Acessibilidade também na internet

- 11/07/2011

Em entrevista ao Impressão Digital, blogueira relata os desafios de lidar com a democratização dos recursos para deficientes visuais na internet

Por Leonardo Pastor e Naiá Braga

 

Professora, pesquisadora e blogueira, a paraibana Joana Belarmino cultiva uma paixão pela literatura e pelo ativismo na internet. Joana é cega, possui o blog “Barrados no Braile” e participa de redes sociais como o Twitter e o Facebook. Nesta entrevista, demonstra claramente a importância de se pensar em acessibilidade, seja nas ruas ou na internet.

Impressão Digital 126 – Seu interesse por acessibilidade relaciona-se diretamente com sua deficiência visual? Como se deu esse processo de iniciar uma carreira acadêmica voltada para este tema?

Joana Belarmino – Não diria que a minha carreira está inteiramente voltada para o tema. Diria que ele é uma consequência de um conjunto de coisas. A primeira delas, claro, é a minha cegueira. Mas, ao longo da minha vida, já participei de inúmeros eventos da área da deficiência, e penso que acessibilidade é uma das questões prioritárias. E, como estou no campo da comunicação, o tema é fundamental também nessa área.

Impressão Digital 126 – Quando e de que forma começou seu interesse pelos blogs e literatura?

J.B. – Amo a literatura desde sempre. Posso dizer que ela, a literatura, me deu a minha segunda visão da vida, das coisas que eu não posso ver nem tocar. O blog é uma ferramenta de comunicação. Como jornalista, como professora de comunicação, não posso prescindir dessas ferramentas, como o blog, o Facebook, o Twitter, etc.

Joana Belarmino, blogueira e pesquisadora. Foto: arquivo pessoal

 

Impressão Digital 126 – Como se dá o acesso à cultura por parte do deficiente visual? Teatro, cinema e literatura, por exemplo.

J.B. – Tudo depende da condição dessa pessoa com deficiência. Se ela for pobre, esse acesso é muito limitado. Criou-se uma falácia de que pessoas cegas não vão ao cinema, não gostam de teatro. É um mito. O que falta são políticas de acessibilidade. Então, respondendo à sua pergunta, o acesso dessas pessoas à cultura é muito precário ainda em nosso país.

Impressão Digital 126 – Quais seus pontos principais de interesse de pesquisa nesse momento?

J.B. – Estou desenvolvendo uma pesquisa sobre as redes sociais como ambientes para o ciberativismo de pessoas com deficiência. De algum modo dou continuidade à pesquisa do mestrado, onde eu estava preocupada com as organizações não governamentais de pessoas com deficiência e sua luta pela cidadania. Acho que vivemos uma época de transição, onde as associações ainda são importantes para a configuração dessa luta, mas, as pessoas com deficiência têm nas redes sociais um lugar privilegiado de luta.

Impressão Digital 126 – Como se dá a acessibilidade em dispositivos digitais? A internet é de fato de acesso possível a todos?

J.B. – As barreiras existem também na internet. Pouquíssimos sites conhecem e utilizam as normas internacionais de acessibilidade na web, organizadas no W3C. Os equipamentos que propiciam acessibilidade ainda têm preços proibitivos para a  maioria das pessoas com deficiência. Há que se estabelecer no país o programa de ajudas técnicas. Quando o governo fala em inclusão digital, ele geralmente não está pensando também nas pessoas com deficiência. quando o governo fala de inclusão digital, geralmente ele pensa em mera expansão das tecnologias. Então, há que se reivindicar um programa consistente de ajudas técnicas para as pessoas com deficiência.

Impressão Digital 126 – Qual a importância do processo de audiodescrição? Há exemplos de boas iniciativas no Brasil?

J.B. – A audiodescrição é fundamental para que as pessoas cegas, as pessoas disléxicas, e as pessoas com deficiência auditiva, através do close caption, possam usufruir plenamente da produção audiovisual. Existe um mercado em formação, existem excelentes iniciativas, como a do Teatro Vivo, em São Paulo, o festival de curtas que aborda as pessoas com deficiência, o festival “Assim Vivemos”. As universidades são o principal celeiro onde se tem formado profissionais, a ABNT tem dado uma contribuição grandiosa, organizando pessoas cegas, produtores, interessados, na formulação de uma norma sobre audiodescrição.

Impressão Digital 126 – Quais as principais dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência visual no cotidiano?

J.B. – Falta de acesso. Aos bens culturais, ao livro e à leitura, aos museus, a transportes dignos, ao trabalho. Enfim, dificuldades enfrentadas por um bom contingente da população brasileira.

Impressão Digital 126 – Existem iniciativas suficientes para promover a acessibilidade no Brasil? Quais os exemplos que se destacam?

J.B. – Acho que a sociedade está se mobilizando. A convenção da ONU, da qual o Brasil é país signatário, obriga os governantes a abraçar a causa. As pessoas com deficiência estão agindo, tomando a causa para si, nas redes sociais você encontra diversos serviços, e muitos deles de excelente qualidade. O mais importante, penso eu, é que as pessoas com deficiência estão se qualificando para reivindicar, cobrar. O Ministério Público tem sido fundamental nessa luta.

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