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A agricultura não precisa ser tóxica

Glenda Dantas, Laila Nery, Mariana Gomes - 14/05/2019
O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo: entenda como eles afetam a saúde e quais as alternativas de consumo

Glenda Dantas, Laila Nery e Mariana Gomes

Desde janeiro de 2019, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicou no Diário Oficial da União o deferimento do registro de 121 produtos agrotóxicos, segundo maior número já registrado em apenas um trimestre desde 2005, segundo dados do próprio Ministério. Nesse ritmo, acredita-se que deve superar a marca de 450 produtos que foram cadastrados em 2018 – o recorde histórico.

Através da aprovação da PL 6299/02 , em Julho de 2018, se estrutura um cenário de afrouxamento da fiscalização e utilização de agrotóxicos, inclusive daqueles já proibidos em outros lugares do mundo. Só nos três primeiros meses deste ano estão sendo liberados cerca de um agrotóxico por dia no Brasil. Isso tem impacto direto na situação econômica do país e na saúde da população.

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Em 2011 o Brasil consumiu cerca de 852 milhões de litros de agrotóxicos. Um cálculo realizado pela ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) registra que, em 2002, esse consumo nas lavouras do Brasil era de aproximadamente 600 milhões de litros. Este aumento foi constatado através do cruzamento de dados do SINDAG (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola) e do IBGE e divulgado no dossiê “Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde” (2015), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz.

Segundo a lei federal n° 7.802/89, de 2002, “compete aos Estados e ao Distrito Federal fiscalizar o uso, o consumo, o comércio, o armazenamento e o transporte interno” de agrotóxicos. Na Bahia, a fiscalização das atividades relacionadas a esses fertilizantes são executadas pela Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB). Nossa equipe procurou a agência para levantar informações sobre como esses agrotóxicos vêm sendo utilizados no estado. O órgão alegou não ser capaz de compilar dados relacionados à quantidade de agrotóxicos utilizados no território baiano.

O relatório mais atualizado do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), da ANVISA, apresenta uma análise de mais de doze mil amostras de vegetais coletadas entre 2013 e 2015, que, segundo o órgão são os mais representativos da dieta da população brasileira: abacaxi, abobrinha, alface, arroz, banana, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, goiaba, laranja, maçã, mamão, mandioca (farinha), manga, milho (fubá), morango, pepino, pimentão, repolho, tomate, trigo (farinha) e uva. As amostras monitoradas apresentaram até 232 agrotóxicos diferentes e cerca de 60% dessas amostras apresentaram resíduos de agrotóxicos. Das doze mil amostras, mais de duas mil ultrapassaram, ou ficaram  no Limite Máximo de Resíduos (LMR), estabelecido pela ANVISA. Outras duas mil amostras apresentaram resíduos de venenos não autorizadas pelo órgão.

Mas como os agrotóxicos afetam  os ecossistemas?

De acordo com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Abrasco, aproximadamente 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por algum tipo de agrotóxico, a exemplo de frutas, legumes, verduras, cereais integrais e oleaginosas. Os resíduos dessas substâncias também podem estar presentes em leite, ovos, carnes frescas e nos alimentos ultraprocessados como biscoitos, salgadinhos, pães, cereais matinais, lasanhas e pizzas, entre outros, que têm como ingredientes o trigo, o milho, a cana-de-açúcar e a soja, por exemplo.

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Em outubro de 2018, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) divulgou, em Brasília, que agrotóxicos e outras substâncias químicas utilizadas na agricultura matam 193 mil pessoas no mundo por ano. O encontro reuniu agências das Nações Unidas e também de instituições nacionais de regulação. Essas mortes são de pessoas que interagem diretamente com os produtos tóxicos, ao exemplo dos trabalhadores rurais, mas os consumidores também correm riscos.

Segundo o dossiê da Abrasco, após período prolongado de consumo dessas substâncias, as pessoas podem desenvolver reações que variam de vômitos, convulsões e dificuldades respiratórias até o desenvolvimento de doenças crônicas como Parkinson, fibrose pulmonar e alguns tipos de câncer.

Entre negócios e ecologia

Desde 2008 o Brasil assumiu o posto de país que mais consome defensivos químicos no mundo. De acordo com o estudo apresentando pelo engenheiro de alimentos e pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR),Victor Pelaez, no 2º Seminário Mercado de Agrotóxicos e Regulação, em Brasília (DF), em 2012, “em 2010, o mercado nacional movimentou cerca de U$ 7,3 bilhões e representou 19% do mercado global de agrotóxicos”. Em contrapartida, alternativas que aliam as preocupações ambientais, agrárias, econômicas e sociais, como o que inspirou a regulamentação dos agrotóxicos em 2002, têm sido cada vez mais encorajadas por órgãos internacionais e nacionais. Neste sentido, a agroecologia desponta como possibilidade de estilo de vida e política pública rentável.

Feiras agroecológicas são alternativas de consumo a produtos cultivados com defensivos agrícolas. | Foto: Laila Nery.

A agroecologia integra os recursos naturais e humanos através do desenvolvimento sustentável. Dessa forma, preza pelos saberes de comunidades tradicionais e dos povos do campo e da floresta, assim como a relação com movimentos sociais e a academia para criar estratégias que aliem saúde e justiça social. Uma das estratégias que articulam todos esses agentes são as feiras agroecológicas.

Visitamos uma delas em Salvador (BA): a Feira Agroecológica da UFBA, que funciona no campus de Ondina. Na banca de seu Godofredo, um dos produtores que integram a venda, encontramos mudas de plantas, vinhos, doces e bolos produzidos por ele, a irmã e a filha. Ele ainda nos ensina a usar o a folha do nim como um inseticida natural. “Você bate a folha do Nim num liquidificador, coa, bota no pulverizador e aplica nas plantas afetadas“, conta o agricultor.

Já Dona Terezinha nos conta que pimenta e urina de vaca também podem ser usadas para afastar animais indesejados. A agricultora aprendeu com os pais a cultivar plantas sem uso de agrotóxicos, assim como a cuidar de animais. Hoje, em seu terreno que fica em Mata de São João, a família toda trabalha e escoa a produção na feira da UFBA. “A gente planta variado. O aipim plantamos direto, mas o pepino, o maxixe e as hortaliças, por exemplo, dependem do período“.

Não estamos falando de uma agricultura de exploração da terra, dos animais, das plantas. Iniciativas como essa feira não se importam só com a venda, com o mercado. Estamos preocupados com a questão do agricultor, de como produzir, a relação com as famílias produtoras”, explica Arlene Andrade Guimarães, socióloga e uma das coordenadoras da Feira Agroecológica da UFBA.

O acesso à agroecologia

Não muito longe dali, está uma outra feira agroecológica, a do Boi Vivo, localizada no bairro Dois de Julho. Ela agrega e comercializa a produção de agricultores familiares da cidade de Amargosa. Segundo Lídio dos Santos Filho, um dos líderes da Associação dos Trabalhadores Rurais de Amargosa e organizador da Boi Vivo, os pequenos agricultores da região têm buscado dar uma conotação mais política para o alimento que é produzido. Para suprir esta necessidade, a associação tem realizado formações, debates e parcerias com técnicos agrícolas que fazem o controle do solo e dos alimentos que estão sendo produzidos. 

Cesta de compras da Feira Agroecológica Boi Vivo | Foto: Laila Nery

Além do impacto na produção, o debate político também é fundamental para o consumo de produtos orgânicos e agroecológicos. Jeferson Coutinho, 31, conhece a proposta da agroecologia. O que o motiva a consumir alimentos orgânicos e agroecológicos é a “ideologia de segurança alimentar, que perpassa por uma profunda reflexão de toda a cadeia produtiva de alimentos, com repercussões nas dimensões ambiental, social e econômica”.

Para quem não conhece a filosofia agroecológica, o consumo parece se resumir num estilo de vida luxuoso, sobretudo em centros urbanos. A estudante Andreza Santos, 22, relata que além de saúde, preço e desconhecimento são variáveis que informam a relação dela e de sua família com produtos agroecológicos. 

“Geralmente esses produtos são muito caros. Meu pai tem pouca consciência do significado deles. Como ele se responsabiliza pela dispensa, não posso dar muito pitaco. Eu como o que tiver e vier. Quando posso, compro um dos produtos agroecológicos”. Andreza Santos, 22 anos.

Outro desafio que os produtores enfrentam é também o de distribuição desses alimentos. Lídio Santos relata ainda que para o projeto existir a organização precisa ir de terreno em terreno e recolher os alimentos. Antes dessa ação, muitos produtores viam a colheita estragar por não ter local de escoamento. Fatores como esses fazem com que o valor desses produtos tenda a ser mais alto que os produzidos em larga escala e com defensivos agrícolas.  Por isso, iniciativas como as feiras citadas, organizadas por coletivos, associações e movimentos são fundamentais. Elas oferecem a possibilidade de escoamento das produções agroecológicas e cobram menos que lojas específicas desse seguimento. Para ajudar nesta empreitada, confira mapeamento das feiras de alimentos orgânicos e agroecológicos na capital baiana:

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