“Não existe cura para doenças transmitidas geneticamente como a enxaqueca”
- 16/07/2013Especialista carioca fala sobre os riscos abusivos de medicamentos e do tratamento preventivo correto para a doença
Miriane Oliveira
Pesquisador da área de cefaleia, Abouch Valenty Krymchantowski é formado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e doutor em neurologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi coordenador do Ambulatório de Cefaleias Crônicas do Instituto de Neurologia Deolindo Couto da Universidade Federa do Rio de Janeiro (UFRJ). É editor associado do jornal especializado em dor de cabeça http://www.headachejournal.org e criador do site www.dordecabeca.com.br. Abouch Valenty tem nove livros publicados sobre dor de cabeça e atende a pacientes em clínica especializada na área.

Especialista em neurologia, Abouch Krymchantowski fala sobre os tratamentos adequados à enxaqueca | Foto: Reprodução
Impressão Digital 126 – Como o uso exagerado de medicamentos pode, ao invés de ajudar, dificultar o tratamento da enxaqueca do ponto de vista da neurologia?
Abouch Valenty Krymchantowski – O uso regular, mais de dois dias na semana, de qualquer tipo de medicamento sintomático, para as crises de dor, aumenta progressivamente a frequência da crise até torná-la diária ou quase diária. Os mecanismos pelos quais isso acontece envolvem sensibilização central, estímulo de receptores serotoninérgicos cerebrais e rebote – quando o fim do efeito da droga deflagra outra crise cada vez com mais intensidade. A única alternativa para quem já está assim é interromper o uso excessivo desses fármacos e fazer o tratamento preventivo correto. Além disso, há os efeitos deletérios do próprio remédio sobre fígado, estômago, rins e sangue.
ID 126 – É sabido que a enxaqueca se diferencia de uma dor de cabeça eventual, o senhor acredita que há uma demora por conta de quem sofre em reconhecer de imediato que tais sintomas podem ser uma enxaqueca?
AVK – Sim. E não apenas do paciente, mas também da maioria dos médicos que atendem em consultas de dez minutos e não conseguem fazer o diagnóstico de nada. Enxaqueca não está presente em nenhum exame complementar e pedi-los apenas para compensar consultas de dez minutos não faz o diagnóstico que é baseado, apenas, na história clínica e nas características dos sintomas que são claros na maior parte dos pacientes.
ID 126 – Levando em consideração a sua experiência em atendimentos, é possível curar a enxaqueca?
AVK – Não existe cura para doenças transmitidas geneticamente como a enxaqueca. No entanto, o tratamento bem feito pode reduzir muito ou eliminar os sintomas, como as crises de dor de cabeça. Não há milagres. Quem quer melhorar deve manter regularidade de vida: sono, alimentação, gerenciar estresse, praticar sexo, exercícios aeróbios, tomar a medicação preventiva correta e tomar a medicação de crises correta e na frequência certa.
ID 126 – É possível estabelecer o perfil de quem sofre com a doença?
AVK – Não, mas é possível estabelecer o perfil de quem vai evoluir para as formas mais frequentes. Isso já foi feito nos EUA – pobres, mulheres, obesos, sedentários, indivíduos com apneias do sono e com alta frequência de crises tendem a evoluir para o padrão diário de dor.
ID 126 – Em dados gerais, qual a porcentagem da população que tem a enxaqueca?
AVK – De 18-20% das mulheres, de 6-8% dos homens e 6-10% das crianças.
ID 126 – E no campo da pesquisa, quais áreas estão mais avançadas ou atrasadas no estudo da enxaqueca? Como o senhor avalia os estudos sobre o tema?
AVK – Infelizmente só se estuda o que tem dinheiro da indústria farmacêutica. Há várias drogas em desenvolvimento, mas nos últimos dois a três anos, nada novo foi lançado. Existe essa enganação de botox, na qual não acredito e não observei melhora nos pacientes que receberam. O botox começou a ser usado para enxaqueca com crises episódicas em 1999 e não mostrou melhora na maior parte dos estudos e na experiência clínica. Há dois anos houve dois estudos feitos nos EUA e Europa para a forma crônica da enxaqueca (com dores em mais de 15 dias por mês). No entanto, excluíram os pacientes mais reais e problemáticos que são os que usam excessivamente certos tipos de remédios e os psicopatas.
Eu não confio nos resultados obtidos, não vi nenhum paciente que já fez e me procurou e, pior, não confio nos médicos que a empresa que fabrica o botox se associou no Brasil para divulgar seu produto. Eu não acredito e não uso. Com muito dinheiro e bons estatísticos qualquer forma de tratamento fica superior ao comparador que se estuda.
ID 126 – Quais alimentos continuam sendo os vilões para quem sofre de enxaqueca?
AVK – Isso é uma grande bobagem. Apenas alguns pacientes com enxaqueca têm a doença quando ingerem certos alimentos, e mesmo assim eventualmente. O que digo é que se deve evitar o alimento ou bebida que sempre deflagra crises.
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