Pulando a fogueira da pandemia: no segundo ano sem São João, artistas e cidades precisam se conformar com o remoto

Bianca Carneiro, Daniel Aloisio e Marcos Felipe - 01/06/2021

Com o cancelamento da festa na Bahia, mais de R$ 500 milhões deixam de circular

 

São João e aglomeração têm tudo a ver. Mas, pelo segundo ano consecutivo, a pandemia de covid-19 jogou água na fogueira do povo nordestino, e a maior festa regional do país não poderá acontecer em seus moldes tradicionais. Na Bahia, está proibida a realização de festas em todas as cidades, e os ônibus de transporte intermunicipal terão circulação suspensa três dias antes e três depois das festas juninas. Entre os maiores prejudicados, estão os municípios interioranos e, quiçá, mais tradicionais quando o assunto é São João: Amargosa, Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus.

Só nessas três cidades, ao todo, cerca de R$ 60 milhões deixam de circular com a ausência da festa junina. Isso representa prejuízos para a economia local e, principalmente, para o setor cultural, que se vê impedido de trabalhar efetivamente desde o início da crise sanitária.

 

O publicitário Gabriel Carvalho, 40 anos, está sofrendo com a falta do São João. Desde os 17, ele viaja para o interior nesse período, alternando entre Santo Antônio de Jesus, Amargosa, Senhor do Bonfim e Cruz das Almas. Ele é tão apaixonado pela festa junina que criou um site só para falar sobre o assunto, o São João na Bahia.  

“O São João tem uma importância muito grande a partir do momento em que ele movimenta toda uma cadeia produtiva de mais de 50 setores. Vai desde o produtor de eventos, passando pelos artistas, montador de estrutura até a agricultura familiar”, explica Gabriel.

Segundo um estudo do Observatório da Economia Criativa, a cada R$ 1 milhão investido numa festa de São João, cerca de R$ 9 milhões retornam para a cidade.

Gabriel Carvalho, publicitário e criador do site São João na Bahia

A Bahia perde muito, pois as cidades se preparam, a produção musical é maior nesse período, o comércio e a indústria produzem roupas novas e faturam mais. Tanto é que o São João está entre as três maiores datas para o comércio baiano. E, sem a festa, toda essa produção fica estagnada. O São João tem a capacidade de gerar empregos temporários, uma renda extra para muita gente. É um ‘13º mês’ de faturamento.

Assim como no ano passado, Gabriel não vai viajar para o interior em 2021, por causa da pandemia. “O arrasta-pé vai ser aqui em casa mesmo, cumprindo o isolamento social e com comidas típicas”, disse. Segundo dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), em 2019, as 60 maiores festas privadas do estado reuniram 500 mil pessoas, e mais de R$ 550 milhões foram movimentados. Ainda de acordo com o órgão, foram gerados entre 40 e 50 mil novos postos de trabalho. Já a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia (Fecomércio-BA) estima uma queda de 25% a 30% do faturamento em 2021 em relação ao último São João com festejos.

Gabriel comenta a importância dos festejos juninos para as cidades baianas além do entretenimento


Santo Antônio de Jesus vai adaptar o São João à realidade atual

Diante desse cenário, a Prefeitura de Santo Antônio de Jesus, a 182 km de Salvador, no recôncavo baiano, definiu que, neste ano, não haverá São João nos moldes com que a população está acostumada. Em compensação, a Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Juventude (SCTJ) planeja ações para manter vivas as referências culturais dos festejos juninos.

O prefeito Genival Deolino (PSDB) e a titular da SCTJ, Silvia Brito, alinharam ações a fim de promover um clima junino dentro do permitido pelos protocolos sanitários de combate ao novo coronavírus.

Com a chegada do mês de maio, a prefeitura, por meio da SCTJ,  iniciou uma série de lives. Com transmissão pelo canal institucional no YouTube e pelos perfis no Facebook e no Instagram, nos dias 1º, 15, 22 e 29, teve espaço para diversos tipos de artistas e públicos: desde a Jovem Guarda até o forró, não faltaram motivos para arrastar o sofá de casa – e, é claro, o pé.

No total, 100 músicos foram contemplados com um auxílio de 600 reais oriundo de recursos próprios do município. Houve, ainda, decoração simbólica em pontos centrais da cidade. Essa foi uma maneira de oferecer aporte financeiro ao setor cultural e, ao mesmo tempo, levar entretenimento aos cidadãos em isolamento social.

Além disso, haverá mais uma edição do ‘Festival da Música Junina’, concurso que, desde 2016, escolhe a melhor canção junina, cujo tema deste ano é ‘Plantando esperança para colher alegria em SAJ, o Melhor São João da Bahia’. Em outra live – desta vez, no dia 7 de junho, uma música composta por artista local será premiada.

De 12 a 24 de junho, é a vez de o ‘Trem do Forró’ levar esperança aos santoantonienses ao passar pelo centro e por alguns bairros da cidade, com apresentações de diversos músicos locais. Essa iniciativa promete aquecer os corações dos amantes de forró, que, novamente, não poderão se aglomerar e dançar agarradinhos, mas terão a oportunidade de ver as apresentações de perto.

Segundo Deolino, a festa não pode ser realizada do jeito tradicional, mas, de alguma forma, deve ser celebrada, ratificando a importância do evento para a cidade-polo do Recôncavo.

Genival Deolino, prefeito de Santo Antônio de Jesus

O São João movimenta o comércio local, o turismo e gera renda para nosso povo, além de reafirmar nossa identidade cultural. Com o cenário de covid, não temos como realizar o ‘Melhor São João da Bahia’ presencialmente, mas vamos promover o clima junino em nossa cidade e resgatar a importância dos festejos para a população.

Com a não realização dos festejos juninos de modo presencial, Santo Antônio de Jesus deixa de ser o destino de milhares de turistas e de movimentar a economia criativa – sobretudo, o setor de hotelaria, bares e restaurantes e comércio –, além da geração de renda informal aos santoantonienses.

Conforme dados da ação comercial local, durante o mês de junho, costumam circular, na cidade, quase R$ 10 milhões. Enquanto o cenário não permitir, eventos de grande porte seguem impossibilitados de acontecer em todo o estado.

Só a pandemia foi capaz de parar o São João de Cruz das Almas

Mesmo antes da emancipação da cidade, em 1896, o São João de Cruz das Almas já acontecia. O local, que também fica no recôncavo baiano, a cerca de 150 km da capital, era apenas um distrito do município de São Félix na época. As festas juninas eram realizadas nas famílias e entre a comunidade – inclusive, com a tradicional guerra de espadas. Só a pandemia da covid-19 para interromper tamanha tradição.

“Estima-se que o São João movimente cerca de R$ 30 milhões na economia local, incluindo os comércios tradicionais e ambulantes. Com o grande número de turistas na cidade, há um aquecimento das compras no período junino”, explica o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico da cidade, Euricles Neto.

O ‘arraiá’ de Cruz das Almas atrai milhares de turistas para a cidade e valoriza a cultura local. Em condições normais, a festa, que é gratuita, acontece durante quatro dias do mês de junho. Trata-se de um grande festival de música popular, com destaque para bandas de forró e outros ritmos nordestinos.

Este ano, para não causar um sentimento de normalidade na população, a prefeitura optou por não decorar a cidade. Mesmo assim, a gestão municipal promete desenvolver um projeto para manter viva a tradição nesse contexto.

Euricles Neto, secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico de Cruz das Almas

A ideia é incentivar as pessoas a comemorar a tradicional data de forma segura, resgatando o costume de passar o período dentro de casa com suas famílias e seguindo as orientações das autoridades sanitárias. Vamos intensificar a campanha de conscientização sobre a importância das medidas de proteção contra a covid-19, como o uso de máscaras e a necessidade de não promover aglomerações nem receber visitas de pessoas de outras cidades.

Somado a isso, para aquecer a economia e preservar a geração de emprego e renda no período junino, a prefeitura pretende divulgar serviços e produtos dos pequenos comércios, de microempreendedores e de agricultores familiares que desejarem ser anunciados. O objetivo é dar visibilidade aos meios de comunicação para fomentar um consumo interno dos produtos e serviços.

Primeiro São João após a pandemia terá ‘gosto de saudade e reencontro’, diz prefeito de Amargosa

Além de Santo Antônio de Jesus e Cruz das Almas, outra cidade baiana que tem o São João como carro-chefe é Amargosa, que fica a cerca de 240 km de Salvador. Segundo o prefeito do município, Júlio Pinheiro (PT), a preparação para o evento, que costuma movimentar em torno de R$ 20 milhões, começa já em janeiro, com a execução das licitações voltadas à contratação de artistas, estruturas e de publicidade.

“São João de Amargosa é uma das principais festas do país. Milhares de pessoas se hospedam aqui. Ficamos com a população praticamente duplicada, chegando a 30, 40 mil pessoas. Esse público ainda é ampliado, por conta das pessoas de cidades circunvizinhas que vêm apenas à noite para conferir as principais atrações. A gente acredita que o público é, mais ou menos, esse: de 40 ou 50 mil pessoas”, explica o gestor.

No entanto, assim como em 2020, os planos para 2021 são outros, já que a pandemia avança em sua segunda onda. Na praça que costuma receber os shows responsáveis por lotar a cidade, o palco deu espaço a um drive-thru de vacinação contra a covid-19.

Para tentar remediar, pelo menos, o prejuízo financeiro, a Prefeitura de Amargosa disse que tem investido em auxílios emergenciais para as famílias mais carentes e aos artistas e outros agentes culturais, que seguem impedidos de trabalhar.

“Um apoio mais robusto para compensar as perdas do São João, infelizmente, um município do porte de Amargosa não tem como oferecer. A gente realmente acha que é algo necessário, mas o orçamento não permite”, diz o prefeito. Até o momento, a gestão não informou se irá decorar a cidade ou realizar alguma atividade ou show remotos em alusão à festa.

Em frente à antiga estação de trem de Amargosa, o palco para shows do São João, este ano, deu lugar a um ponto de vacinação contra a covid-19 (Foto: Divulgação/Prefeitura de Amargosa)

Júlio Pinheiro, prefeito de Amargosa

Dá um aperto no coração de todos nós que gostamos de São João. Particularmente, é a festa que eu mais gosto de realizar e participar, e tenho certeza de que é a preferência da população baiana e do Nordeste inteiro. Deixo um recado para que sigamos firmes, tomando todos os cuidados, para terminar este ano livre da pandemia e, em 2022, voltar à normalidade. Amargosa vai realizar o maior e melhor São João de todos os tempos, aquele com um gosto de saudade e reencontro.

Sem se cansar de viver ou de cantar

A composição de Fernando Brant e Milton Nascimento diz que ‘todo artista tem de ir aonde o povo está’. E assim tem sido: com a impossibilidade de realizar shows mediante a presença de público, artistas de todo o país têm recorrido às transmissões ao vivo.

O cantor e compositor sertanejo Nilton Giffoni, 23, por exemplo, tem participado de lives promovidas pela prefeitura de Santo Antônio de Jesus que têm como objetivo garantir renda aos artistas locais – no sentido mais amplo da palavra ‘artista’, abarcando também atores e atrizes nesses eventos.

“Graças a Deus e à atual gestão municipal, nós, músicos, temos tido a oportunidade de exercer nosso ofício e receber remuneração em troca disso”, afirma.

Apesar de ressaltar como as apresentações remotas têm mitigado a situação, ele faz questão de lembrar que elas, nem sempre, são suficientes. É que, diferentemente de Nilton, que também é consultor óptico, muitos artistas têm – ou, pelo menos, tinham – no trabalho artístico sua principal fonte de renda.

“Quem vive só de música está passando por uma dificuldade muito grande. Tem gente passando fome aqui, na cidade. Para mim, a música é uma renda extra. Eu trabalho como consultor durante o dia e canto à noite.”

O jovem santoantoniense ainda diz acreditar que as lives vieram para ficar. “Creio que o cenário não voltará ao normal em 2022 e os shows continuem acontecendo nesse formato. Mesmo assim, eu prefiro ter esperança de que estaremos todos vacinados. Até lá, a gente vai se virando como pode”, finaliza.

Um dos 100 músicos contemplados com o auxílio da Prefeitura de Santo Antônio de Jesus, Nilton ensaia para a última de uma série de quatro lives promovidas pela gestão municipal em maio de 2021


Já Fabrício Salomão é percussionista de Cruz das Almas e músico da banda Acarajé Com Camarão, que sempre tocava no ‘arraiá’ da cidade. “Hoje, para sobreviver, estamos recorrendo às lives. Já fiz nove transmissões ao vivo desde então. Também tem o auxílio emergencial que consegui, felizmente”, disse o rapaz, que não faz mais shows para público presencialmente desde março de 2020.

Durante as lives, a banda consegue o patrocínio de alguns empresários, o que também tem lhe ajudado a sobreviver.

Fabrício Salomão, percussionista de Cruz das Almas

Eu me inscrevi na Lei Aldir Blanc e tive um projeto selecionado, o que está sendo uma experiência muito boa. Mas conheço colegas que não tiveram esse benefício. Acho injusto.


Em terras amargosenses, o cantor Anderson Ribeiro, 26, sob o nome artístico de Júnior Bastos, tem recorrido às transmissões pelas redes sociais para matar a saudade das apresentações ao vivo, entre as quais o tradicional São João do município.

“Canto há aproximadamente sete anos. Neste tempo, já participei de diversas festas de São João não só em Amargosa, mas também em outras cidades, como Milagres, Itatim e Maracás, entre outras. Essa era uma época em que a agenda de shows costumava ficar cheia”, conta.

Além da falta do público presente, outra consequência do cancelamento das festas juninas enfrentada por Júnior e demais artistas é o prejuízo financeiro. Segundo o músico, o faturamento no período chegava à faixa de R$ 100 mil. Nestes dois anos sem as celebrações, ele diz que, volta e meia, surgem alguns editais voltados a assistir a área cultural, mas que, ainda assim, a situação é difícil.

“Acredito que não só eu, mas toda área do entretenimento musical está passando momentos muito difíceis com a chegada dessa pandemia. É muito triste saber que não iremos ter o São João de Amargosa, um dos maiores da Bahia e que movimenta toda a cidade”, lamenta.


Para reduzir os impactos do cancelamento do São João nas praças e ruas, a União dos Municípios da Bahia (UPB) enviou um ofício à Superintendência de Fomento ao Turismo do Estado da Bahia (Bahiatursa) pedindo que a instituição estude a possibilidade de liberação de recursos para a realização de lives juninas em 2021, com um formato mais simplificado, menos burocrático e com maior abrangência de cidades baianas.

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