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Porto da Barra tem moradores ‘invisíveis’ há mais de 60 anos

- 05/02/2014

Três famílias vivem há mais de 60 anos na região de marinha que fica entre a praia do Porto da Barra e o Yacht Clube da Bahia. Tombamento do forte de São Diogo, em 2002, “livrou” comunidade de ameaças de desocupação da área 

Texto: Henrique Duarte, Renata Pizane e Virginia Vieira
Fotos: Natália Reis
Video: Henrique Duarte 

Quem passa pela Rua do Forte de São Diogo, que liga o Porto da Barra ao Yatch Clube da Bahia, dificilmente percebe três casas simples construídas sobre as pedras, na parte de baixo do morro de Santo Antônio.  Ali, há 61 anos, a família de Dona Angélica Souza, 92, aposentada, vive em uma das residências construídas na beira do mar, com vista para a Baía de Todos os Santos.

Dona Angélica na porta de sua casa, no Porto da Barra / Foto: Natália Reis

A família de Dona Angélica aportou neste local quando o marido, que era pedreiro e pescador nas horas vagas, avistou a área a partir do morro de Santo Antônio – onde o forte foi construído em 1629 – e decidiu, junto com outro vizinho, construir as casas. “Meu marido e seu Macário (vizinho) – ambos já falecidos – que chegaram aqui primeiro. Como a gente não tinha lugar pra ir, resolveu ficar aqui mesmo”, lembra a matriarca.

[Assista ao vídeo:]

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A família antes morava na região conhecida como Roça da Julinha, onde hoje fica o Chame-Chame e o Shopping Barra, mas, por conta da especulação imobiliária, tiveram que deixar o local, vendido para a construção de edifícios. “Eles gostaram do lugar”, afirma Sueli Lima, 52, filha do casal. Por falta de opção e com uma família grande, restou enfrentar o mato do local e erguer a casa que ainda hoje abriga Dona Angélica, a filha Sueli e dois netos.

O muro improvisado, feito a partir das rochas naturais, é o limite entre o pequeno quintal e o mar. A casa simples, de chão batido e parede rústica, contrasta com a modernidade da tevê LCD e se destaca em meio aos móveis antigos que compõem o ambiente de quatro vãos, que não pode sofrer qualquer tipo de modificação externa por uma determinação do Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural da Bahia (IPAC).

 

Isso porque, em 2002, o forte São Diogo foi tombado, e o seu entorno, um raio de 200 metros que abarca as residências, está protegido e não pode sofrer nenhuma descaracterização. A ação foi  feita pelo governo estadual através do IPAC, mas, segundo Sueli, os moradores das três casas nunca receberam nenhum comunicado ou orientação do órgão. “O vizinho tentou construir no local, e eles vieram e derrubaram”, conta. Consultado sobre o assunto, o Gerente de Patrimônio Material do IPAC, Luiz Augusto Viva, disse que “as informações que dispomos não mencionam comunidades específicas ao redor da construção”.

O tombamento, porém, terminou, de certo modo, por restaurar a tranquilidade das famílias. Mesmo sem possuir título de propriedade dos terrenos, que fazem parte da chamada “área de Marinha” e são bens da União, os moradores deixaram, desde então, de receber os assédios frequentes feitos pelo Yacht, que queria a “área limpa”. “Eles mandavam a gente se retirar. Nós sempre resistimos. Na verdade, não tínhamos pra onde ir”, diz Sueli.

O Superintendente do Yacht, Antonio Fernandes Neto, afirma que o clube não tem com os moradores “nenhum relacionamento que possa ser considerado ruim” e que “os órgãos públicos deveriam ajudar no sentido de montar ali uma verdadeira colônia de pescadores, a exemplo de outras existentes na cidade, e assim preservar este belo local e ao mesmo tempo proteger os pescadores”. Segundo ele, por inúmeras vezes, o Yacht prestou serviços de combate a incêndio no mato da região e auxiliou pessoas e embarcações quando das ressacas que acontecem todos os anos.

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Falta d’água – Mesmo estabelecidas há tanto tempo, as famílias ainda vivem, em certa medida, “esquecidas” pelo poder público. A falta de abastecimento d’água ainda é um dos principais problemas. A família conta que, por diversas vezes, os moradores procuraram a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), que eles até enviaram técnicos na área, porém nada aconteceu. Segundo Sueli, a justificativa da Embasa para o não oferecimento do serviço é o fato de que ali existem poucas casas, o que encarece a interligação às redes de água e esgoto.

A Embasa, por sua vez, afirma que a área é atendida pela empresa, e que os moradores deveriam “solicitar um estudo de viabilidade técnica, para que seja verificada a possibilidade de instalação de rede distribuidora de água e rede coletora de esgoto no local”. Sueli sonha com o dia em que poderá abrir a torneira e ver água jorrando. “Tenho esperança de vê água aqui, assim como Deus existe. Enquanto isso, a gente se vira como pode.”

Para suprir a necessidade de abastecimento, as famílias coletam água da chuva ou pegam água na fonte construída pelos próprios moradores entre as pedras, ou então no Yatch Clube, quando eles cedem. Mas, mesmo assim, eles dizem ter um gasto enorme com a compra de água mineral.

Para minimizar os transtornos da falta de saneamento, a solução encontrada pelos moradores foi a instalação de uma tubulação que despeja o esgoto in natura no mar. “A gente pega água salgada na poça e joga no vaso sanitário [para dar descarga]”, conta Sueli. Energia elétrica também foi outra dificuldade: no início, era preciso usar candeeiro para iluminar a casa, e as roupas eram passadas com ferro esquentado no fogo. “A luz a gente veio conseguir depois de muitos e muitos anos.”

Sobre a presença de banhistas e pescadores de fora, elas contam que a convivência é bastante tranquila. “A gente nunca teve problema com eles. Tem muitos que pescam aqui do lado e a gente até já conhece”, conta Sueli. A única queixa de Dona Angelica é em relação ao uso de drogas no local. “As vezes eu tenho que pedir pra eles irem mais pra longe”, conta a matriarca. A simpatia desta senhora sempre funciona como instrumento de persuasão e eles acabam obedecendo ao pedido. Mesmo em meio a tantas dificuldades, Dona Angélica não deixa escapar do rosto um sorriso sereno e acolhedor.

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