Um dia casa, outro restaurante

- 05/02/2014

O conceito “anti-restaurante” se populariza em Salvador

Texto: Eduardo Coutinho
Fotos: Thamires Tavares/Labfoto 

Casa cheia. É disso que Angélica Moreira – vendedora, pedagoga, militante do Movimento Negro, e, desde muito cedo, craque na cozinha – gosta. Em sua casa, no Tororó, sempre recebeu a família e os amigos. Qualquer coisa virava desculpa para fazer uma feijoada ou o seu famoso cozido e reunir a turma no quintal.

Em fevereiro do ano passado, Angélica e as filhas resolveram fazer uma “ressaca de carnaval”, no primeiro sábado depois da festa. Prepararam uma feijoada, chamaram os amigos, como já era de costume, e deram a festa. No dia seguinte, alguns já ligaram perguntando: “e aí, tá aberto?”. E foi assim que surgiu o Ajeum da Diáspora.

Ajeum da Diáspora: a casa de dona Angélica se transforma em restaurante aos domingos

No início ainda sem nome, a casa recebia apenas pessoas próximas do ciclo de amizades da família. Com o tempo, foi ficando conhecida, atraindo um público mais diversificado, até conquistar espaço nos jornais, blogs de gastronomia e, é claro, na boca do povo.

Além da comida, – o projeto tem um cardápio especial, que valoriza a culinária de raiz africana – o que tem atraído a atenção do público é o fato de o Ajeum não ser um restaurante, mas uma casa. “É meio parecido com dia de domingo comer no fundo de quintal com a família. Aqui a gente se sente em casa”, conta a fotógrafa Janice Cunha, uma das freqüentadoras do Ajeum.O projeto funciona apenas aos domingos, no horário de almoço, mas a preparação para receber o público começa um dia antes. “No sábado o trabalho começa, jogando o sofá pra dentro do quarto e arrumando a casa”, explica Angélica. É também aos sábados que ela vai com as filhas à Feira de São Joaquim, para comprar os ingredientes que vão ser usados no dia seguinte.
A cada domingo, o Ajeum serve um prato principal e três entradas (R$ 30), que são anunciados na página do Facebook na quinta-feira. Para ir, tem que fazer reserva, para que a família possa se planejar. “Costumamos receber, no máximo, 30 pessoas por edição, para que todos fiquem confortáveis”, conta Angélica, que faz questão de manter o clima familiar do projeto e diz que os frequentadores “cuidam e tratam o espaço como se fosse a própria casa”.

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Culinária afetiva – Angélica não foi a primeira nem é a única a abrir as portas de casa como se fosse um restaurante. Essa prática, que pode ser chamada de vários nomes – culinária afetiva, anti-restaurante, home bistrôs ou, ainda, guestaurants – é popular em países como Espanha, França e Cuba, e está crescendo no Brasil.

Em Salvador, outro adepto é o advogado Felipe Almeida, que já realizou, dentro de casa, quatro jantares nos moldes do “anti-restaurante”. Os convidados pagam um valor único e têm direito a entradas, prato principal, sobremesa e bebidas. O preço é salgado – fica em torno de R$ 120 – mas o cardápio inclui queijos e bebidas importados, além de ingredientes especiais que Felipe traz das aventuras gastronômicas que faz pelo mundo.

Como está começando, o público ainda é restrito a amigos. Mas Felipe não esconde a pretensão de alcançar novas pessoas e aumentar a freqüência dos eventos em casa. “Motivada por questões como lei seca, insegurança, além dos preços absurdos de restaurantes, muita gente tem preferido este tipo de evento que ir jantar fora”, observa.

Os eventos realizados em casa são registrados pelo advogado no blog Santa Comida, onde ele também escreve sobre restaurantes, novidades gastronômicas e dá algumas receitas. Da experiência nos eventos em casa, Felipe já foi convidado por dois restaurantes para realizar um jantar especial nos espaços. Os convites estão em negociação.

Lá atrás – Há 16 anos, Dona Juvência dos Santos Barroso começou a abrir as portas de sua casa no Garcia, apenas às sextas-feiras, para oferecer almoços. Hoje, é difícil encontrar alguém que passe pelo bairro e não saiba onde fica o Aconchego da Zuzu, nome que ganhou o quintal-restaurante.

Em pouco tempo, a comida baiana de Zuzu chamou a atenção do público e a casa passou a funcionar nos finais de semana, até chegar ao que é hoje: só fecha na segunda-feira. A equipe de trabalho, antes composta por alguns familiares, hoje conta com 20 funcionários.

“Minha avó sempre gostou de movimento em casa. O Aconchego começou assim.”, conta Cibelle Barroso, uma das administradoras do restaurante. O crescimento do negócio teve de vir acompanhado de investimentos em infra-estrutura e equipamentos. “No início, eram duas cozinhas pequenas, separadas, hoje temos uma cozinha grande, com todos os equipamentos adequados”, explica.

Em volta do quintal onde funciona o restaurante, ainda estão as casas onde mora a família Barroso, que perdeu Zuzu, aos 103 anos, em 2011. É este clima de família, aliás, que faz com que o público, assim que cruza o portão, sinta o Aconchego. “Eu adoro quando chego, me chamam pelo nome e me dizem assim ‘sua irmã teve aqui semana passada’ ou ‘você nunca mais veio aqui’”, conta a médica Eliane Cardoso, cliente fiel do restaurante.

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