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O “segundo olho do repórter”

- 16/07/2013

Motoristas que trabalham em jornais são tema do livro “Repórter no Volante”, da jornalista e professora Sylvia Debossan Moretzsohn 

Camila Martinez, com colaboração de Alex Oliveira (foto)

Quem é que conduz equipes de reportagem aos locais de apuração das notícias de forma exímia, conhece a cidade como a palma da própria mão e ainda, não raro, possui forte tino jornalístico? O motorista de redação. Nem sempre valorizada, esta categoria profissional está agora em vias de extinção. Os jornais têm eliminado ou reduzido ao mínimo indispensável seu quadro de motoristas, seja por conta da crise generalizada nas empresas jornalísticas, seja pela progressiva queda da necessidade de deslocamento do repórter por conta das novas possibilidades de cobertura.

Em um trabalho que é ao mesmo tempo reportagem, pesquisa de memória oral e reflexão teórica, a jornalista, professora e pesquisadora Sylvia Debossan Moretzsohn traz à tona, de forma inédita nos meios acadêmicos, a discussão do papel do motorista de redação na apuração da notícia. Em 2013 ela lançou “Repórter no Volante”, obra publicada pela editora Três Estrelas, depois de ter ganhado o Prêmio Folha Memória de 2011 e mostra, a partir de entrevistas feitas a 51 profissionais da imprensa, que no passado não se fazia uma boa reportagem sem um bom motorista, figura já chamada de “o segundo olho do repórter”.

Ao longo dos anos 1980, Sylvia foi repórter das principais redações cariocas, como Jornal do Brasil e O Globo, e membro da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Há vinte anos ensina Jornalismo no curso de Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Em junho, a pesquisadora veio a Salvador para participar do 22º Compós – Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, na Faculdade de Comunicação da UFBA e conversou com o Impressão Digital 126 sobre o seu mais recente livro e também sobre os novos rumos do Jornalismo em tempos de revolução tecnológica.

Foto: Alex Oliveira

Impressão Digital 126 – “Repórter no Volante” traz à luz a importância do trabalho de uma categoria profissional que sempre ficou na sombra. Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o motorista de redação?

Sylvia Debossan Moretzsohn – De repente eu tive aquela ideia que, cá entre nós, qualquer pessoa que trabalhou em redação, pelo menos na época que eu trabalhei, deveria ter tido, mas não teve. Tanto que ninguém nunca fez uma pesquisa assim. Eu pensei: “Como é que se fala sobre produção e rotina jornalísticas e não fala da participação do motorista?”. Para ter uma boa reportagem, era preciso contar com bom motorista. A vivência na redação permite a clara percepção disso. Propus esta pesquisa para a Folha de S.Paulo, pois eles têm o projeto Folha Memória. O fato de eles terem selecionado a minha proposta de pesquisa para financiamento me estimulou, então eu comecei a desenvolvê-la. O enfoque era justamente este: Quem é esta pessoa que normalmente vem de uma situação social mais baixa, que incorpora o espírito do Jornalismo, e que às vezes é muito mais repórter do que próprio repórter?

ID 126 – De que forma o motorista como membro da equipe de reportagem ajuda na apuração?

SDM – É comum o motorista sair para tomar um cafezinho ou fumar um cigarro, então ele começa a puxar assunto e acaba encontrando naquele ambiente a personagem que todos estavam procurando, ideal para a pauta. Além disso, na cobertura de pautas relacionadas a crimes, as pessoas sempre procuram primeiro o motorista para fornecer alguma informação, depois o repórter. Tem uma hierarquia nesse processo. O motorista é alguém parecido com eles, tem pinta de povo, eles se sentem mais a vontade e pensam: “Não, o motorista não vai me prejudicar”. Então, ele faz essa ponte, que é fundamental. Às vezes, o enfoque da matéria se modifica a partir de coisas que o próprio motorista descobre.

ID 126 – Quais são as habilidades que o “segundo olho do repórter” deve ter?

SDM – O bom motorista de redação consegue levar os jornalistas parceiros ao local de apuração antes da concorrência ou mesmo da polícia. Para isso, ele deve conhecer atalhos e ser hábil, não só no volante. É uma habilidade específica, porque não é a mesma que a de um taxista ou de um motorista de ambulância. É uma pessoa que também está atenta ao horário de retornar à redação e também às circunstâncias. Por exemplo, na época que não havia internet nem câmeras digitais, na hora de uma repressão policial, o fotógrafo dava o filme para o motorista, que, ao ser perguntado pelo filme, finge que não sabia do que o policial estava falando.

ID 126 – Quais são os cuidados que este profissional deve ter para evitar uma maior exposição ao perigo numa investigação sobre crime?

SDM – Numa favela, o motorista atento sabe posicionar o carro de forma que a equipe possa abandonar o local com rapidez, caso aconteça algum tiroteio, por exemplo. Ouvi vários relatos de pessoas que dizem: “Eu devo a minha vida, literalmente, ao Fulano, pois ele ligou o carro e saímos na hora certa”.

Foto: Alex Oliveira

ID 126 – Levando em conta a sua trajetória acadêmica e profissional, pensar no motorista como parte da equipe de reportagem e valorizá-lo significa humanizar mais o Jornalismo?

SDM – Sim. É uma personagem que está invisível e ao mesmo tempo participa de todo o processo de produção. É ter noção de que o trabalho não é isolado, não é individual, aliás, nenhum trabalho é. Estas pessoas, a rigor, sempre estiveram à margem. Foram pouquíssimos momentos de reconhecimento. Por exemplo, Francisco Aleixo, ex-motorista do jornal Extra, do Rio de Janeiro, foi objeto do perfil “O melhor repórter da garagem”, no suplemento Planeta Globo, publicado em outubro de 2001. Na foto, ele aparecia vibrando, da janela do carro. Ele é um cara muito empolgado, mas se aposentou precocemente por problemas na coluna. São coisas pontuais.

ID 126 – O que mudou no modo de fazer jornalístico com o advento da internet?

SDM – A quantidade de saídas está cada vem menor, o que muda a ideia de que “lugar de repórter é na rua”. Sem a internet, havia, às vezes, a possibilidade de o repórter sair sem pauta definida para descobrir o que está acontecendo na cidade, o que poderia resultar numa matéria que fazia toda a diferença na edição do dia seguinte. Hoje, com a forte pressão das assessorias, que se organizaram de maneira muito sólida nos últimos 30 anos, dificilmente o repórter fica sem pauta. No meu tempo, não era assim, era até estranho ouvir uma sugestão. Penso que o ímpeto de buscar as coisas hoje está via internet. Na minha pesquisa, entrevistei o editor-executivo de O Globo, Orivaldo Perin, que é da velha guarda, que diz: “A internet é o motorista de hoje”. Quando não sai da redação, o repórter perde o contato pessoal e a percepção do ambiente. Descrever uma cena ou o comportamento das pessoas pode deixar o texto mais interessante.

ID 126 – A que a senhora atribui a falta de atenção das universidades para, minimamente, citar o motorista nos processos de apuração da notícia?

SDM – No âmbito acadêmico, se pensa: “O Jornalismo é feito por jornalistas. Então vamos estudar o jornalista. Quem é esta pessoa?”. Estuda-se a posição hierárquica que ele ocupa dentro da redação, conflitos com chefia, conflitos com poderes, pressão externa, relações com fontes, assessoria de imprensa, etc. Porém, há um aspecto fundamental a ser considerado, inclusive do ponto de vista da história do Jornalismo: houve um tempo em que a apuração e as rotinas eram diferentes, e isso merece ser estudado, então a minha pesquisa contribui com esse aspecto também. Mesmo que o Jornalismo se torne um contato basicamente virtual, no passado, a figura do motorista de redação era fundamental para que as coisas se desenvolvessem. Por outro lado, parece que as mudanças não são tão definitivas assim: o Extra montou uma redação transparente lá no centro do Rio de Janeiro, na Praça XV. Assim eles dizem para todos: “O Extra está na rua. O repórter está aqui”. Eu acho curiosa essa iniciativa.

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