“A universidade busca formar artistas completos, não operários da música”
- 12/06/2011Diretor da Escola de Música da UFBA, Heinz Schwebel avalia as perspectivas e o panorama da educação musical
Por Rafael Brandão
Aos nove anos de idade, Heinz Karl Schwebel iniciava, sob a orientação de seu pai, os estudos em trompete – instrumento que não largou mais. Depois de realizar a graduação em Instrumento pela Escola de Música (Emus) da UFBA e concluir cursos de mestrado e doutorado nos Estados Unidos, sempre com foco em trompete, ele hoje é diretor da Emus e primeiro trompete da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA).
Em entrevista concedida ao Impressão Digital 126, Heinz fala sobre o novo curso superior de Música Popular, inaugurado em 2008 na UFBA, e sobre o panorama da área de educação musical atual. Ele aborda a expectativa, vivenciada por quem atua na área, de aprovação da Lei 11.769, que visa tornar obrigatório o ensino de música no ensino básico. Também avalia o cenário predominante da música popular baiana atual: “Hoje, na Bahia, parece que só se faz música para festas!”
Impressão Digital 126 – O que significou, para a Escola de Música, a recente inclusão de um curso de Música Popular? Como tem sido a experiência até agora?
Heinz Karl Schwebel – Significou uma aproximação da escola com a música brasileira e com uma enorme parcela de músicos que antes não se sentiam à vontade no ambiente acadêmico. A criação do Curso de Música Popular veio atender uma demanda histórica por parte da comunidade musical de Salvador, e da Bahia como um todo, por um acesso formal e sistematizado ao ensino da música popular.A Escola de Música foi criada sob uma ótica muito diferente da atual, ótica esta que se baseava, ao mesmo tempo, na música européia tradicional e na vanguarda composicional. A música brasileira que não fosse de vanguarda, de concerto, ou Erudita, como queiram, ficou de fora. Os tempos mudaram, as relações com a música e os músicos hoje são outras, a música popular brasileira é objeto de estudo em universidades e conservatórios ao redor do mundo, e seria um descalabro se uma escola brasileira de música seguisse ignorando manifestações tão ricas como algumas provenientes da nossa música popular.
A experiência com o novo curso tem sido muito positiva. Como era de se esperar, após tantos anos de demanda reprimida, a procura pelo Curso de Música Popular é muito grande, e a concorrência tem sido alta para os padrões de um curso de música. O recém contratado corpo docente, além de extremamente dedicado e entusiasmado com o projeto, é de altíssima qualidade. É evidente que este é um processo recém iniciado e será preciso esperar alguns anos para se observar os resultados gerados por ele.
ID126 – O panorama atual é estimulante para quem deseja trabalhar na área de educação musical em Salvador?
HKS – Eu diria que o panorama é desafiador. A estrutura educacional como um todo apresenta enormes problemas, e os poderes públicos municipal, estadual, e mesmo federal, tem um enorme déficit com a sociedade brasileira. Existe, contudo, uma perspectiva muito interessante no campo específico da Educação Musical com a expectativa em torno da implementação da Lei No. 11.769, que dispõe a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica. A expectativa é que, a longo prazo, tenhamos uma população melhor iniciada musicalmente. Além disso, espera-se que essa lei crie uma grande expansão do campo de trabalho para o licenciado em música, o que torna a carreira mais atraente. A Escola de Música está em vias de oferecer seu primeiro curso de pós-graduação Latu Sensu visando capacitar professores da rede pública para lecionar música nas escolas municipais.
ID126 – A passagem pela universidade é tida como importante para os que desejam ingressar na área profissional de música atualmente?
HKS – A passagem pela universidade, se não uma condição sine qua non para o exercício da profissão em certas atividades musicais, é absolutamente fundamental para algumas especialidades. A teoria musical avançada, a musicologia e a educação musical são os exemplos mais óbvios disso. O ensino universitário, ou o ensino em bons conservatórios, é fundamental para o entendimento da música de forma plena, e não apenas de aspectos pontuais da música, como a aquisição da habilidade técnica de tocar um instrumento, ou de cantar, por exemplo. A enorme quantidade de cantores e instrumentistas que não passaram por um ensino formal de música é evidência que, de fato, pode-se aprender também fora da escola. Armandinho talvez seja o maior exemplo local disso. Mas Armandinho é genial, e o gênio, por ser exceção, nem sempre é o melhor exemplo. O que se oferece na universidade na área da performance musical é uma possibilidade de aprofundamento técnico, artístico e intelectual que busca a formação do instrumentista ou do cantor como um artista completo, e não apenas como um “operário da música”.
ID126 – Vocês possuem dados sobre o destino profissional dos egressos da Escola de Música da UFBA?
HKS – Não temos dados atualizados, mas sabemos do destino de muitos de nossos alunos. Muitos tem obtido sucesso em concursos de solistas até fora do Brasil. Outros estão empregados em orquestras, alimentam as bandas de musica popular ou se colocaram em posições de docentes universitários. É muito ampla a atuação de nossos egressos.
ID126 – A cena musical que hoje predomina na Bahia é frequentemente acusada de ser decadente, especialmente se comparada com a contribuição que a música baiana já exerceu para o patrimônio cultural brasileiro no passado. Qual sua opinião sobre isso?
HKS – Você deve estar falando da música popular, porque na música baiana de concerto há uma renovação bastante interessante acontecendo entre os compositores na universidade, e projetos muito importantes de formação de instrumentistas como o NEOJIBA. A nova geração de compositores vem mostrando um potencial muito grande, orientada por professores como Paulo Lima e Wellington Gomes entre outros, para manter a Bahia na vanguarda da composição contemporânea. Talvez, no caso da música popular, não seja uma questão de decadência propriamente dita, mas sim de uma expansão demasiada da música de carnaval. Veja, eu acho que a Bahia sempre produziu e continua produzindo uma boa música de função carnavalesca! Eu poderia fazer um julgamento da qualidade composicional dessa música de carnaval feita hoje sob o ponto de vista técnico ou musical e até poético, mas acho que não é o caso, já que ela, como é, atinge seu objetivo de fazer as pessoas dançarem e brincarem o carnaval.
O problema, me parece, é quando ela ultrapassa o contexto do carnaval e passa a ser apresentada continuamente como a nossa música do dia a dia. E essa continuidade é, obviamente, provocada pelos empresários da indústria carnavalesca para lucrarem por mais de cinco dias por ano. O predomínio da música de carnaval deixa muito pouco espaço para outras músicas populares. Uma roqueira de sucesso como a baiana Pitty, ex- aluna da nossa escola, precisou se mudar para São Paulo para achar seu lugar ao sol, por exemplo.
Hoje, na Bahia, parece que só se faz música para festas! Se não é carnaval, é São João! Não se faz mais música para a fruição pura e simples. Você menciona a contribuição da geração passada. Caetano também fez música de carnaval, mas explorou outras possibilidades escrevendo todo tipo de música popular. Gil fez forró, mas não apenas isso. O que dizer do que fizeram Tom Zé, os Doces Bárbaros, sem falar em Caymmi! Eu não vejo nada parecido sendo feito hoje, e talvez não seja possível que esse fenômeno das décadas passadas se repita ou se renove, mas fica, de fato, a impressão de que esses ícones da música baiana estabeleceram um patamar de qualidade e originalidade difícil de alcançar pelas gerações seguintes. Talvez o que mais se assemelhe ao que já produzimos no passado sejam as iniciativas de Carlinhos Brown. Isso não quer dizer que não haja qualidade no trabalho de uma Daniela ou de uma Ivete Sangalo, por exemplo, que são grandes intérpretes, mas não são criadoras. A música popular instrumental quase não acha espaço algum numa cidade como Salvador. Isso é um absurdo! A Orquestra Rumpilezz é a exceção e a grande novidade na música popular instrumental baiana, e exemplo de que é possível fugir um pouco da ditadura do mercado.
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