Racismo religioso: Salvador ainda é um ambiente inseguro para os praticantes de religiões afro

Josivan Vieira e Gabriele Santana - 01/12/2021

Dentro de casa ou no trabalho, praticantes de religiões de matrizes africanas relatam dificuldades na tentativa de exercer seu direito ao culto religioso.

Expressões depreciativas, ataques a terreiros, xingamentos e até agressões. É assim que o racismo religioso se traveste de “opinião” em diversas partes do Brasil – incluindo Salvador, – uma das cidades mais pretas fora do continente africano. O termo racismo religioso é aplicado para toda e qualquer discriminação sofrida por praticantes de religiões de matrizes africanas. Isso porque, um dos principais implicadores dessa intolerância é o recorte de raça, – religião criada por pretos, – praticada em sua grande maioria por pretos. 

Diante das piadas e ofensas sofridas no cotidiano de quem precisa se vestir de branco e usar guias[1] Guias são objetos sagrados, que constituem um elo de ligação entre o filho de fé e os Orixás. Por isso, devem ser tratadas como tal, com respeito e devoção. no pescoço, o racismo religioso praticado fora do âmbito familiar é até visto como comum por alguns, mas quando o assunto é dentro de casa ou no ambiente de trabalho – lugares vistos como espaços de acolhimento, – a situação se aproxima do inimaginável. Isso costuma se agravar, quando a pessoa passa pelo processo de iniciação[2]O ritual de iniciação no Candomblé, a feitura no santo, representa um renascimento, tudo será novo na vida do yàwó, ele receberá inclusive um nome pelo qual passará a ser chamado dentro da … Continue reading no candomblé.

Foto: Josivan Vieira

Para Tiago Moraes e Rui Leandro – ambos iniciados no candomblé -, os casos de racismo religioso vieram de onde eles menos esperavam. Um foi expulso de casa após se iniciar, já o outro precisou se “adequar” às regras do colégio de freira onde era professor, para conseguir se manter no trabalho – só que, mesmo assim, a demissão foi aplicada. Casos como o de Tiago e Rui escancaram um passado de mais de 300 anos de escravidão no Brasil. 

Tiago, 28 anos, morador do Engenho Velho da Federação, adepto do candomblé desde a adolescência, resolveu se iniciar em 2019 – auge dos seus 26 anos. Jovem e disposto a enfrentar todas as normas estabelecidas pelo seu terreiro, Moraes teve no final da sua caminhada pelo recolhimento um forte empecilho. Morando com a avó, e precisando retornar a sua residência após um tempo afastado, viu o seu retorno ser impedido pelo seu pai, que não permitiu que uma limpeza energética fosse realizada no recinto. 

Após o recolhimento, limpezas espirituais precisam ser realizadas nos ambientes que irão receber a pessoa iniciada, e neste caso, o ambiente que precisava ser “limpo” era a casa onde Tiago residia com a avó. Seu pai, que não residia na mesma localidade, proibiu isso de acontecer, mesmo entendendo que caso a limpeza não fosse realizada, Moraes não poderia voltar para casa. Mesmo com toda insistência e explicações, seu pai foi irredutível, ao ponto de não permitir que o filho retornasse para o lar onde morava, ficando assim longe de casa e da família. 

Já Rui Leandro – que tem 39 anos, dos quais dezenove são dedicados ao candomblé – hoje babalorixá, viu o seu emprego como professor se esvair pelas mãos quando precisou usar branco às sextas-feiras. Docente em uma escola de cunho evangélico do bairro de Plataforma – Subúrbio de Salvador, Leandro  foi visto como uma ameaça por pais e pela coordenação da instituição que o obrigou a deixar seu cargo caso persistisse no uso das vestes brancas

Mesmo que a escola não esteja em funcionamento nos dias atuais e ainda que já passados mais 10 anos do ocorrido, o episódio de racismo ainda permanece presente nos pensamentos de Rui, as dolorosas marcas do que aconteceu ainda o acompanham até hoje. “Aquilo ali doeu muito. Eu me impus, mas por conta disso eu fui desligado do quadro de professores da escola”, afirmou Leandro. 

As marcas do racismo

As histórias de Tiago e Rui impressionam, tanto pelo formato em que ocorreram, como pelas consequências geradas em suas vidas até os dias de hoje. Para Moraes, mesmo com a tão falada abolição, a escravidão que costumam dizer que acabou, ainda permite com que diversos vestígios sejam deixados nos mais variados espaços. Para ele, “Os vestígios da escravidão ainda são muito vivos. Existe muita dificuldade para o povo preto conseguir espaços no mercado de trabalho e até mesmo em cargos de chefia”, lamentou. 

Já Rui Leandro – que tem 39 anos, dos quais dezenove são dedicados ao candomblé – hoje babalorixá, viu o seu emprego como professor se esvair pelas mãos quando precisou usar branco às sextas-feiras. Docente em uma escola de cunho evangélico do bairro de Plataforma – Subúrbio de Salvador, Leandro  foi visto como uma ameaça por pais e pela coordenação da instituição que o obrigou a deixar seu cargo caso persistisse no uso das vestes brancas. 

“O principal motivo para sofrer o racismo é por ser uma religião de preto “

Tiago Moraes

Em conversa com Rui Leandro, foi possível identificar as mais diversas situações traumáticas diante das histórias contadas. Rui é enfático quando diz que as marcas ainda doem, já que o racismo religioso ainda é praticado, só que em muitos momentos de forma velada. Hoje babalorisá, Leandro, também reclama da insegurança vivida dentro dos próprios terreiros e de como a sociedade se aproveita das benfeitorias do candomblé, ao procurarem os espaços só quando estão precisando de algum trabalho. 

Quando questionado sobre a diversidade religiosa de Salvador e como isso pode implicar a prática da sua religião, Rui é muito claro em seu posicionamento “o preconceito existe em todo lugar, as vezes até dentro do próprio terreiro, quando filhos de outras casas discriminam o seu axé pela sua forma de cultuar as suas divindades”. Rui também nos afirma que hoje muita coisa mudou, mas muita gente continua olhando feio quando vê os seus filhos de santo e até mesmo ele passando com suas vestes. 

“Candomblé nunca foi visto como uma religião igual as outras “

Rui Leandro

Para o professor Everton Nery, doutor em teologia, que atualmente atua como docente na Uesb – Valença, Salvador é  também um espaço inóspito para os praticantes das religiões afro, segundo ele, “em Salvador é vivenciado todo racismo, mesmo sendo uma das maiores cidades com população negra fora da África”. Everton conclui a sua fala dizendo que não costuma categorizar a  intolerância religiosa em todas as esferas, pois a intolerância só é direcionada para aquilo que existe raiz na matriz preta, ou seja, quando é feita e praticada por negros.  

A atitude racista não está assentada por sobre a religião, a questão é referente a raça. Não encontramos grandes preconceitos contra outras religiões ” finaliza Nery.

Existe segurança para a prática religiosa em Salvador? 

Foto: Josivan Vieira

Considerada uma das cidades mais pretas fora do continente africano, Salvador, que fica a 7.956 km de distância da África, viu os casos de racismo religioso dispararem entre 2018 e 2019, com uma breve queda entre 2020 e 2021. Segundo o Ministério Público (MP-BA) 90% dos casos de intolerância religiosa são praticados contra os adeptos das religiões de matriz africana. Mesmo após a abolição oficial, o povo preto não conseguiu se libertar das amarras sociais e vêem as suas formas de manifestações culturais/religiosas serem massacradas por outros religiosos e por não praticantes da religião. 

Os dados que apontam o recorte sobre os ataques são do Aplicativo Mapa do Racismo e da Intolerância Religiosa, o aplicativo faz o mapeamento de todo estado, trazendo Salvador como a cidade com o maior número de casos – via denúncia. 

“Em Salvador nós temos uma religião de matriz hebraico/cristã que invade os espaços e toma a sociedade de assalto, com base no discurso de arma, rompendo o nosso tecido social”

Everton Nery

A nossa equipe também conversou com Tiago e Rui acerca do racismo religioso sofrido nas vias/espaços públicos de Salvador, e ambos são muito diretos na resposta: “Sim! Sofremos muito preconceito nas ruas da cidade quando estamos vestindo as nossas indumentárias”.

O evangélico pode se vestir e ir a rua com suas indumentárias, mas o candomblecista não pode. Rui Leandro

Mesmo Salvador sendo essa cidade considerada uma “Roma Negra” o racismo – para além das práticas religiosas é latente. Moraes lembra as diversas vezes que mudaram de calçada quando o encontravam em ruas desertas e ainda afirma, “todo negro visto sozinho a noite é tido como um suspeito”. 

Para Everton Nery, responsável por lecionar diversos componentes sobre ética em cursos distintos da Uesb, o racismo religioso precisa ser combatido de forma urgente, pois todos precisamos ter a liberdade de cultuar de forma livre suas crenças. Ele pontua a importância em se fazer um recorte de raça, classe e poder no que diz respeito a questão da intolerância praticada contra as religiões afro. E afirma com muita segurança que outras religiões não sofrem intolerância no Brasil, já que esse tipo de discriminação tem cor e classe social, e o candomblé/umbanda são vistos como religiões de pessoas pobres e pretas.

References

References
1  Guias são objetos sagrados, que constituem um elo de ligação entre o filho de fé e os Orixás. Por isso, devem ser tratadas como tal, com respeito e devoção.
2 O ritual de iniciação no Candomblé, a feitura no santo, representa um renascimento, tudo será novo na vida do yàwó, ele receberá inclusive um nome pelo qual passará a ser chamado dentro da comunidade do Candomblé.

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