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Secretariado do novo prefeito não reflete inovação
- 04/02/2013Cientistas políticos afirmam que a forma de escolher os secretários foi a mesma: cotas partidárias, interesses econômicos e relações familiares
Ana Paula Lima e Raquel Santana
Durante a campanha ACM Neto defendeu que o critério de escolha para o seu secretariado seria o da meritocracia e que os nomes escolhidos para assumir as 12 pastas que compõem o seu governo iriam formar uma composição política pautada na técnica e na inovação. Mas, ao se analisar os currículos e os perfis dos secretários, nota-se que a tese do atual prefeito ficou apenas no discurso.
Neto fez parte da coligação “É hora de defender Salvador”, formada pelos partidos PTN, PPS, DEM, PV e PSDB. Além disso, o PMDB baiano apoiou o candidato democrata durante o segundo turno. Apesar de garantir que não ia ser influenciado por pressões partidárias, ACM Neto concedeu os cargos máximos das secretarias de Urbanismo e Transporte, Cidade Sustentável e da Educação aos, na época, presidentes baianos do DEM, PV e PTN, José Carlos Aleluia, Ivanilson Gomes e João Carlos Bacelar, respectivamente.
Em entrevista ao ID 126, o professor e cientista político da Ufba, Wilson Gomes, afirma que todo o discurso que Neto vende como novo, não passa da replicação da velha forma de governar. “Não é um conjunto nem de pessoas extremamente jovens que não têm nada a ver com política, nem é aquilo que se falou muito na campanha, um secretariado de técnicos. Não tem nada disso aí. A maior parte é cota partidária, você vê claramente”.
Um fato importante a ser ressaltado é que João Carlos Bacelar foi o único secretário remanescente do governo de João Henrique, e não é à toa. Além de ter sido presidente do PTN na Bahia, Bacelar conta com o apoio de seis vereadores na Câmara Municipal, entre eles Carlos Muniz, candidato mais votado nas eleições de outubro.
Neto também acatou indicações de Geddel Vieira Lima (PMDB) e do PSDB de Antônio Imbassay. O apoio do PMDB no segundo turno rendeu a indicação de Paulo Fontana para a Secretaria de Habitação e Defesa Civil, já o PSDB conseguiu colocar o paulistano Mauro Ricardo na Secretaria da Fazenda. No início, especulou-se que esta pasta seria assumida por Paulo Souto, mas segundo o próprio prefeito, o ex-governador recusou a proposta.
Wilson Gomes destaca que “O PMDB de Geddel foi muito importante. Como ele vai tirar gente da cota de Geddel? Ainda tem o DEM tradicional, que vem da herança do carlismo, que também não pode descartar. Além de pessoas que perderam. O Pedro Godinho, por exemplo, que não foi reeleito vereador, (mas se tornou o novo gestor da Assessoria de Assuntos Institucionais), assim como manter Bacelar no cargo. Acatar indicações de Geddel e de partidos como o DEM seria inevitável”.
Fórmula antiga – Já o cientista político Jovianiano Neto chama a atenção para a presença de Rossema Maluf na Secretaria de Ordem Pública. Segundo ele, Rossema não foi escolhida apenas pela questão de gênero. A principal motivação seria a sua atuação enquanto empresária: “Ela é dona de um shopping na Barra, dirigente do Clube de Lojistas e membro da Associação Comercial. Representa os interesses dos lojistas, e vai ter uma ação totalmente orientada na organização do comércio ambulante na cidade”, resume. O cientista político chama a atenção também, para a presença de Luciana Rodrigues Vieira Lopes, na Procuradoria Jurídica. Segundo o estudioso, além de ser filha do ex-deputado Antonio Rodrigues, carlista histórico, e representar uma elite econômica baiana, Luciana tem uma provável relação de convívio social com a família Magalhães e, dessa forma, não deixaria de compor o secretariado.
Também compõem o governo: o chefe de gabinete João Roma Neto, pernambucano, especialista em informática, que vem trabalhando com Neto nesse segmento nos últimos dois anos; Isaac Edigton, ex-diretor da TV Bahia, como responsável pelo Escritório da Copa e Reinaldo Braga Filho do PR, escolhido para se tornar o coordenador de prefeituras de bairros.
ACM Neto utilizou uma fórmula antiga para formação do seu secretariado, mas ele trouxe alguns avanços. De acordo com o professor Joviniano Neto “a inserção das pautas de ações afirmativas, como cotas, através da figura da vice Célia Sacramento, que é negra e ambientalista, afiliada ao PV”, confirmam esta tese. Ainda segundo o especialista, há sim a replicação do antigo, mas com a tentativa de dar uma nova cara ao DEM, que não tem história de lutas por ações afirmativas.
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