding-bottom: 48px; box-shadow: 0 2px 8px 0 rgba(63,69,81,0.16); margin-top: 1.6em; margin-bottom: 0.9em; overflow: hidden;\n border-radius: 8px; will-change: transform;\">\n  <iframe loading=\"lazy\" style=\"position: absolute; width: 100%; height: 100%; top: 0; left: 0; border: none; padding: 0;margin: 0;\" src=\"https:\/\/www.canva.com\/design\/DAFFpSlpWKM\/view?embed\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" allow=\"fullscreen\">\n  <\/iframe>\n<\/div>\n<a href=\"https:\/\/www.canva.com\/design\/DAFFpSlpWKM\/view?utm_content=DAFFpSlpWKM&amp;utm_campaign=designshare&amp;utm_medium=embeds&amp;utm_source=link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Slideshow 2<\/a> de Matheus Souza\n\n\n\n<p>Pela auto-organiza\u00e7\u00e3o e alinhamento de princ\u00edpios do movimento, L\u00edgia tornou-se uma militante da Reaja. A organiza\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o quilombista e garveyista (Garveyismo, do original garveyism, aspecto do nacionalismo negro referente \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f4micas, raciais e pol\u00edticas do fundador da Associa\u00e7\u00e3o Universal para o Progresso Negro e Liga das Comunidades Africanas, Marcus Garvey). <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Garveyismo-723x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39511\" width=\"284\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Garveyismo-723x1024.jpeg 723w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Garveyismo-212x300.jpeg 212w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Garveyismo-768x1087.jpeg 768w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Garveyismo.jpeg 904w\" sizes=\"(max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>&#8220;Como diria Hamilton Borges [militante e lideran\u00e7a na Reaja], Quilombola n\u00e3o pede. Quilombola toma\u201d, conta L\u00edgia. Criada em 2005, a Reaja veio na esteira da como\u00e7\u00e3o em n\u00edvel nacional e internacional do assassinato da filantropa e ativista norte-americana Dorothy Stang. No entanto, ela pontua que a morte de corpos pretos jamais causou a mesma como\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. \u201cPercebemos que havia uma desproporcionalidade. Por que nossa morte n\u00e3o ecoava tanto? A gente come\u00e7ou a se organizar nesse sentido: se ningu\u00e9m vai chorar a nossa dor, quem tem que chorar somos n\u00f3s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cA Reaja optou politicamente por enfrentar essa realidade de uma forma a dar continuidade aos princ\u00edpios africanos que sempre foram efetivos para nossa liberta\u00e7\u00e3o\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Mais que uma fun\u00e7\u00e3o \u00fanica, L\u00edgia atua pela organiza\u00e7\u00e3o, que possui muitas frentes. Pelo princ\u00edpio da auto-organiza\u00e7\u00e3o, a Reaja fundou as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es, como a Escola Winnie Mandela, a organiza\u00e7\u00e3o cultural Quilombo Xis, a Editora Reaja, o evento Teorias sobre N\u00f3s, que debate pautas raciais com intelectuais e artistas convidados. Al\u00e9m disso, a organiza\u00e7\u00e3o ainda possui ampla atividade de apoio a familiares de pessoas encarceradas e at\u00e9 mesmo dentro das pris\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Por essa perspectiva ampla, a estudante nos explica que a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o atua com grupos segmentados da comunidade. \u201cN\u00f3s n\u00e3o trabalhamos com esse conceito de juventude. Para n\u00f3s \u00e9 \u2018de maior\u2019 ou \u2018de menor\u2019, porque a pol\u00edcia n\u00e3o considera juventude negra, ela considera povo negro. \u00d3bvio que para a gente jovens e negros s\u00e3o as pessoas mais vulner\u00e1veis em rela\u00e7\u00e3o a forma f\u00edsica de matar atrav\u00e9s do estado. Mas, em qualquer ranking que se pegar, estaremos nas piores situa\u00e7\u00f5es. Seja jovem, seja velho, ou nem nascido, estamos submetidos a esse processo\u201d, julga.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Assim como \u00cdcaro, L\u00edgia tamb\u00e9m entende a sua milit\u00e2ncia como uma das principais fontes de educa\u00e7\u00e3o que recebeu. \u201cFoi atrav\u00e9s dela que entendi e tive acesso ao que \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com forma\u00e7\u00e3o, com debate, disciplina, compromisso e trabalho real. Quando eu falo r\u00e9gua e compasso foi o que modelou inclusive minha postura em outros espa\u00e7os n\u00e3o apenas na minha milit\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m na minha vida pessoal e profissional e que me deu um direcionamento na minha milit\u00e2ncia. Que me educou, na verdade\u201d, assevera a estudante. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma camisa que eu visto e tiro. \u00c9 uma forma de exist\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201cJ\u00e1 recebemos golpe antes de chegar ao mundo\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Edielso Barbosa dos Santo<\/strong>s, 29, mostra que a viv\u00eancia das juventudes \u00e9 mais diversa do que se assume. O quilombola do Baix\u00e3o do Gua\u00ed, no munic\u00edpio de Maragogipe-BA, passou a morar em Salvador para concluir o curso de Ci\u00eancias Sociais na UFBA. Em sua comunidade, ele possui nome, sobrenome e hist\u00f3ria: vem de uma fam\u00edlia tradicional pesqueira, representa a juventude pesqueira como militante do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais da Bahia (MPP) e ajudou a fundar a <a href=\"https:\/\/revistamares.com.br\/index.php\/files\/article\/view\/16\">Escola das \u00c1guas<\/a>, que, para ele, \u00e9 uma das maiores conquistas do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Mas na capital a hist\u00f3ria \u00e9 outra. \u201cQuando estou em Salvador eu s\u00f3 sou Edielso, sem identidade. Sou s\u00f3 um corpo preto que possivelmente pode ser at\u00e9 alvo de uma bala \u2018achada\u2019\u201d, reflete. Como militante de uma comunidade aldeada, Edielso carrega o peso de pensar na coletividade. \u201cMinha presen\u00e7a na luta \u00e9 a possibilidade de garantir uma dignidade humana para as gera\u00e7\u00f5es futuras, que ainda ser\u00e3o geradas. Claro que eu sozinho n\u00e3o consigo isso, mas juntos conseguimos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Com a neglig\u00eancia do Estado brasileiro e o avan\u00e7o do capital sobre o territ\u00f3rio, o quilombola conta outras car\u00eancias de sua comunidade, como a falta de coleta de lixo peri\u00f3dica, a aus\u00eancia completa de postos de sa\u00fade e a dificuldade de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal. Este, inclusive, \u00e9 um dos marcos que demonstra o quanto a vida dos jovens aldeados \u00e9 distinta da juventude urbana. \u201cQuando eu entrei na Escola das \u00c1guas estava com 18 anos e na s\u00e9tima s\u00e9rie. Aqui no meu munic\u00edpio o processo educacional sempre foi muito limitado, a dist\u00e2ncia at\u00e9 a escola \u00e9 gigante. Eu tive um processo meio tardio no que tange a educa\u00e7\u00e3o formal\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"position: relative; width: 100%; height: 0; padding-top: 100.0000%;\n padding-bottom: 48px; box-shadow: 0 2px 8px 0 rgba(63,69,81,0.16); margin-top: 1.6em; margin-bottom: 0.9em; overflow: hidden;\n border-radius: 8px; will-change: transform;\">\n  <iframe loading=\"lazy\" style=\"position: absolute; width: 100%; height: 100%; top: 0; left: 0; border: none; padding: 0;margin: 0;\" src=\"https:\/\/www.canva.com\/design\/DAFFpZstrNk\/view?embed\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" allow=\"fullscreen\">\n  <\/iframe>\n<\/div>\n<a href=\"https:\/\/www.canva.com\/design\/DAFFpZstrNk\/view?utm_content=DAFFpZstrNk&amp;utm_campaign=designshare&amp;utm_medium=embeds&amp;utm_source=link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Slideshow 3<\/a> de Matheus Souza\n\n\n\n<p><br>A Escola das \u00c1guas foi tamb\u00e9m um ber\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.\u201cDepois de um ano na Escola das \u00c1guas eu j\u00e1 tinha adquirido uma consci\u00eancia cr\u00edtica muito apurada. Foi um ano de intenso trabalho de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, avalia Edielso. Gra\u00e7as a essa forma\u00e7\u00e3o, ele e mais nove jovens puderam adentrar o espa\u00e7o das universidades p\u00fablicas. A luta n\u00e3o \u00e9 apenas por acesso, mas tamb\u00e9m para garantir a emancipa\u00e7\u00e3o da terra, fazendo frente aos empreendimentos que avan\u00e7am \u2013 como o monocultivo de eucalipto e a explora\u00e7\u00e3o de pedreiras \u2013 e a conquista da delimita\u00e7\u00e3o legal do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Enquanto militante que atua junto \u00e0 juventude da qual faz parte, Edielso discorda que h\u00e1, por parte dos jovens atuais, uma dificuldade de engajamento. A estrat\u00e9gia de seu movimento sempre foi uma aproxima\u00e7\u00e3o cuidadosa para entender as demandas desse grupo que, segundo ele, preza muito por atividades culturais e esportivas. Ele completa ainda que a mobiliza\u00e7\u00e3o da juventude \u201cs\u00f3 fica dif\u00edcil se a gente n\u00e3o entender que o processo \u00e9 din\u00e2mico, ele come\u00e7a aos poucos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Questionado quanto \u00e0 representa\u00e7\u00e3o quilombola no \u00e2mbito da pol\u00edtica institucional, ele retruca que h\u00e1 pesos diferentes dados aos problemas sociais. Tra\u00e7ando um paralelo com o impeachment sofrido pela presidenta Dilma Roussef, em 2016, ele responde: \u201cNas comunidades tradicionais, quando a crian\u00e7a est\u00e1 na barriga da m\u00e3e j\u00e1 est\u00e1 recebendo golpe sem sequer chegar ao mundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201cAt\u00e9 hoje estou na luta\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/unidade-popular.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-39537\" width=\"230\" height=\"255\"\/><figcaption>Foto: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>Giovana Ferreira<\/strong>, 23, viu nos movimentos sociais uma possibilidade de mudan\u00e7a na realidade das mulheres que a rodeiam. Em 2018, ela ingressou na Universidade Federal da Bahia, cursando Hist\u00f3ria. L\u00e1, ela teve contato com estudos sociais, hist\u00f3ricos e filos\u00f3ficos que se prop\u00f5em a explicar os fen\u00f4menos que atingem a sociedade. Munida de saberes, Giovanna buscou ser uma figura ativa nesses eventos,lutando contra a desigualdade social, cultural e econ\u00f4mica que atinge sua comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Logo, ela se tornou afiliada \u00e0 <a href=\"https:\/\/exame.com\/brasil\/conheca-a-unidade-popular-33o-partido-do-brasil-da-esquerda-socialista\/\">Unidade Popular do Brasil<\/a>, um partido rec\u00e9m criado que busca reivindicar o direito de pessoas negras e em vulnerabilidade. A partir dali, conheceu in\u00fameros movimentos sociais que se alinhavam a esse objetivo, um deles o<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/movimentoolga\/\"> Movimento Olga Ben\u00e1rio<\/a>, ao qual passou a fazer parte em 2020. \u201cEstava na Esta\u00e7\u00e3o da Lapa voltando para casa e conheci o pessoal, quando eles estavam coletando assinaturas para legalizar o mais novo partido pol\u00edtico no Brasil, a Unidade Popular. Da\u00ed me falaram sobre os movimentos que constroem o partido e, dentre eles estavam o Olga. Desde ent\u00e3o, at\u00e9 hoje estou na luta\u201d, ela explicou.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Ela conta que o Olga surgiu em 2011, fruto da necessidade de um grupo feminista-marxista que paute a transforma\u00e7\u00e3o da sociciedade como o principal objetivo para a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres. A partir desse momento, a estudante passou a articular as atividades do movimento, sendo por exemplo, coordenadora da ocupa\u00e7\u00e3o Casa Preta Zeferina.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video\"><video controls poster=\"http:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/gio-em-ato.png\" src=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/militancia.mp4\"><\/video><figcaption>Entrevista com Giovana Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>E no lado institucional?<\/strong><br><\/h3>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0 confidencialidade dos votos em elei\u00e7\u00f5es, dados acerca da participa\u00e7\u00e3o de jovens de 16 a 18 anos nas elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis, apenas do cadastro do T\u00edtulo de Eleitor. Ainda assim, o levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) traz dados otimistas. Entre janeiro e abril de 2022, o pa\u00eds ganhou 2.042.817 jovens eleitores nesta faixa et\u00e1ria, o que representa um aumento de 47,2% em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de 2018.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Deve-se grande parte desse engajamento \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o feita nas redes sociais. Sob a hashtag #RoledasElei\u00e7\u00f5es, o TSE uniu-se aos Tribunais Regionais Eleitorais (TRE), celebridades, times de futebol e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para promover um tuita\u00e7o para <a href=\"https:\/\/www.tse.jus.br\/imprensa\/noticias-tse\/2022\/Marco\/tuitaco-para-incentivar-os-jovens-a-tirar-o-titulo-movimenta-a-internet-e-alcanca-mais-de-88-milhoes-de-pessoas\">incentivar jovens<\/a> de 15 a 18 anos a tirarem o t\u00edtulo de eleitor. Iniciativas do tipo integram a\u00e7\u00f5es mais amplas do Tribunal, como a Semana do Jovem Eleitor. O engajamento de personas p\u00fablicas buscou pautar a necessidade de maior participa\u00e7\u00e3o juvenil na pol\u00edtica eleitoral brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O feito alcan\u00e7ou aproximadamente 88 milh\u00f5es de pessoas. Al\u00e9m desta, outras iniciativas tornaram-se conhecidas. Durante a pandemia do novo Coronav\u00edrus, a cantora Anitta passou a produzir lives em seu <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/anitta\/\">perfil pessoal do Instagram<\/a> \u2013 que hoje mant\u00e9m mais de 62 milh\u00f5es de inscritos \u2013 para ensinar os processos eleitorais ao seu p\u00fablico. Acompanhada de uma advogada, Anitta tirava suas pr\u00f3prias d\u00favidas e de seus f\u00e3s sobre as inst\u00e2ncias pol\u00edticas e seu funcionamento. O objetivo era trazer educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aos jovens que a seguem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><br><strong>Breve hist\u00f3rico da atua\u00e7\u00e3o de movimentos sociais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><br>O portal de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica <a href=\"https:\/\/www.politize.com.br\/movimentos-sociais\/\">Politize! <\/a>define que, no Brasil, movimentos sociais ganharam for\u00e7a e visibilidade durante a ditadura militar brasileira, que iniciou oficialmente em 1964. Temos como exemplos a Passeata dos Cem Mil, realizada em 1968, e o Diretas J\u00e1, em 1983, ambos eventos coordenados por entidades e partidos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Uma das entidades com forte atua\u00e7\u00e3o foi a <a href=\"https:\/\/www.une.org.br\/\">Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE)<\/a>, reconstru\u00edda em 1975, que teve um papel importante na hist\u00f3ria brasileira, indo muito al\u00e9m da defesa dos interesses dos estudantes. A UNE foi ferrenha oposi\u00e7\u00e3o durante a ditadura, integrou o movimento pelo impeachment de Collor, em 1992 e, mais recentemente, atuou no \u201cTsunami pela Educa\u00e7\u00e3o\u201d, em 2019, que movimentou o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><br>De um ponto de vista mais amplo, juventudes mobilizadas constroem movimentos sociais pela mudan\u00e7a em todo o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Apesar de ser um grupo com classifica\u00e7\u00e3o et\u00e1ria demarcada \u2013 o Estatuto da Juventude e da Adolesc\u00eancia (EJA) considera a juventude dos 15 aos 29 anos e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) de 15 a 24 anos \u2013 a juventude \u00e9 tamb\u00e9m uma classifica\u00e7\u00e3o social. \u201cA juventude seria uma fase de transi\u00e7\u00e3o, na qual n\u00f3s passamos pelo processo de socializa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, dos n\u00facleos familiares, e vamos transitar desse processo para o processo de socializa\u00e7\u00e3o em outras institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 tamb\u00e9m uma categoria de consolida\u00e7\u00e3o de aspectos do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o ao mundo\u201d, explica o professor de sociologia no Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia da Bahia (IFBA) e mestre em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) Rog\u00e9rio Ferreira Silva. Para o professor, \u00e9 importante demarcar que n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica juventude amorfa, mas sim um grupo social com origens e demandas muito distintas, que pode compor movimentos muito diferentes entre si.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><br><strong>\u201cQualquer melhoria exige iniciativa e cobran\u00e7a\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Ao tra\u00e7ar o caminho dos movimentos compostos pela juventude ao redor do mundo, como o hist\u00f3rico Maio de 68, o professor Rog\u00e9rio Ferreira alerta para a necessidade de estabelecermos um marco temporal bem definido para entender o que motivou essas revoltas durante os anos 60. \u201cNo caso da Am\u00e9rica Latina temos o forte impulso da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, na d\u00e9cada de 50, que foi tamb\u00e9m uma revolu\u00e7\u00e3o feita por pessoas relativamente jovens e se tornou uma esp\u00e9cie de marco e esperan\u00e7a para que a juventude pudesse ter a conquista do poder e a constru\u00e7\u00e3o de um outro modelo de sociedade\u201d, elucida o pesquisador.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/militancia-2-410x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39512\" width=\"-108\" height=\"-270\" srcset=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/militancia-2-410x1024.jpeg 410w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/militancia-2-120x300.jpeg 120w, https:\/\/id126ufba.com.br\/memoria\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/militancia-2.jpeg 512w\" sizes=\"(max-width: 410px) 100vw, 410px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p><br>Cada movimento teve uma caracter\u00edstica distinta em dado pa\u00eds. No Brasil, a luta era pelas chamadas reformas de base \u2013 a busca por mudan\u00e7as que atingissem problemas estruturais da sociedade. Atualmente, o pa\u00eds n\u00e3o conta com cen\u00e1rio animador. Ferreira alerta para os impactos que uma crise com sintomas econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos possui sobre a juventude. \u201cA juventude \u00e9 diretamente afetada pelo processo de piora da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica no Brasil; existe tamb\u00e9m um processo de precariza\u00e7\u00e3o profunda das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Se formos analisar rigorosamente, a grande maioria dos jovens no pa\u00eds, principalmente aqueles que dependem mais do setor p\u00fablico, os mais vulner\u00e1veis economicamente, est\u00e3o tendo sua perspectiva de futuro ceifada pela falta de pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d, reitera.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Mesmo entendendo os desafios que se apresentam para a mobiliza\u00e7\u00e3o popular no cen\u00e1rio atual, o pesquisador defende a conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo. \u201cSem a mobiliza\u00e7\u00e3o social existe uma tend\u00eancia de manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios econ\u00f4micos e pol\u00edticos\u201d, declara ele. \u201c\u00c9 muito fundamental hoje que aquilo que possa ser organizado, que possa ser mobilizado, que seja mobilizado. A perspectiva de qualquer melhora das condi\u00e7\u00f5es de vida vai exigir uma iniciativa e uma cobran\u00e7a\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jovens narram suas milit\u00e2ncias junto a movimentos sociais Falar em movimentos sociais \u00e9 pensar em grupos de organiza\u00e7\u00e3o popular que se unem em coletividade para atuar politicamente na sociedade. Para uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o, organizar-se em movimentos sociais acaba se tornando uma forma de atuar contra as mazelas que os atingem mais diretamente. 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