Tags:, , , ,

Religiões matriarcais retomam a importância do feminino na espiritualidade

- 18/01/2017

Bruxaria e outras práticas ensinam caminho para culto ao poder feminino

João Bertonie e Mallu Silva | Multimídia: Gess Alencar

“Onde há uma bruxa, há um caminho”, diz a inscrição na placa azul, pendurada na parede e decorada com a imagem de uma bruxinha com seu chapéu pontudo. Não é o único chapéu que há por lá. Há inúmeros deles espalhados, fazendo companhia a uma profusão de vassouras de palha, cristais e altares. Onipresente também são as imagens de mulheres, quase sempre representando deusas ancestrais. No Templo Casa Telucama de bruxaria tradicional celta-ibérica, em Lauro de Freitas, o feminino é sagrado.

A mulher foi sacralizada a partir do momento em que os homens iam para as caçadas, sangravam e morriam. A mulher, por sua vez, sangrava todo mês e permanecia viva. “Aí se deu a sacralidade do útero”, explica a suma sacerdotisa Graça Azevedo. Estamos no ano 5.746 do calendário lunar, utilizado pelas bruxas quando estão naquele templo. Graça está há 42 anos à frente da casa.

Chamada de “suma” ou de “mama” pelas 80 bruxas e bruxos da casa, a Senhora Telucama já fez 18 sacerdotisas e 12 sacerdotes, além de ocupar lugar de destaque nos oito rituais que ocorrem no ano lunar, numa religião que, segundo ela, combina arte, ciência e filosofia.

Quem sente o chamado para a bruxaria e quer ser iniciado na tradição deve passar pelo Colégio Ponto de Mutação, centro de formação sacerdotal, sediado no próprio templo.  A preparação dura de sete  a nove anos. Os dois períodos iniciais são dedicados ao que a suma chama de autoconhecimento. Nos anos seguintes, estudam-se ciências, filosofia e demais disciplinas fundamentais para a bruxaria tradicional.

“São práticas existenciais, nas quais está o princípio do sagrado feminino, uma abordagem uterina de preservação desse grande útero que nos acolhe, o planeta Terra”, expõe Graça Azevedo, com o tom ao mesmo tempo didático e maternal que permite imaginar sua relação com os seus alunos. Durante a conversa, há frases que ela repete duas ou três vezes. “No princípio era o útero, o verbo veio bem depois” é uma delas, na qual a suma subverte e clássica passagem do Novo Testamento da bíblia cristã.

Nova era

A ideia do feminino como referência do sagrado, de ressignificação ou valorização, sempre existiu, mas ressurge a partir de um movimento chamado Nova Era, segundo a doutora em antropologia Fátima Tavares. “Esse movimento tem sua emergência no final dos anos 60 e início dos 70, com a contracultura americana”, conta. Para a pesquisadora, estas novas religiosidades ganham espaço ao contrapor o aspecto predominantemente masculino nas tradições cristãs.

Fátima defende que o diagnóstico destas novas religiosidades é que a nossa sociedade é altamente desequilibrada, com uma proeminência do princípio masculino. “O que se quer é uma ênfase no feminino para construir uma relação de equilíbrio”, diz. A Senhora Telucama ensina por um caminho parecido . “Na bruxaria, não definimos gênero. São todos humanos voltados ao propósito de servir e à preservação deste grande útero chamado planeta Terra”, afirma a bruxa.

Livro com receitas ritualísticas passadas de geração em geração

Guiada pela suma sacerdotisa, a doutoranda em Língua e Cultura Ingrid Oliveira, 28 anos, entrou em contato com a sua ancestralidade pagã em 2007, quando ainda tinha 18 anos. Para que a reportagem conseguisse seu contato, a mama precisou autorizar a entrevista e outra bruxa mediou a conversa. “Por meio do Sagrado Feminino, pude conhecer e respeitar a força transformadora que emana do ventre de todas nós, mulheres”, afirma. Ingrid é uma das pré-sacerdotisas do templo.

O culto ao Sagrado Feminino, contudo, não é feito apenas em comunidade. Por não conseguir encontrar uma casa de bruxaria que a contemplasse, Priscila Santine, 23, se define como uma “bruxa solitária”, fazendo seus rituais dentro do seu próprio quarto, na Boca do Rio. Em 2014, ela deixou a religião evangélica, seguida pela sua família, para se aventurar na wicca, crença neopagã surgida no início do século XX. Há um ano, resolveu se dedicar de forma independente ao culto das deusas ancestrais na bruxaria tradicional. “Cultuando as deusas e o sagrado feminino, eu me sinto realmente livre, eu escolho o que é certo e errado para mim”, completa.

EDIÇÃO 2022.2

A invisibilidade que nos cerca

De que perspectiva você enxerga o que está ao seu redor? A segunda edição de 2022 do Impressão Digital 126, produto laboratorial da disciplina Oficina de Jornalismo Digital (COM 126) da FACOM | UFBA, traz diferentes ângulos jornalísticos sobre o que nos marca enquanto sociedade, especialmente àquilo que fazemos questão de fingir que não existe. […]

Turma 2022.2 - 07/12/2022

De R$ 4,90 para R$ 5,20

Aumento da tarifa de ônibus em Salvador afeta rotina de estudantes universitários

Estudantes relatam dificuldades criadas pelo aumento do valor da passagem de ônibus em Salvador O aumento de trinta centavos no valor da passagem de ônibus em Salvador (R$4,90 para R$5,20), anunciado de maneira repentina pela Prefeitura, entrou em vigor no dia 13 de novembro. Tal medida vem prejudicando o cotidiano dos estudantes, especialmente aqueles que […]

Jessica Santana, Laura Rosa, Lucas Dias, Lucas Mat - 07/12/2023

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Bahia é terceiro estado com maior número de partos em menores de idade

Estado registrou 6.625 partos em mulheres de até 17 anos; especialistas apontam falta de acesso à educação sexual como um dos principais motivadores Defendida por parte da sociedade e rechaçada por outra parcela, a educação sexual nas escolas é um tema que costuma causar polêmica quando debatido. Ainda assim, seu caráter contraditório não anula o […]

Larissa A, Lila S., Luísa X., Patrick S - 07/12/2023

catadores da cooperativa Canore reunidos

Desenvolvimento sustentável

Racismo Ambiental em Salvador e Economia Circular

Entenda como esse modelo de produção une sustentabilidade, cooperativas de reciclagem e a luta contra as desigualdades sociais Em meio à crise das mudanças climáticas, a cidade de Salvador tem registrado temperaturas maiores do que a média histórica, chegando a sensações térmicas acima dos 34ºC. Para combater os efeitos do aquecimento global, organizações e iniciativas […]

Anna Luiza S., Jackson S., Luiza G. e Pedro B. - 06/12/2023

Na imagem, uma mulher de blusa verde segura uma cesta com plantas medicinais em frente a uma barraca laranja que tem outras plantas e bananas

Desenvolvimento Sustentável

Feira une produção e consumo sustentáveis na UFBA

Realizada às sextas-feiras, Feira Agroecológica da UFBA se torna elo de ligação entre pequenos produtores e consumidores em busca de alimentação saudável A Feira Agroecológica da Universidade Federal da Bahia – apelidada carinhosamente de “Feirinha” – é um projeto de extensão do componente curricular “BIOD08 – Comercializando a Produção Agroecológica”, ministrado no Instituto de Biologia […]

Celso Lopez;Daniel Farias;Jade Araújo;Melanye Leal - 06/12/2023