Profissão: “gigueiro”

- 04/02/2013

Histórias de quem trabalha como músico freelancer

Clara Marques e Sara Regis

Foto: Sara Regis

Rodrigo Fróes atua hoje exclusivamente como baixista sideman, músico freelancer, de outros artistas. Já fez parte de bandas autorais, mas há alguns anos não participa como sócio, integrante ou parceiro de um trabalho próprio. “Deixei de apostar em trabalhos autorais porque a rentabilidade é negativa, investe-se mais do que ganha-se e pagar para trabalhar é fora da minha realidade”. Ele não considera uma gig como um trabalho qualquer e a carreira de outra pessoa, mas sim como o seu trabalho e a sua carreira também. “Mesmo que não sejam as minhas músicas, sou eu tocando, é o meu nome como músico e minha cara que aparece de qualquer modo e, portanto, trato com o mesmo profissionalismo”. Para ele, mais importante que o quê está tocando é com quem está tocando, se a equipe é boa, se é um trabalho musicalmente interessante, se tem qualidade artística. “Já fiz vários trabalhos por questões exclusivamente financeiras, mas isso não tem nada a ver com gênero musical. Trabalho é trabalho, não vejo distinção se é rock ou arrocha. Vivo da música, se ambos pagam um cachê justo, ambos são trabalho para mim. Acho que cada gênero tem sua linguagem peculiar e é rico ao seu modo, seja poeticamente, harmonicamente, ritmicamente, etc. E tento aproveitar de cada um tudo o que for possível. Sempre haverá algo a aprender em cada gênero e algo a somar à minha formação musical”.

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Foto: Arquivo Pessoal

Jorge Chichôrro é músico “gigueiro” e empresário. Hoje, as duas atividades ocupam o mesmo “posto” em sua rotina, mas acredita que a música “envolve uma série de valores que nenhuma profissão abrange”. Tik, como também é conhecido, encara as gigs que faz exatamente como qualquer trabalho “convencional” em alguma organização, pois, para ele, os dois demandam igualmente “competência, pontualidade, responsabilidade, seriedade, saber trabalhar em grupo, etc”. Ele toca em projetos covers, barzinhos e eventos corporativos, além de rock, também pop e “algo de MPB”, mas fica “por uma praia” que o agrada. Gostar do som é uma das condições para aceitar um trabalho. Se considera bem remunerado levando em conta o valor por hora que se ganha, “porém é necessário trabalhar e ter uma agenda cheia para ter bastantes horas remuneradas”. Chichôrro faz a maioria das gigs muito pelo prazer e para divulgar o trabalho, mas também não vê nenhum problema em tocar também apenas pelo cachê, seria como “trabalhar numa função ou empresa que você não goste, mas o salário é ótimo”.

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Foto: La Fotita

Ricardo Sato é engenheiro eletricista de formação, trabalhou na área de automação por alguns anos, mas hoje dedica-se integralmente à música. Já participou de bandas autorais e atualmente tem alguns projetos novos em fase inicial. Por enquanto, toca apenas com a sua banda de covers, a traVoltA toca Rock, e faz gigs. Para ele, mesmo tratando a gig como um trabalho acima de tudo, faz diferença tocar rock ou tocar axé ou outro gênero. Mas reconhece que precisa pagar as contas. “A prioridade para mim não é o rock, mas sim a música. O rock é uma das minhas principais escolas assim como o blues, então estará presente de alguma forma, creio eu. Mas existe espaço para vários outros caminhos que também aprecio muito. Hoje vivo de música e minha pretensão é continuar vivendo dela. Invisto nela, estudo, pratico, pesquiso e arrisco”. Sato acredita ainda que quem tem capacidade de criar só se sente realizado tocando algo autoral. “E autoral não digo apenas no sentido de criar uma canção, mas em imprimir uma personalidade no que está fazendo. Pode ser uma interpretação vocal, um arranjo, um improviso em standards, enfim. Algo que não seja apenas reprodução, mas produção. Acho que o músico, artista, intérprete tem que trazer algum diferencial e emocionar as pessoas”. Apesar da questão financeira ser um dos fatores recompensadores para algumas apresentações em que a banda é apenas um “extra”, como barzinhos, eventos corporativos e festas particulares, ele afirma que, na média, os cachês são baixos. “Somos mal pagos, fato. Isso vale para arte em geral”.

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