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O canto da sereia: o poder da sedução não vem apenas do mar

- 29/03/2017

O sereismo ganha cada vez mais visibilidade. Prática já tem espaço até no mercado de trabalho

Texto: Gess Alencar e Alessandra Oliveira | Fotos: Mallu Silva

Uma linda voz capaz de levar um homem à morte. Cauda de escamas, longos cabelos penteados frente a um espelho dourado, conchas para cobrir os seios. Os encantos das sereias não estão apenas no fundo do mar. É o que mostra o crescente número de profissionais no ramo.

Em 2015, segundo relatório da revista Fast Company, cerca de mil pessoas trabalharam em tempo integral como sereias e tritões nos Estados Unidos. No Brasil, mais mulheres também aderem à prática. Inspirada nesta onda, a próxima novela das nove da Globo, A Força do Querer, terá uma personagem sereia profissional, interpretada pela atriz Ísis Valverde.

A atividade é chamada de sereismo e vai além de vestir-se como Ariel ou Iara. Além de sentir-se conectada com os mistérios do oceano, as sereias profissionais fazem performances em eventos fora d´água, dentro e também no ar. Atuam como modelos e desenvolvem ações educativas.

“Precisa gostar muito da parte lúdica, ter esse encantamento de alma. Uma coisa é você ter esse interesse pelo assunto, gostar de colecionar, ter uma cauda como hobby. Outra é encarar como profissão, ter treino e organização financeira”, explica a dançarina Yunna-Warã Bamberg, que atua como a sereia Selene desde 2015.

A fantasia demanda investimento. A performer relata que seu gasto inicial com maquiagens à prova d’água foi de R$380. As caudas também não são baratas. No site brasileiro MS-Fins, feitas de tecido, para adulto, e assinadas pela sereia Mirella Ferraz, elas custam R$429. Já as de silicone são encontradas apenas no exterior a partir de US$ 2.000 (na conversão, R$ 6.234). Para Luana Doria, praticante do Sereismo em Morro de São Paulo, os custos valem a pena. “Na primeira vez que usei a cauda me senti parte da natureza, integrada com os peixes”, conta.

Somados à caracterização, há os treinos, que consistem em respiração, natação, hidroginástica, exercícios de solo e aéreos, assim como preparar os espetáculos e trabalhar a mente. Selene tem frouxidão ligamentar (uma condição genética rara que acomete cerca de 5% da população e gera inflamações nas articulações e uma mobilidade maior em executar movimentos). Ela conta que encontrou alívio para as dores na vida de sereia. “Sinto dor quase que 90% do tempo e aprendi a conviver com isso, pois não é uma doença e não tem cura. Para diminuir a dor e torções, teria de fazer exercícios na água todos os dias e dançar para o resto da vida”.

Já para Luana Doria, formada em Educação Física, a natação contribuiu para sua aproximação com o sereismo. “Sempre trabalhei a parte lúdica das sereias nas aulas de natação, até que surgiu a cauda. A mãe de uma aluna minha começou a vender e resolvi fazer uma aula experimental”, lembra.

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Apesar dos primeiros sinais desta corrente aparecerem já no início do século 20, não há informações sobre a origem formal do movimento. Annette Kellerman (1886-1975), atriz e nadadora australiana, é considerada pioneira no sereismo profissional. Em seu filme Venus of the South Seas (1924), Kellerman foi a primeira a mergulhar caracterizada, com cauda confeccionada por ela mesma. Aqui no Brasil, quem trouxe a profissão foi Mirella, em 2007, e ficou conhecida pela mídia como “Sereia Brasileira” com vídeos de performances com cauda postados no Youtube.

Segundo Robert Greene, em seu livro A Arte da Sedução, a figura erótica da sereia é a mais antiga representação da sedução. Mas, apesar do universo dos seres metade mulher, metade peixe ter uma forte relação com o poder de atração feminino, este aspecto tem pouco protagonismo no sereismo profissional. “A alma feminina, sedutora, também poderia ser levada para o lado doce, de ser uma coisa mais fluida e mais leve, pois está ligado a alma de sereia e conexão com a natureza, mais do que com a sedução”, opina Luana.

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