Queda na vacinação infantil e os riscos para a saúde pública

Gilberto Amorim e Leilane Suzarte - 14/12/2022

Diversos fatores estão associados a queda nos número de vacinação em crianças, e vão desde a falta de investimento em campanhas centralizadas entre o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais, até o negacionismo e as fake news 

A cobertura vacinal no Brasil vem diminuindo nos últimos anos, deixando especialmente a população infantil mais exposta a doenças que já estavam erradicadas no país, como sarampo e poliomielite. A pandemia de Covid-19 agravou ainda mais a queda nas taxas de imunização.

De acordo com dados divulgados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), o índice de vacinação infantil despencou de 93,1% para 71,49%. Esse valor coloca o Brasil entre os dez países com menor cobertura vacinal do mundo. Embora o Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Sistema Único de Saúde (SUS) seja reconhecido nacional e internacionalmente como uma das mais importantes intervenções em saúde pública.

Para a professora titular e pesquisadora na área de Epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Maria da Glória Teixeira, “o sucesso do Programa faz com que as pessoas não tenham a percepção de risco, de que possa vir a ter essas doenças, porque elas não veem no seu cotidiano”. 

Maria da Glória Teixeira é pesquisadora do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFBA. Foto: UFSJ/Divulgação

Na última campanha vacinal deste ano, a meta do Ministério da Saúde foi atingir 95% das crianças de 1 a 4 anos. Até o momento, menos de 70% desse público foi vacinado. Segundo a especialista, um dos motivos para essa baixa procura pela vacinação é a dificuldade dos pais ou responsáveis de levar as crianças para os postos de vacina. “A mãe ou o responsável precisa ir 16 ou 17 vezes no serviço de saúde durante o primeiro ano de vida da criança. Isso significa perder trabalho ou deixar os outros filhos em casa, já que os postos de saúde só atendem em horário comercial”, esclarece Teixeira.

Ramon Saavedra, técnico da Coordenação de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado, concorda. Ele diz que é necessário que o Programa Nacional de Imunização no nível municipal, estadual e federal pense em estratégias para alcançar a população não vacinada de uma forma mais efetiva. “Não dá mais para ficar naquela postura passiva da equipe de saúde junto com as vacinas na geladeira, no posto de saúde, esperando as pessoas virem tomar a vacina. É preciso ter metodologias para ir buscar os não vacinados, como fazer ações na comunidade, vacinação casa a casa, dia D de vacinação e criar um terceiro turno para tomar as vacinas nos serviços de saúde”, frisa o profissional.
Para se ter uma ideia, as taxas de cobertura para as vacinas infantis, em 2022, na Bahia, estão abaixo de 50%, de acordo com dados divulgados pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab).

Nesse sentido, o técnico comenta que as pessoas precisam entender que o benefício das vacinas é muito maior do que os riscos.  “Por isso, a gente precisa trabalhar para fazer uma comunicação clara, transparente e direta que dialogue e consiga chegar na percepção de risco da população em geral”, afirma Saavedra.

A médica infectologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fernanda Grassi, observa que “o Programa Nacional de Imunização do Brasil vem sendo desarticulado, vem diminuindo o investimento há alguns anos, sobretudo depois de 2016, quando começou a haver certo desmonte desse programa nacional, com a saída de vários técnicos que tinham um papel importante nessa logística”.

“O atual governo não priorizava isso, inclusive não fez várias campanhas necessárias para vacinação, e mais a questão do negacionismo fez com que a situação se agravasse ainda mais, e que as coberturas vacinais caíssem para níveis não vistos há muitos anos, com o retorno de casos de doenças que estavam quase erradicadas no nosso país, como o sarampo”, acrescenta.

Fernanda Grassi é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz. Foto: Reprodução/Site da Fiocruz

Grassi ainda destaca o Brasil como referência mundial na vacinação e o problema enfrentado por conta da falta de investimentos em ações que mobilizem a população. “A vacinação tem sucesso inegável, e os efeitos colaterais que de fato acontecem com as vacinas, são conhecidos e muito pouco graves. Se você para de fazer isso (vacinar), e ao mesmo tempo cria notícias (falsas) em um momento de pandemia, deixa a sociedade fragilizada, as pessoas ficam com medo de adoecerem e morrerem. Vivemos isso em 2020 e 2021, havia momentos que quatro mil pessoas morriam a cada dia, então era uma situação muito dramática”, lembra a infectologista. 

Já a enfermeira Adriana Alves, 32, que possui uma filha com quase 2 anos de idade, enxerga na vacinação a saída para evitar que doenças erradicadas reapareçam no país. “As vacinas são essenciais para a proteção do nosso organismo contra doenças que podem levar ao óbito. O Brasil já conseguiu praticamente erradicar a poliomielite e diminuir drasticamente os casos e mortes relacionados ao sarampo, rubéola, tétano, difteria e a coqueluche”, argumentou.

Mãe do pequeno Zayon, de 11 meses, e de Isaraele, de 11 anos, a pedagoga Derlaine Souza, 35, confia no Sistema Único de Saúde (SUS) para manter a vacinação dos filhos em dia. “Fui vacinada e vacino meus filhos contra todas as doenças possíveis. Pelo menos com as vacinas que estão disponíveis no SUS. Fico muito triste com a baixa adesão à vacina contra a poliomielite, pois já trabalhei com crianças com paralisia e sei o quanto é difícil, para toda família, conviver com uma doença como essa”, disse. Derlaine acredita que é essencial confiar na ciência e que o combate ao negacionismo precisa ser intensificado. “É por causa dele que não conseguimos erradicar várias doenças. Mas não só o negacionismo. Muitas pessoas até acreditam que vacinas podem nos livrar de doenças, mas não dão a devida importância para cumprir o calendário de vacinação. Inclusive, gostaria muito que tivéssemos acesso a todas as vacinas através do SUS. Perdi um primo de 7 anos, que aparentemente teve meningite. Não sei se ele era vacinado ou não, mas ele morava no interior e sei que lá as pessoas não costumam ter muito incentivo nem acesso aos programas de saúde da família”, contou.

Mãe de Zayon, de 11 meses, Derlaine Souza mantém a caderneta vacinal do filho em dia. Foto: Arquivo pessoal.

Baixa cobertura da vacina de Covid-19 em crianças

Apesar da vacina contra a Covid-19 estar disponível para o público infantil, os números ainda não são os esperados pelos órgãos responsáveis. Segundo dados divulgados pela Sesab, a estimativa era vacinar, na Bahia, 410.459 crianças, na faixa etária de 3 e 4 anos, porém, apenas 11.361 doses foram aplicadas até o mês de agosto deste ano. Isso significa que apenas 15,3% das crianças de 3 e 4 anos tomaram a primeira dose (D1). A segunda dose (D2) alcançou somente 5,4% do público. A Sesab ainda não tem dados sobre a aplicação da vacina em pessoas menores de 3 anos. Entre o público de 5 a 11 anos, 68,29% tomaram a D1 e 41,86% receberam a D2.

Fonte: Sesab

Daniela Passos, 42, que trabalha com higienização hospitalar, diz estar em dia com as vacinas da Covid e os seus quatro filhos também. Ela lembra com orgulho dos cuidados e incentivos de sua mãe, que sempre a levou, junto com os seus irmãos, aos postos de saúde para manter as vacinas em dia. Daniela defende a aplicação dos imunizantes e não acredita que as vacinas possuam o intuito de prejudicar a população. “Mas, conheço mães que não levaram seus filhos para tomarem a vacina porque têm medo e falam que a vacina piora. Sei de pessoas que passam mal e jogam a culpa na vacina sem nenhuma prova. Se vier a quinta dose, eu vou tomar e a gente vai seguir tomando a vacina porque sem ela ficamos vulneráveis ao vírus, que vem sofrendo mutações a todo o momento. Quem toma a vacina não fica descoberto ao vírus”. 

Daniela Passos conta a sua experiência com a vacinação

A pesquisadora da Fiocruz, Fernanda Grassi, vê a comunicação assertiva como uma das principais soluções para enfrentar as notícias falsas propagadas na pandemia. “Uma das coisas mais importantes para controlar uma pandemia é a comunicação. É fundamental uma comunicação clara, e a comunicação que tinha que ser feita para o controle da pandemia, não ocorreu aqui no Brasil”.

A médica também acredita que as fake news prejudicam o enfrentamento de crises sanitárias graves, como a provocada pela Covid-19. “Essas notícias falsas tinham uma propagação muito grande por vias que a gente que faz ciência não conseguia atingir, então não conseguimos atingir essas populações que se informam através de canais desconhecidos. Uma série de coisas absurdas foram propagadas por falta de uma comunicação central. Pagamos com vidas, que não seriam perdidas se houvesse uma comunicação correta”, disse. 

Para combater a disseminação de fake news sobre a vacinação no Brasil, Ramon Saavedra, da Sesab, explica quais são as estratégias da secretaria para aumentar a cobertura vacinal. “Nós temos trabalhado junto com a Comissão Intergestores Bipartite da Bahia — CIB-BA. Essa comissão deliberativa é composta por todos os secretários de saúde dos municípios baianos, no qual pactuamos decisões a serem tomadas em nível estadual e realizamos capacitações das equipes, peças publicitárias para fazer um chamamento para atualizar o caderno de vacinação, e fazemos um diálogo permanente com os municípios que são os executores da ação de vacinação”.

Estudiosos defendem a todo o momento a importância de políticas públicas embasadas em conhecimentos epidemiológicos e a necessidade do envolvimento de profissionais da área nas decisões voltadas para o enfrentamento da crise sanitária da Covid-19. “Durante a pandemia, houve uma valorização do trabalho científico, especialmente das pesquisas epidemiológicas, mostrando os dados, revelando o quanto as vacinas protegem, e explicando como se proteger com a máscara e por meio de distanciamento social. Além disso, tivemos um grande enaltecimento do SUS, por a instituição cuidar das pessoas enquanto elas adoecem”, destaca Maria da Glória Teixeira,professora e pesquisadora do ISC.

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