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Calabar: um breve histórico

- 21/11/2011

Situado entre bairros de classe média, a comunidade do Calabar tem a história marcada por lutas e desafios

Por Gabriel Simões

Não é recente o sentimento comunitário de resistência e muito menos a postura combativa dos moradores do Calabar. Foram escravos negros trazidos da cidade nigeriana de Kalabari que fugiram da exploração dos engenhos e construíram o Quilombo dos Kalabari, local onde fica, atualmente, a comunidade carente localizada na zona de intersecção entre o Jardim Apipema, o bairro de Ondina e a Avenida Centenário, região nobre de Salvador. É aí que começa a trajetória de lutas e reivindicações que ainda permanece e delimita o perfil ativista da maioria das pessoas que vivem lá. O quilombo virou favela e o Kalabari, Calabar. O que ficou foi a condição de gueto, a situação marginal e invisível aos olhos de um Estado historicamente omisso.

Visão da comunidade do Calabar pela Avenida Centenário

A ocupação massiva do local se iniciou em meados da década de 60, época de intenso êxodo rural e do Recôncavo, e do consequente processo de favelização da capital baiana. Ao longo de sua história, o Calabar já foi alvo de diversas investidas civis e estatais visando à sua desapropriação, todas sob o argumento da irregularidade e tácitas reprodutoras do plano elitista de afastar os “favelados” do entorno de moradias burguesas. Nenhuma delas, porém, obteve sucesso graças à organização política da comunidade, que sempre se manteve coesa e resistiu bravamente em meio às carências sanitárias e sociais.

Assolado pela ausência do Estado que, como em outras favelas, mostrou-se historicamente ineficaz na promoção do desenvolvimento social de comunidades formadas por pessoas vindas do interior sem qualquer capacitação intelectual e profissional, o Calabar ganhou notoriedade na mídia pelo alto índice de homicídios e ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas. A falta de saneamento básico, luz elétrica e educação, além dos recorrentes embates entre as duas gangues rivais que traficavam no local fizeram o bairro ser considerado um dos mais violentos da cidade e ocupar, mais de uma vez, o topo das listas periódicas de homicídios registrados na Região Metropolitana de Salvador.

Hoje as coisas estão bem diferentes e, desde abril desse ano, não foi registrado nenhum homicídio no bairro, segundo os dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. As pessoas reconhecem que é esse o momento de se desenvolver, de mudar os paradigmas e a imagem violenta veiculada nos jornais. Mais do que isso, é o início de uma mudança de realidade que deveria ter ocorrido há muito tempo atrás. O Calabar vê um novo ciclo começando, hora de conseguir o que antes estava longe, afastado pela violência e pela omissão do Estado. Este, por sua vez, deve garantir a continuidade do processo, como explica Jackson Azevedo, mestre em Direito Penal: “Esse tipo de intervenção foi concebida como etapa inicial de um processo que introduz o Estado em áreas nas quais sempre esteve ausente, implementando políticas públicas que realizem e assegurem a satisfação dos direitos humanos mínimos: educação, saúde, habitação, lazer e emprego. É uma etapa útil e necessária, mas perda de tempo e de recursos se isolada”.

Os pioneiros quilombolas do Kalabari deixaram como herança a luta e a resistência, sempre fortes e pulsantes. Agora, o legado que o Calabar pretende deixar às próximas gerações será em forma de educação, saúde e dignidade.

 

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