Cursos superiores de Música Popular são incipientes

- 12/06/2011

Novos cursos suscitam debates sobre expressão popular e padrões musicais

Por Rafael Brandão

Os cursos superiores de música popular são, em geral, ainda iniciantes no Brasil. Um estudo realizado em 2008 por Liliana Harb Bollos, da Faculade de Música Carlos Gomes, em São Paulo, mostra que sequer existe uma oferta sistemática de bibliografia específica para esse tipo de formação – mesmo havendo mais de 20 anos desde que o primeiro curso desse tipo no surgiu no Brasil, na Universidade de Campinas (UNICAMP), em 1989.

Apesar dessa incipiência, o surgimento das graduações em música popular faz cair por terra a idéia de que o ambiente musical universitário – que representa algo como uma elite musical, no sentido intelectual – deve ser um espaço reservado apenas à erudição.

Ivan Huol, baterista que há cerca de 30 anos se dedica à música na Bahia, com ênfase em trabalhos instrumentais, diz que a divisão entre o popular e o erudito é frequentemente insuficiente para esclarecer a diversidade das expressões musicais.

“O que a gente chama, sem muito rigor, de música erudita e música popular, são formas de expressão musical que exercem influências mútuas entre si. Arranjos rebuscados em músicas populares, por exemplo, são indicadores de que há elementos eruditos ali”, explica Ivan.

Rowney Scott, coordenador do curso de Música Popular da UFBA, diz que a divisão entre erudito e popular, quando acompanhada por julgamentos que atribuem superioridade ou inferioridade a princípio, já está defasada no campo acadêmico das artes há muito tempo. Mas o senso comum ainda a mantém – o que causa o preconceito gerador de discursos que incriminam certos formatos de expressão musical.

O aspecto social da questão, que seria um forte motor do preconceito apontado por Rowney, é frisado por Marcelo Galvão, mestrando em Dança pela UFBA. Ele avalia o cenário musical hoje predominante em Salvador, que é constantemente acusado de ter baixo valor cultural, especialmente se comparado com as contribuições que a música baiana teve para a tradição cultural brasileira no passado.

“Esse tipo de música mais massiva, como o pagode e o axé, repercute aqui na Escola de Dança e causa muita polêmica. Mas não acho que seja a decadência da música baiana, como muita gente diz por aí. Acho que mostra a realidade dos guetos. Sou a favor disso. Não que eu goste, mas gosto que ela aconteça. Para mim, é uma forma de manifestação”.

Marcelo diz acreditar que o formato com que, por exemplo, o pagode baiano atual tem acontecido, trazendo continuamente letras que vulgarizam as mulheres, representa um antigo problema social: a precariedade das escolas, que estorvaria o acesso ao conhecimento sobre as diversidades culturais. “No contexto em que vivem, aquelas pessoas só sabem falar aquilo ali. Isso é muito válido como forma de expressão. Acho que a gente tem que fazer o que sabe”, opina.

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