Sou eu que decido quando quero engravidar. Será que é verdade?

Alisson Oliveira e laiz Menezes - 14/12/2022

O planejamento familiar deve começar com o início da atividade sexual

Ouça abaixo a íntegra da matéria

A catadora de recicláveis Jaqueline dos Santos, de 33 anos, já passou por quatro gestações de risco e não esperava engravidar novamente. A barriga começou a crescer mesmo com o anticoncepcional em dia. Após realizar três testes com o resultado negativo, ela aproveitou um mutirão de saúde gratuito que acontecia no Bairro da Paz, em Salvador, e realizou um exame de sangue. O resultado não era esperado, mas o médico confirmou que ela estava grávida de três meses e que já poderia comprar o enxoval para receber um menino.

O caso de Jaqueline não é isolado. Um estudo publicado em 2018 no periódico científico Contraception acompanhou cem mulheres que usaram métodos variados de contraceptivos e verificou quantas engravidaram. Segundo os pesquisadores, a bula do anticoncepcional garante 99,7% de proteção, em tese. Mas nove das cem mulheres do estudo tiveram um bebê, mesmo usando o medicamento.

Emanuela Lima

“Eu não planejava ter outro filho, assim, tão cedo, porque meu segundo filho tinha 4 anos de idade. E aí foi um susto, né?”, conta a auxiliar administrativa Emanuela Lima, de 30 anos, que engravidou do terceiro filho. “A gente fica confiante, acha que o método ainda está agindo no nosso corpo”, diz Emanuela, que mora em Feira de Santana, no centro-norte da Bahia.

A falta de acesso a anticoncepcionais também é uma barreira que impede a adoção de um planejamento familiar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 225 milhões de mulheres em países em desenvolvimento gostariam de retardar a gravidez ou até mesmo deixar de engravidar, mas não utilizam qualquer tipo de método contraceptivo.

Emanuela Lima

Em outros casos, como o de Emanuela, o inimigo é a falta de informação. “Engravidei em 2016, eu estava fazendo uso da injeção de Perlutan, mas mudei para a Ciclo 21. Tinha que dar uma pausa de sete dias, e foi nesses sete dias que eu tive relação [sexual] e descobri depois que eu estava grávida. Não era para eu ter relação nesses sete dias. Se tivesse, teria que usar a camisinha. Eu confiei porque já tinha tempo usando a injeção”, admite a auxiliar administrativa.

Emanuela Lima

Por causa da experiência com a gravidez durante o uso de métodos anticoncepcionais, Emanuela, que hoje adota o DIU de cobre, decidiu intensificar as visitas ao ginecologista. Ela conta que não fica mais de seis meses sem ir ao médico: “A gente não confia. É melhor sempre se cuidar. Eu estava com ele [DIU] há dois anos, fui fazer a revisão e descobri que estava fora do lugar”.

Planejamento familiar

Ao evitar a gravidez indesejada ou aumentar o tempo entre as gestações, o planejamento familiar pode prevenir riscos de saúde e mortes por gravidez precoce. Vale lembrar que a gestação de adolescentes e de mulheres que já passaram dos 40 anos são consideradas arriscadas para as mães e os bebês.

E os grandes aliados do planejamento familiar são os anticoncepcionais. Segundo dados do Ministério da Saúde, eles podem ajudar a evitar ou diminuir a incidência de algumas doenças, como a inflamação pélvica, ovários policísticos, câncer do ovário ou do endométrio e outras benignas, ligadas à mama. Além disso, melhoram a pele, reduzindo as acnes, e proporcionam bem-estar às mulheres, controlando o fluxo da menstruação e de seus sintomas, como a cólica e as dores de cabeça.

Jaqueline dos Santos

Jaqueline dos Santos, que mora em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), já teve quatro gestações de risco, porque tem uma condição chamada de útero infantil, que é uma má-formação que impede o órgão de se desenvolver completamente. “Não planejava ter outro filho. Fiquei preocupada e nervosa quando descobri, mas ao mesmo tempo feliz que não é uma doença”, relata.

Na gestação atual, a recicladora ainda vai passar por exames para garantir que a gravidez será segura. A sogra dela, também recicladora, Cleide Pereira, 43, explica que a nora quase perdeu a vida quando foi dar à luz ao último filho: “Ela tomava todos os cuidados para evitar a gravidez, justamente porque é muito perigoso para ela, mas mesmo assim ela não conseguiu evitar”.

Métodos Contraceptivos

Apesar dos casos de gravidez mesmo utilizando métodos contraceptivos, são eles que garantem, na maioria das vezes, que a mulher não engravide. No mercado brasileiro, é vendida uma grande variedade de anticoncepcionais. O mais comum é a pílula (oral), que completou 60 anos em 2022, e é a escolha de 34,2% das brasileiras, de acordo com a mais recente Pesquisa Nacional de Saúde, de 2019. Também são usados o Dispositivo Intra Uterino (DIU), o anel vaginal, adesivo transdérmico, injeções mensais e anuais, além dos implantes.

Palavra do especialista

O médico ginecologista Jorge Valente explica que os anticoncepcionais, de uma forma geral, têm uma taxa de efetividade próxima a 99%. Por isso, a indicação de qual método utilizar leva em consideração o perfil da paciente. Segundo o especialista, a escolha não se baseia na eficácia, mas sim nos efeitos colaterais que ele pode causar em determinada faixa de paciente.

“Se a gente tem alguém que está amamentando, acabou de ter neném e precisa se prevenir, você vai usar uma pílula que não tem estrogênio, que só tenha progesterona pois não vai ‘secar’ o leite. Uma paciente que tem ovários policísticos e por isso tem excesso de androgênio, aí você vai escolher uma pílula que reduza esse excesso de androgênio para reduzir o impacto na pele [com] acne e de queda de cabelo”, explicou o médico.

No Brasil, a compra de anticoncepcionais não exige receita médica. Porém, o especialista alerta que todas as mulheres precisam passar por consulta antes de escolher um medicamento, já que alguns deles são contraindicados em determinados casos.

“São pacientes com maior risco de trombose, pacientes com maior risco da parte  vascular. Então, aqueles contraceptivos que têm estradiol, principalmente se for em dose alta, está contra indicado, assim como, também, em pacientes fumantes. Nos métodos não hormonais, a contraindicação mais clássica que existe é a utilização de dispositivos intrauterinos em pacientes que vão, ainda, iniciar a vida sexual. Ou seja, ela ainda é virgem mas já está querendo começar a se prevenir. O DIU, como você precisa inserir, pela vagina, dentro do útero, não deve ser feito antes que essa paciente comece a ter vida sexual. O que não ocorre com a pílula ou com algum injetável, que ela pode começar a usar para se prevenir antes de ter a primeira relação”, exemplifica o especialista.

Para o médico ginecologista, também é importante que as mulheres conheçam tudo aquilo que pode diminuir a eficácia dos anticoncepcionais, como, por exemplo, o uso de determinados medicamentos. Valente ressaltou que alguns remédios usados para controle de doenças do sistema nervoso central, assim como certos antidepressivos e ansiolíticos, podem diminuir um pouco a eficácia das pílulas orais, principalmente.

“Quando a gente vai levar em consideração a eficácia de um método contraceptivo, a gente está pensando no mundo perfeito, ou seja, que ela não esteja tomando nada que diminua essa absorção [do anticoncepcional], que ela tome [a pílula] no horário adequado, todos os dias, e que ela não esqueça. Por esse motivo, que os métodos de longa duração tem um ‘plus’ no que diz respeito a essa eficácia, porque ele não é usuário dependente. Por exemplo, se você bota um implante de três anos, você tira totalmente a responsabilidade dessa paciente de não esquecer, de tomar todos os dias. Do mesmo jeito se você bota um DIU medicado de cinco anos”.

Clique aqui e tenha acesso ao material completo do Ministério da Saúde sobre anticoncepcionais

Imagem: Heloísa Cristaldo / Agência Brasil

Gravidez na adolescência

Letícia Oliveira, que hoje tem 22 anos, mora em Itaberaba, na região da Chapada Diamantina, e faz parte do público que engravidou na adolescência. Sua primeira gestação, e única, aconteceu quando ela tinha 17 anos. A estudante tomava a pílula anticoncepcional e não imaginava que pudesse engravidar. Quando descobriu,  já estava com quatro meses.

Letícia Oliveira

“Minha barriga não cresceu muito e continuei menstruando normal. Por ser nova e não ter um marido ou namorado, acabei virando mãe solteira, né? Meus pais ficaram muito abalados desde o início, mas hoje me apoiam muito. Sigo usando o anticoncepcional, mas também uso camisinha, não quero ser pega desprevenida de novo”, relata.

Letícia não é a única que engravidou na adolescência e não teve um bom planejamento familiar. Com base no relatório conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o Ministério da Saúde afirma que, no Brasil, cerca de 930 adolescentes e jovens dão à luz, diariamente, somando mais de 434 mil mães dessa faixa etária, por ano. O país tem a maior taxa entre os países da América Latina e do Caribe, com cerca de 68 nascidos vivos para cada mil adolescentes e jovens.

Da mesma maneira, a última Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, apontou que, em 2019, 35,4% dos estudantes de 13 a 17 anos já tiveram relação sexual alguma vez na vida. O índice chega a 31% entre as meninas. O que preocupa é que quase 34% delas não usaram qualquer método contraceptivo, com risco de gravidez indesejada e Infecções Sexualmente Transmissíveis.

As adolescentes que engravidam estão mais propensas a terem bebês prematuros ou com baixo peso, ao nascer, o que aumenta as taxas de mortalidade neonatal. Além disso, muitas dessas meninas terminam abandonando a escola, o que traz impactos profundos para o seu futuro e para as famílias.

Saiba mais sobre prevenção à gravidez na adolescência.

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