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Mulheres poderosas enfrentam acusação de loucura

- 02/03/2017

Misoginia contamina o julgamento sobre ações do protagonismo feminino na política 

Rayllanna Lima | Imagens: Inernet livre

A imagem da mulher está costumeiramente ligada a expressões de “sexo frágil” e “louca”. No campo da política, o preconceito é ainda maior. Exemplo disto é a descrição propagada ao longo dos anos sobre a primeira rainha do Brasil, D. Maria I (1734-1816). Embora ela muito tenha feito pelas ciências e cultura em Portugal, muitos somente a reconhecem como Rainha Maria I, a Louca. Recentemente, a primeira mulher a presidir o Brasil, Dilma Rousseff, também foi vítima de misoginia sendo inclusive associada à imagem da rainha.

A associação entre as mulheres e loucura vem de muito tempo, desde a Antiguidade. Útero, menstruação, capacidade de gerar vidas. O poder da sexualidade feminina sempre assustou por ser visto como algo indecifrável e perigoso. Em um mundo no qual a cultura machista é predominante e possui raízes patriarcais, se ela não se enquadrar no modelo de boa mãe, frágil e submissa, a mulher é alvo das mais cruéis críticas.

O Brasil tem um triste histórico de misoginia. Além de D. Maria I, outras mulheres que assumiram o poder foram escrachadas e consideradas incapazes de governar. Carlota Joaquina? Ninfomaníaca. Leopoldina? Melancólica. Princesa Isabel? Beata. A verdade é que não importa como a mulher age, o fato de ter nascido associada ao sexo feminino já é motivo para ser massacrada. Se é firme e incisiva, é lésbica. Se doce e educada, é fraca. Se controladora, é fria. Religiosa? Fanática!

Loucas ou revolucionárias?

Mas foram essas mulheres tachadas de loucas que revolucionaram a história do país. Maria Francisca Isabel Josefa Antônia Gertrudes Rita Joana de Bragança, ou somente D. Maria I, também Rainha do Brasil por circunstâncias geográficas, reinou durante 15 anos em Portugal, período em que fundou a Academia Real de Ciências de Lisboa, a Biblioteca Pública de Lisboa — hoje Biblioteca Nacional — e também a Casa Pia, que recolheu e educou abandonados e órfãos. Assim que subiu ao trono, aos 43 anos, tratou de reverter atos do reinado anterior (de seu pai, D. José I), ordenando que cerca de 800 presos políticos fossem soltos, contrariando a vontade do Marquês de Pombal.

A primeira mulher a de fato a ter poder sobre todo o território brasileiro foi Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, a Princesa Isabel (1846-1921) ou “a Redentora”, como era carinhosamente chamada. Filha de Dom Pedro II, a princesa assinou a Lei do Ventre Livre, determinando que todos os filhos de escravos nascidos após 1871, quando assinou o termo, fossem considerados livres. Ela não parou por aí: o ponto alto da história que escreveu foi em 1888, quando aboliu a escravidão ao assinar a Lei Áurea durante sua última regência.

Vamos falar de Gaslighting?

“Forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade”. Esta é a definição do Wikipedia para o termo gaslighting, bastante utilizado nos dias de hoje. O verbete vem do filme “Gaslight“, 1944, de George Cukor. No enredo, o personagem de Charles Boyer, Gregory Anton, tenta roubar a fortuna de sua esposa, Paula Alquist, interpretada por Ingrid Bergman, fazendo com que ela seja considerada “louca” e internada em um sanatório.

Em suma, gaslighting é o que acontece quando há a tentativa de desestabilizar uma mulher fazendo-a acreditar ser louca, exagerada, burra, dramática, insana, melancólica ou frágil demais. Foi basicamente o que aconteceu com todas as mulheres citadas acima que já assumiram algum tipo de poder.

No ano passado, vimos Dilma Rousseff, ainda na Presidência da República, ser inúmeras vezes chamada de louca — tendo inclusive sua sanidade mental questionada.

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Em uma das edições de setembro de 2015, o Jornal Hora do Povo, editado pelo Instituto Brasileiro de Comunicação Social mas pouco conhecido pelos brasileiros, publicou uma capa em que chamava Dilma de louca, sugerindo que ela fosse internada.

O ponto alto das discussões, que inclusive movimentou grupos feministas, foi quando a revista IstoÉ, em abril de 2016, publicou uma capa em que dizia que a ex-presidente apresentava “surtos de descontrole” e que estava “fora de si”, além de acusá-la de xingar autoridades e associá-la à imagem de louca de D. Maria I.

                       

Dias após a publicação, Dilma Rousseff, em cerimônia no Palácio do Planalto com mulheres em defesa da democracia, classificou a matéria como uma ofensa por ela ser mulher. “É um texto muito baixo, que reproduz um tipo perverso de misoginia para dizer que quando uma mulher está sob pressão costuma perder o controle. Isto vem tentando ser feito há muito tempo. Ninguém nunca pergunta para um homem se ele está sob pressão, se está nervoso.  A revista levantou que reajo com descontrole. Então, a mulher só tem duas opções, ou ela é autista ou é descontrolada”.

Tratar a mulher como louca para desmerecer sua profissionalidade, infelizmente, continua sendo uma prática recorrente da sociedade machista que vivemos. E, pior, como estratégia política, haja vista que há a tentativa de convencer a população de que o “sexo frágil” é incapaz de exercer o poder.

Plenárias com participação majoritariamente masculina são banhadas de gritos, palavrões e dedos na cara. O homem nunca é questionado de sua excessividade. Mas, se for mulher gritando e soltando palavrões, ela é desequilibrada.

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